Nove anos após o falecimento do pintor e escultor Fernando Marques, ocorrido a 13 de maio de 2017, a comunidade das Cortes reuniu-se na igreja paroquial para uma sentida homenagem ao artista que viveu na Abadia e cuja obra permanece profundamente ligada à identidade cultural e espiritual da freguesia. A evocação revestiu-se de especial simbolismo por ter decorrido precisamente no templo onde Fernando Marques recebeu o Batismo e onde subsistem algumas das mais significativas expressões do seu legado artístico.
A cerimónia integrou a celebração da Eucaristia, presidida pelo padre David Barreirinhas, antigo aluno do homenageado, que evocou Fernando Marques como homem de cultura, mestre dedicado e criador de rara sensibilidade estética e humana. Nas palavras do sacerdote, o artista soube transformar a arte num espaço de procura interior e de elevação espiritual, fazendo da pintura, da escultura e do desenho formas de diálogo entre a beleza, a memória e a transcendência.
A celebração foi enriquecida pela participação do Coro da Filarmónica das Cortes e de um grupo de músicos da mesma instituição, cuja interpretação musical conferiu à sessão um ambiente de solenidade, recolhimento e emoção, em plena vivência da Solenidade de Nossa Senhora de Fátima.

Legado artístico e biografia em destaque
Num dos momentos mais marcantes da homenagem, Paula Marques, filha do escultor, apresentou uma síntese biográfica do pai, recordando o seu percurso artístico, intelectual e humano. Evocou, de forma particular, a primeira e a última obras de inspiração religiosa realizadas por Fernando Marques, bem como outras criações que permanecem intimamente associadas às Cortes, nomeadamente os vitrais da igreja paroquial e a imagem de Nossa Senhora do Monte.
Sublinhando a importância de preservar e valorizar o património artístico deixado pelo escultor, Paula Marques ofereceu ainda à paróquia uma placa evocativa contendo a reprodução em miniatura dos vitrais da igreja e informação explicativa sobre a obra, peça que deverá futuramente ser colocada no templo para contextualização e esclarecimento dos visitantes.
Ao longo da vida, Fernando Marques desenvolveu uma obra multifacetada nas áreas da pintura, escultura, desenho, ilustração e criação gráfica, deixando testemunhos artísticos em igrejas, espaços públicos, instituições culturais e projetos editoriais. Paralelamente à criação artística, manteve uma forte ligação ao ensino e à dinamização cultural, sendo reconhecido pelo contributo prestado à formação de várias gerações e à valorização da cultura de língua portuguesa.
A sua obra, marcada por uma profunda inquietação estética e espiritual, ultrapassa o mero valor monumental ou decorativo, afirmando-se como expressão de memória coletiva e património identitário. Nos vitrais que hoje iluminam a igreja das Cortes permanece, de forma silenciosa mas eloquente, a visão artística de Fernando Marques: uma arte onde a luz, a cor e a forma se convertem em linguagem de contemplação e esperança.
A homenagem terminou com palavras de gratidão pela herança humana, cultural e espiritual deixada pelo escultor, cuja presença continua viva na memória da comunidade e na beleza das obras que legou às Cortes.