Lectio divina para o 6º Domingo do Tempo Comum, Ano A

No Evangelho de hoje, Jesus refere-se à lei do Antigo Testamento: os mandamentos de Deus. Segundo o pensamento de Jesus, a Lei não consiste em princípios meramente externos.

 

A Lei e os Profetas

Por Ir. Adelaide Gonçalves

Breve introdução

No Evangelho de hoje, Jesus refere-se à lei do Antigo Testamento: os mandamentos de Deus. Segundo o pensamento de Jesus, a Lei não consiste em princípios meramente externos. Também não é uma imposição vinda de fora. Na verdade, a Lei de Deus corresponde ao ideal de perfeição que está radicado no coração de cada homem. Esta é a razão pela qual aquele que cumpre a lei de Deus se torna realizado nas suas aspirações humanas e espirituais, assim como na perfeição do cristianismo, como refere Jesus: «Aquele que os praticar e ensinar, esse será grande no reino dos céus» (Mt 5, 19).

1. Invocação

Senhor Jesus Cristo,
Filho Unigénito do Pai,
Tu que obedeceste sempre
e em tudo à Sua Santa Vontade.
Ensina-nos a cumprir fielmente a Lei de Deus,
ideal radicado no coração de cada homem.
Jesus, amplia a Vossa Lei em nossos corações,
para que se respeite a vida até ao fim,
para que se ame com um amor puro e santo,
para que se cuide com carinho e ternura de mãe.
Que os casais sejam fiéis até ao fim no amor indissolúvel.
Senhor Jesus, a lei de Deus é perfeita:
que ela reconforte os mais débeis
e dê a sabedoria aos simples;
que os vossos mandamentos iluminem os olhos,
para que possamos ver e cumprir a Lei do Senhor.
Ámen.

2. Escuta da Palavra de Deus

2.1. Vamos escutar uma passagem do Evangelho segundo São Mateus

“A liturgia deste domingo faz-nos meditar sobre a Lei e os Profetas (cf. Mt 5, 17-37), porque Jesus quer conduzir a Lei e a Profecia sua perfeição restituindo-as à sua simplicidade original.

Pela fé confirmamos a Lei (cf, Ro 3,31)

2.2. Leitura do Evangelho segundo São Mateus (Mt 5, 17-37)

17«Não penseis que vim revogar a Lei ou os Profetas. Não vim revogá-los, mas levá-los à perfeição. 18Porque em verdade vos digo: Até que passem o céu e a terra, não passará um só jota ou um só ápice da Lei, sem que tudo se cumpra.

19Portanto, se alguém violar um destes preceitos mais pequenos, e ensinar assim aos homens, será o menor no Reino do Céu. Mas aquele que os praticar e ensinar, esse será grande no Reino do Céu. 20Porque Eu vos digo: Se a vossa justiça não superar a dos doutores da Lei e dos fariseus, não entrareis no Reino do Céu.»

21«Ouvistes o que foi dito aos antigos: Não matarás. Aquele que matar terá de responder em juízo. 22Eu, porém, digo-vos: Quem se irritar contra o seu irmão será réu perante o tribunal; quem lhe chamar ‘imbecil’ será réu diante do Conselho; e quem lhe chamar ‘louco’ será réu da Geena do fogo.

23Se fores, portanto, apresentar uma oferta sobre o altar e ali te recordares de que o teu irmão tem alguma coisa contra ti, 24deixa lá a tua oferta diante do altar, e vai primeiro reconciliar-te com o teu irmão; depois, volta para apresentar a tua oferta. 25Com o teu adversário mostra-te conciliador, enquanto caminhardes juntos, para não acontecer que ele te entregue ao juiz e este à guarda e te mandem para a prisão. 26Em verdade te digo: Não sairás de lá até que pagues o último centavo.»

27«Ouvistes o que foi dito: Não cometerás adultério. 28Eu, porém, digo-vos que todo aquele que olhar para uma mulher, desejando-a, já cometeu adultério com ela no seu coração.

29Portanto, se a tua vista direita for para ti origem de pecado, arranca-a e lança-a fora, pois é melhor perder-se um dos teus órgãos do que todo o teu corpo ser lançado à Geena. 30E se a tua mão direita for para ti origem de pecado, corta-a e lança-a fora, porque é melhor perder-se um só dos teus membros do que todo o teu corpo ser lançado à Geena.»

31«Também foi dito: Aquele que se divorciar da sua mulher, dê-lhe documento de divórcio. 32Eu, porém, digo-vos: Aquele que se divorciar da sua mulher – excepto em caso de união ilegal – expõe-na a adultério, e quem casar com a divorciada comete adultério.»

33«Do mesmo modo, ouvistes o que foi dito aos antigos: Não perjurarás, mas cumprirás diante do Senhor os teus juramentos. 34Eu, porém, digo-vos: Não jureis de maneira nenhuma: nem pelo Céu, que é o trono de Deus, 35nem pela Terra, que é o estrado dos seus pés, nem por Jerusalém, que é a cidade do grande Rei. 36Não jures pela tua cabeça, porque não tens poder de tornar um só dos teus cabelos branco ou preto. 37Seja este o vosso modo de falar: Sim, sim; não, não. Tudo o que for além disto procede do espírito do mal.»

2.3. Breve comentário

A liturgia hodierna apresenta-nos outra página do Sermão da montanha, que encontramos no Evangelho de Mateus (cf. 5, 17-37). Neste trecho, Jesus quer ajudar os seus ouvintes a fazer uma releitura da lei mosaica. O que foi dito na antiga aliança era verdadeiro, mas não era tudo: Jesus veio para dar cumprimento e para promulgar de forma definitiva a lei de Deus, até ao último jota (cf. v. 18). Ele manifesta as suas finalidades originárias e cumpre os seus aspetos autênticos, e faz tudo isto mediante a sua pregação e mais ainda com o dom de si mesmo na cruz. Assim Jesus ensina como fazer plenamente a vontade de Deus e usa esta palavra: com uma “justiça superior” em relação à dos escribas e dos fariseus (cf. v. 20). Uma justiça animada pelo amor, pela caridade, pela misericórdia, e, portanto, capaz de realizar a substância dos mandamentos, evitando o risco do formalismo. O formalismo: isto posso, isto não posso; até aqui posso, até aqui não posso… Não: mais, mais. (Papa Francisco, Angelus, 12.02.2017)

3. Meditação

Parafraseando o Papa Francisco meditemos com ele sobre os três aspetos espelhados no Evangelho de hoje: o homicídio, o adultério e o juramento.

Relativamente ao mandamento “não matar”, Ele afirma que foi violado não só pelo homicídio efetivo, mas também por aqueles comportamentos que ofendem a dignidade da pessoa humana, inclusive as palavras injuriosas (cf. v. 22). Certamente, estas palavras injuriosas não têm a mesma gravidade e culpabilidade do assassínio, mas no nosso dia a dia, vemos, escutamos e testemunhamos comportamentos abusivos, agressivos e de violência que não podemos mais calar, sejam de que tipo forem são reveladores do mal. Jesus convida-nos a não estabelecer uma classificação das ofensas, mas a considerá-las todas prejudiciais, pois são movidas pelo intento de fazer mal ao próximo. E Jesus dá o exemplo. Insultar: estamos acostumados a insultar, é como dizer “bom dia”. E isto está na mesma linha do homicídio. Quem insulta o irmão, mata no próprio coração o irmão. Por favor, não insulteis! Não ganhamos nada. Rivalizemos pelo amor.

  • Como é a minha relação com os outros: de respeito, apreço, valorização e amor ou de maledicência, desprezo, murmuração e inimizade?

Outro cumprimento é relativo à lei matrimonial. O adultério era considerado uma violação do direito de propriedade do homem sobre a mulher. Ao contrário, Jesus vai à raiz do mal. Assim como se chega ao homicídio por meio de injúrias, ofensas e insultos, também se chega ao adultério mediante as intenções de posse em relação a uma mulher que não é a própria esposa. O adultério, como o furto, a corrupção e todos os outros pecados, são concebidos primeiro no nosso íntimo e, depois de o coração ter feito a escolha errada, ganham forma no comportamento concreto. E Jesus diz: quem olha para uma mulher que não é a própria com sentimentos de posse é um adúltero no seu coração, começou o caminho rumo ao adultério. Pensemos um pouco sobre isto: sobre os maus pensamentos que vêm nesta linha.

  • Como é o meu olhar e pensamento em relação à mulher ou ao homem: é puro ou malicioso? Que tipo de anedotas ou piadas aprecio: as com pimenta as que nos dão um riso honesto e positivo?

Depois, Jesus diz aos seus discípulos para não jurar, pois o juramento é sinal da insegurança e da duplicidade mediante a qual se desenrolam as relações humanas. Instrumentaliza-se a autoridade de Deus para dar garantia às nossas vicissitudes humanas. Pelo contrário, fomos chamados para instaurar entre nós, nas nossas famílias e nas nossas comunidades um clima de clareza e de confiança recíproca, para que possamos ser considerados sinceros sem recorrer a intervenções superiores a fim de sermos credíveis. A desconfiança e a suspeita recíproca sempre ameaçam a serenidade!

  • Sou verdadeiro e nas minhas relações, posições e afirmações inspiro confiança? Tenho, por princípio, confiança nos outros e só a ponho em causa depois de os ouvir e conhecer? 

Que a Virgem Maria, mulher da dócil escuta e da obediência jubilosa, nos ajude a aproximar-nos cada vez mais do Evangelho, para sermos cristãos não “de fachada”, mas de substância! E isto é possível com a graça do Espírito Santo, que nos permite fazer tudo com amor, e assim realizar plenamente a vontade de Deus. (Papa Francisco, Angelus, 12.02.2017)

4. Propósito e Oração final

– Que ao longo desta semana cada um de nós releia o texto do Evangelho, e aponte no diário espiritual, o que já é vida, louvor e graça, e sublinhe aquele ponto mais frágil em que cai mais vezes, para, assim, reiniciar uma caminhada de toda uma vida, mas que não se quer descurada da nem descuidada.

– Pai Nosso

Repositório LECTIO DIVINA
https://bit.ly/2W4uDI6

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