Leitura(s) do ano de 2014

Na edição que sai com a data do primeiro dia do novo ano, o jornal Presente Leiria-Fátima lança um olhar de análise e síntese sobre o ano que fica para trás.

Para tal, pedimos a colaboração de pessoas ligadas a diversas áreas da vida social, política, cultural, económica, desportiva e eclesial.
Embora em abordagens focadas em determinada perspetiva, verificamos como estas leituras se cruzam e tocam reciprocamente, porque a vida é essa mesma riqueza de vivências que formam o humano. Num contexto de fé, uma multiplicidade de ambientes em que se manifesta e experimenta, também, o divino.
Com luzes e sombras, como se conclui destes textos, e mesmo sem certezas quanto ao destino em que desembocam alguns dos “túneis” que atravessamos, aparece explícito ou nas entrelinhas um sinal de confiança, uma palavra de esperança num amanhã melhor. Nesse sentido, esta(s) leitura(s) do ano que passou transportam também a perspetiva da fé. E o voto que deixamos aos nossos leitores para o Novo Ano.

 

2015-01-01 Leopoldina-simoes

 

 

 

Fátima com atração imparável

LeopolDina Simões | Assessora de Imprensa do Santuário de Fátima

O ano que terminou foi para o Santuário de Fátima mais um passo da caminhada de preparação e vivência do Centenário das Aparições. Desde 2010 que ganha consistência, paulatinamente, um programa celebrativo, que partiu de um itinerário temático, e que se desenrola ao longo de sete anos, culminando no ano de 2017. À imagem de uma grande barca que caminha rumo a bom porto, guiada pelo tema geral do Centenário “O meu Coração Imaculado conduzir-vos-á até Deus”, 2014 foi mais um percurso neste trajeto de aproximação à Mensagem de Fátima, no caso, através da evocação de uma das aparições, a de 13 de julho de 1917, em que o Segredo foi revelado aos Pastorinhos. Por meio de um conjunto de atividades, como uma exposição temporária, um ciclo de conferências, um curso de formação sobre a mensagem de Fátima, um simpósio, entre outras, além das peregrinações mensais e aniversárias, procurou-se que os peregrinos se sentissem “Envolvidos no amor de Deus pelo Mundo”, tema do ano pastoral que exortava para uma atitude em concreto: o amor, ao próximo e a Deus.
Permitam-me que destaque algumas atividades, a meu ver talvez as de maior impacto. Em Portugal, o ano ficou marcado pela peregrinação da primeira Imagem Peregrina de Fátima aos mosteiros de clausura do país, um roteiro de oração e de união fraterna com muitos rostos e testemunhos, que termina a 2 de fevereiro de 2015.
Pela primeira vez foi mostrado ao público o Manuscrito da Terceira Parte do chamado Segredo de Fátima, documento propriedade da Santa Sé que esteve em Fátima na exposição temporária “Segredo e Revelação”, oportunidade única para se contemplar o texto escrito pelo punho da vidente Lúcia.
Por o Santuário pretender alcançar outras sensibilidades e quadrantes, mais do âmbito cultural, maio de 2014 viu nascer o projeto editorial “Fátima XXI – Revista Cultural do Santuário de Fátima”, onde se entrecruzam interpretações multidisciplinares que enriquecem a reflexão sobre a mensagem e sobre os acontecimentos de Fátima, objeto e objetivo deste projeto.
Presenciei ainda como que a uma ebulição em crescendo de contatos de todo o mundo, de âmbitos muito diversos, todos interessados em juntarem-se à celebração do Centenário das Aparições, cada qual ao seu modo. Alguns desses locais chegaram em 2014 à grande tela que é o cinema com a estreia, em maio, do documentário “Fátima e o Mundo”, da autoria do escritor Manuel Arouca e onde encontramos rostos, celebrações e lugares, muitas vezes inesperados, marcados pela devoção a Nossa Senhora do Rosário de Fátima.
Com a grande marca da devoção mariana, um acontecimento especial marcou o ano. O bispo de Leiria-Fátima e o reitor do Santuário de Fátima ofereceram, em nome da Instituição, uma Imagem de Nossa Senhora de Fátima ao Santuário de Aparecida, no Brasil. O acolhimento e a entronização da Imagem mostraram a já por demais evidente devoção do povo brasileiro a Nossa Senhora de Fátima, dando-se início a um conjunto de gestos e celebrações que se estenderão até 2017, em que Fátima celebrará o Centenário das Aparições e Aparecida o Tricentenário do Encontro da Imagem de Nossa Senhora da Conceição.
O ano 2014 foi ainda aquele em que se semearam diversos projetos nas áreas da cultura e da pastoral, alguns nascidos no âmbito de protocolos ou acordos específicos, que frutificarão em 2016-2017, onde se espera que um caudal ininterrupto de pessoas por todo o mundo volte o olhar e o coração de forma mais próxima para o Santuário de Fátima e, sobretudo, para a Mensagem deste lugar.

 

2015-01-01 Acacio-Lopes

 

 

 

2014, o antes e o depois.

Acácio Faria Lopes | Dirigente da ACEGE em Leiria

Não tenhamos dúvidas. O ano que terminou é menos um ano de transição e mais um marco da história portuguesa recente, sobretudo pós democracia.
Muitos foram os acontecimentos políticos, jurídicos e sociais que tiveram consequências económicas e que mostraram que Portugal virou a página da inércia e dos “ brandos costumes”.
Diz o povo que “ há males que vêm por bem”. Estou a pensar na TroiKa que, com os seus poderes hipotecários, creditícios, penhoraram a nossa soberania a ponto de governar o nosso País com uma procuração assinada pelos principais partidos portugueses.
Quando Júlio César, imperador Romano, dizia que existia um povo no extremo da Europa ( Os Lusitanos), que não se governavam nem se deixavam governar, eis que por imperativos de sobrevivência económica nacional, fomos governados, e penso que aprendemos a ter que nos governar. Deus nos ouça!
De facto em 2014, pela 1ª vez em Portugal, um ex-primeiro ministro foi detido. A procissão ainda vai no adro, mas o facto por si demonstra que a justiça e uma nova cultura de apelo à responsabilidade e transparência pela coisa pública começa a fazer o seu caminho.
Nada do que aconteceu seria possível, não fosse uma nova mentalidade e maturidade de dois poderes: o povo e o outro que deriva dele – a justiça.
De facto, o povo começou a ter uma atitude de escrutínio perante os órgãos de soberania e a exigir verdade e transparência. Temos o exemplo do combate à corrupção, à fraude fiscal, branqueamento de capitais e trafego de influências.
Os tribunais, por seu lado, não só aplicaram a lei, mas atribuíram o principio de que todos são iguais perante a lei. O ano de 2014 foi prova evidente dessa justiça.
De igual modo, o instituto da Entidade Reguladora foi dignificado e mostrou trabalho. Lembramos o exemplo do Governador do Banco de Portugal, embora com falhas naturais.
Estes foram os aspectos mais positivos, com relevância económica, porque removeram obstáculos que impediam o normal desenvolvimento da economia.
Um império caiu em 2014, o GES, e as várias empresas que dele faziam parte. Caíram como um baralho de cartas, arrastando os banqueiros Espírito Santo, geração centenária, para a falência e a desonra. Deixaram de haver donos de Portugal, finalmente.
Nesta onda, foram arrastadas, entre outras empresas, o banco BES, motor da economia portuguesa, que faliu ou deixou de existir e a PT, empresa considerada sólida, reconhecida internacionalmente pelas suas competências e pelo seu ADN inovador, cujo futuro é incerto e entregue ao poder do dinheiro. Esperamos que os responsáveis sejam apurados! Um tsunami para economia portuguesa e para a imagem de Portugal
Não podemos esquecer o fraco arranque do crescimento económico, a teimosa percentagem do desemprego e o forte endividamento público e privado. É porém o desemprego a maior ferida da nossa economia, que cria bolsas de pobreza na vida de milhares de famílias.
Temos a certeza de que Portugal tem futuro e que a prazo será restabelecida uma nova fase de desenvolvimento.

 

2015-01-01 Marcelo-Rebelo-de-Sousa

 O mundo, a Europa e o nosso país em 2014

Marcelo Rebelo de Sousa

1. No mundo, houve uma figura determinante. Não Obama. Nem Putin. Ou Merkel. Ou mesmo Draghi. Ou qualquer líder do chamado Estado Islâmico. Ou personalidade económica, financeira ou social. Essa figura era e é mais do que uma mera figura mediática, conjuntural, preocupada com questões tácticas ou sucessos de ocasião.
Penso no Papa Francisco. Exemplar na coerência da luta pela Paz, a Justiça, a atenção aos mais pobres, explorados, sacrificados, esquecidos, a reafirmação dos valores cristãos na sociedade actual, a revisão de condutas na própria Igreja, a começar na Cúria romana.
Os derradeiros sinais deste testemunho papal foram o reatamento de contactos entre EUA e Cuba e o apelo dirigido à Cúria em vésperas de Natal.
Num universo a braços com problemas graves de relativismo moral e de desrespeito da dignidade da pessoa humana, a força da mensagem papal ultrapassa a dimensão da comunidade de crentes que o acompanham na Fé, para se projectar em todas as latitudes e longitudes.
2. Na Europa, infelizmente, persistiram e persistem os factores de indecisão, de incerteza, que a proximidade de anos eleitorais agitados apenas acentua.
O crescimento, o emprego, a mais equitativa repartição de rendimentos continuam metas sem concretização evidente e duradoura.
O Velho Continente parece condenado a uma viragem lenta e, porventura, titubeante.
3. Portugal foi cenário de muitas e pesadas contradições.
A Troika saiu, mas a crise ainda não partiu. A esperança começou a regressar, mas o desaparecimento do BES, a sensação de acrescidos escândalos de contornos judiciais – da prisão preventiva de José Sócrates à dos responsáveis pelos Vistos Gold –, a radicalização do discurso político suscitaram interrogações, ainda sem resposta cabal.
Greves urbanas sem fim, perturbações no ensino, pulverizações partidárias e descredibilização de muitos protagonistas cimeiros coexistiram com expectativas de mudança para melhor nos tempos vindouros.
4. Em geral, a necessidade de valores claros, de instituições confiáveis, de sensibilidade social, de recuperação de uma visão humanista da vida ganhou centralidade. No mundo, na Europa, em Portugal.
O que convida a terminar pelo início destas palavras. Pelas chamadas de atenção de Francisco.
Só uma reconversão profunda de sistemas, práticas e suas justificações pode abrir caminhos de futuro. Tudo o mais é rodar à volta da nora. Fingir que se avança, ficando exactamente onde se estava. Ou pior. Mais cansado, desiludido, descoroçoado.
Ora, do que precisamos é do contrário: razões para acreditar!
Acreditar! Esse o grande desafio para 2015!

 

2015-01-01 Acacio-de-Sousa

 

 

Leiria multicultural: um balanço

Acácio Sousa | presidente do Orfeão de Leiria

Em tempos de crise que afeta tanta família, a tendência é para a cultura ficar em segundo plano, pois a urgência deverá ser o apoio às inúmeras situações difíceis com que nos deparamos todos os dias.
Na verdade, as emergências sociais deverão ganhar prioridade, o que deverá estar presente em todos e sobretudo, em quem tem poder de decisão política e económica. Contudo, a cultura é tudo o que as sociedades constroem para a sua sobrevivência, são os valores e as crenças, os caminhos de contemplação e de enriquecimento intelectual. Por isso, não só a genuína produção cultural não pára como, ao ser um factor de identidade das comunidades, é também um forte motor de coesão social.
No ano de 2014, foi muita a oferta cultural no concelho de Leiria e apesar de muitas vezes se apostar na mera comercialização dos eventos, também aconteceram os que apostaram na verdadeira relevância artística e patrimonial.
Fiquemo-nos, apenas, por alguns exemplos.
O Museu de Leiria deu passos decisivos para ser a realidade tão ansiada há mais de 100 anos. A Sé foi classificada como monumento nacional e integrada na Rota das Catedrais. Nesta sequência, a Torre Sineira foi recuperada e está em vias de ser aberta ao público. Os Silence 4 regressaram com um hino à Vida. A SAMP e o Orfeão deram um abraço público. O multiculturalismo, que sempre foi uma verdadeira marca de Leiria desde a sua fundação, veio reavivar o diálogo judaico-cristão com a integração de Leiria nas Rotas Sefarad e se já tínhamos em Rodrigues Lobo um cristão-novo como um expoente da literatura nacional, passámos a lembrar o Pe. Joaquim Carreira como figura protetora de judeus na 2ª Guerra Mundial.
Todavia, nem tudo corre bem. O mecenato cultural quase desapareceu, tanto pela crise que atingiu muitas empresas, como pelo pouco incentivo dado à responsabilidade social e à associação a eventos de prestígio. Honra aos que se mantêm, tendo nós na Fundação da Caixa Agrícola uma Gulbenkian à escala local. Falta transmitir qualidade e inovação a múltiplas iniciativas concorrenciais, mas que se tendem a vulgarizar. Falta um modelo para levar, de forma consistente, o ato cultural às escolas e falta dar mais protagonisto aos agentes culturais que aos poderes públicos, com critérios de apoio assentes em indicadores de coesão social e de projeção do concelho. Falta ao Estado evitar desequilíbrios nos contratos que tem com as escolas de ensino artístico, e que não crie o risco de centenas de crianças verem coartadas as suas vocações, ou de centenas de trabalhadores serem lesados nas suas remunerações.
De qualquer modo, a grande aposta na cultura em Leiria, em 2015, será o exemplo multicultural com o Centro do Diálogo Interculturas que irá surgir na igreja da Misericórdia e com o Museu. E já agora, porque me toca em particular, o Orfeão de Leiria continuará a ser um dos principais baluartes das boas causas culturais.

 

2015-01-01 Octavio-Carmo

 

 

O desafio da paz

Octávio Carmo | Agência ECCLESIA

2014 fica marcado pela violência fundamentalista que atingiu milhões de cristãos e membros de outras minorias religiosas no Médio Oriente. É sem dúvida a sua pior face, uma ferida que tarda em fechar-se, apesar dos repetidos alertas contra a “indiferença” do mundo ocidental que têm sido lançados pelo Papa. Francisco tem sido um guia fundamental, aliás, para não transformar este abominável conflito numa guerra entre religiões.
A busca da paz levou o Papa à Terra Santa e à Turquia, por exemplo, onde fez justiça ao termo ‘pontifex’, aquele que constrói pontes. O ano de Francisco contou com momentos altos, como a canonização dos Santos João XXIII e João Paulo II ou os discursos – entre os melhores do pontificado – diante das instituições europeias em Estrasburgo.
O mês de outubro ficou marcado pela realização da primeira das duas assembleias sinodais sobre a família, no Vaticano. Duas semanas de trabalho com ampla atenção mediática e intenso debate sobre temas centrais na vida das comunidades católicas e da sociedade hoje, que definem muito bem qual é o conceito de governação e de liderança do Papa argentino.
Neste ano, além das palavras, Francisco deixou como herança gestos simbólicos, mesmo de silêncio, como as paragens junto ao muro de Belém e ao Muro das Lamentações, a invocação pela paz com os presidentes de Israel e da Palestina ou a oração na Mesquita Azul de Istambul.
Em Portugal, a Igreja Católica viu partir duas figuras de referência, essenciais para compreender a sua ação e pensamento nas últimas décadas: em março, falecia o patriarca emérito de Lisboa, D. José Policarpo, e no final de maio morria D. Eurico Dias Nogueira, a última «memória viva» do II Concílio do Vaticano. Uma herança de reflexão e de intervenção que tem sido continuada por muitos dos que se desdobram no combate a uma crise económica que teima em não dar tréguas e aos que sabem que um mundo melhor se constrói com base em valores de fundo, que tenham como prioridade a dignidade inviolável de cada ser humano, em todas as fases da sua vida.
2014, marcado por vários conflitos, doenças mortais e violações dos Direitos Humanos, acabou com uma notícia inesperada, que abre uma porta de esperança: os Estados Unidos da América e Cuba decidiram reatar relações bilaterais após décadas de separação, com a mediação pessoal do próprio Papa. O ano do Daesh, do ébola, da guerra na Ucrânia, da Legionella, deixa o desejo de que 2015 seja melhor, com um mundo mais solidário, mais justo e mais atento ao desígnio divino de paz para a humanidade.

 

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