Família, Misericórdia e Centenário das Aparições

 

Homilia de Final do Ano de 2015

 

 

Família, Misericórdia e Centenário das Aparições

† António Marto

Santuário de Fátima, 31 de dezembro de 2015

Refª: CE2015B-013

No final do ano civil encontramo-nos todos, mais uma vez, aqui reunidos em ação de graças a Deus, Senhor do tempo e da história. Queremos agradecer-Lhe todos os benefícios concedidos a cada um de nós, às nossas famílias, à Igreja e à humanidade; pedir-Lhe perdão pelas nossas infidelidades e invocar a sua misericórdia sobre o nosso mundo dilacerado por tantas formas monstruosas de violência e de guerra a fim de que os homens tenham vida verdadeira e justa.

Neste contexto desejaria evocar, apenas e brevemente, três momentos de maior importância para a nossa Igreja diocesana e para a Igreja universal.

1. Antes de mais apraz-me lembrar a conclusão do biénio dedicado à pastoral familiar, sob o lema “A beleza e a alegria de viver em família”, que encerrou com a grande Festa das Famílias. Este biénio coincidiu providencialmente com as duas sessões do sínodo dos bispos dedicadas ao mesmo tema e despertou grande interesse. A nossa reflexão centrou-se na descoberta da beleza do matrimónio e da família à luz do Evangelho, da grandeza desta realidade humana tão simples e tão rica, feita de alegrias e de esperanças, de fadigas e de sofrimentos como toda a vida, mas indispensável para a vida de cada pessoa e da sociedade, para o futuro da humanidade. De facto, a família lança as sementes de tudo. Todavia precisa do apoio da Igreja e da sociedade para realizar a sua vocação e missão. 

A Igreja é chamada a implementar, nas condições atuais, uma pastoral familiar  inteligente, corajosa e cheia de misericórdia, uma pastoral de acompanhamento, de discernimento e de integração eclesial. Por sua vez, a sociedade e o Estado devem honrar a família, que surge do matrimónio entre homem e mulher, com o respeito e o reconhecimento efetivo da sua missão social e dos seus direitos, sem a desprezar nem maltratar quando, com a maior leviandade, se tratam os problemas fundamentais que tocam a família. “É infeliz uma sociedade que não honra a instituição familiar; em pouco tempo tornar-se-á um conjunto de indivíduos desenraizados e anónimos”(Paulo VI), individualistas e indiferentes. A sociedade precisa de uma grande dose de espírito familiar para a sua coesão.

Não percamos a confiança nas famílias, exorta o Papa Francisco. Aquelas que vivem a alegria da fé, são fermento e bênção para a sociedade.

2. A nível da Igreja universal salientamos a proclamação do Ano Santo da Misericórdia pelo Papa Francisco. É um evento profético porque corresponde às necessidades mais urgentes do nosso tempo, da renovação da Igreja e do mundo. Nós vivemos num mundo ferido, cheio de feridas na vida pessoal, familiar e social, e, ao mesmo tempo, cínico em virtude da globalização da indiferença (insensível ao sofrimento do outro), do individualismo mais radical (que me importam os outros?) e da cultura do descartável (do que é peso, incómodo ou não dá proveito). Um mundo assim tem necessidade de uma cura de misericórdia: da misericórdia de Deus  sempre pronto a acolher-nos, a perdoar-nos, a curar as feridas, a levantar-nos das quedas, a oferecer-nos a graça da conversão; e também é preciso uma vida de misericórdia aberta às necessidades dos outros. De contrário, torna-se um mundo árido, inóspito, inumano,  violento. A própria Igreja vive da misericórdia e é chamada a deixar-se transformar por ela para ser oásis de misericórdia.

Deus pede-nos confiança na sua graça mais forte que o nosso pecado e a nossa fraqueza; não lhe agrada o pelagianismo de quem pensa que se salva só  com as suas forças. Não tenhamos medo de dar a nossa confiança a Deus!

Pede-nos a prática da misericórdia nas feridas da nossa carne; não lhe agrada o gnosticismo de uma fé desencarnada, reduzida a mera consolação espiritual.

Pede-nos a ternura do acolhimento e acompanhamento dos feridos e pecadores; não lhe agrada a rigidez da lei dura nem a dureza do coração.

Pede-nos a compaixão com quem sofre; não lhe agrada a indiferença cega e surda perante o sofrimento. Nesta linha, o Santo Padre propõe o tema da Jornada mundial da Paz: “Vence a indiferença e conquista a paz”, porque a indiferença mata a paz nos corações e nas relações entre as pessoas e os povos. O escritor Elie Wiesel, perante a indiferença face ao extermínio dos judeus nos campos de concentração, escreveu: “O oposto do amor não é o ódio, mas a indiferença”. Hoje, a globalização da indiferença é uma ameaça para a família humana.

3. Por fim gostaria de aludir ao Ano Jubilar Centenário das Aparições que se aproxima. Na visita dos bispos portugueses ad limina, o Papa Francisco expressou mais uma vez a sua grande vontade de estar presente em Fátima, a 12 e 13 de maio de 2017. É para nós motivo de júbilo, mas também apelo à responsabilidade da nossa preparação para tal evento. Para este efeito escrevi uma carta pastoral sobre “Maria, Mãe de Ternura e de Misericórdia” a fim de iluminar o percurso pastoral da diocese nos próximos dois anos. No primeiro ano procuramos contemplar Maria na história da salvação e do povo de Deus sob o lema “Feliz de ti que acreditaste”; no segundo ano aprofundamos a atualidade da mensagem de Fátima sob o lema “O meu Coração Imaculado conduzir-vos-á até Deus”. Tenho esperança de que o Centenário das Aparições seja um verdadeiro acontecimento de graça e de renovação espiritual para o nosso povo cristão. A visita da Imagem Peregrina, que tem suscitado tão grande entusiasmo, é já um contributo para essa desejada renovação.

 “Feliz de ti que acreditaste”! Maria acreditou e por isso é feliz, ditosa, bem-aventurada. Peçamos à Mãe de Deus que nos obtenha o dom de uma fé amadurecida: que esta fé se assemelhe na medida do possível à sua, uma fé límpida, genuína, humilde e ao mesmo tempo confiante, corajosa, cheia de esperança e de entusiasmo, uma fé orientada para cooperar alegremente com a vontade divina, na certeza absoluta de que Deus só deseja amor e vida, sempre e para todos.

No final do ano, sentimos a necessidade de invocar de modo especial a intercessão materna de Maria Santíssima. A Ela, que é a Mãe da Misericórdia encarnada, confiamos sobretudo as situações dramáticas do mundo em que somente a graça do Senhor pode trazer a paz, o conforto e a justiça.

Feliz Ano Novo a todos vós e às vossas famílias com as bênçãos da misericórdia do Senhor! 

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