Estamos em crise. E agora?

A crise nasceu das medidas que foram tomadas na economia para combater o vírus. O bem comum prejudicou o bem privado.

Ninguém esperava esta crise. Nunca vivemos nada assim e a certeza que temos é que não sabemos o que vai acontecer.

Mas, mais importante do que o que nos está a acontecer, é o que estamos a fazer e o que vamos fazer com o que nos está a acontecer. Porque a crise não nasceu do vírus. A crise nasceu das medidas que foram tomadas na economia para combater o vírus. O bem comum prejudicou o bem privado. E estamos perante uma crise injusta pois os mais pobres sofrem mais do que os ricos, desde logo porque não têm uma almofada financeira que lhes permita viver esta situação sem problemas e porque, profissionalmente, estão mais expostos a situações de risco. 

Se, até agora, os profissionais de saúde estiveram na linha da frente para combater este vírus e zelar pela saúde das pessoas, neste pós-confinamento cabe aos empresários estar na linha da frente para zelar pela saúde da economia e, também, ajudar à saúde mental das pessoas.

E parece que o Papa Francisco estava a antecipar o futuro quando teve a iniciativa de, aproveitando a capacidade de sonhar que os jovens têm, convidar para um encontro em Assis 2 000 jovens. Este encontro, agendado para março, acabou por ser adiado para novembro deste ano. E os jovens que o Papa Francisco convidou não são jovens quaisquer! São empreendedores, economistas, change makers e investigadores, com o objetivo de fazerem um pacto de maneira a conseguir que a economia de hoje e de amanhã seja mais justa, fraterna, sustentável e com um novo protagonismo de quem hoje é excluído. Este pacto visa a construção de novos caminhos buscando a solução dos problemas estruturais da economia mundial. 

Para isso, é preciso por em causa as leis económicas que produzem desigualdades e exclusão, compreender que elas são fruto de decisões políticas e que, como tal, podem ser questionadas e transformadas.

Trata-se de construir uma nova economia à medida do homem e para o homem. O objetivo do Papa Francisco é que tenhamos no mundo uma economia socialmente justa, economicamente viável, ambientalmente sustentável e eticamente responsável.

A economia de Francisco ganhou, assim, uma grande dinâmica na igreja o que nos leva a acreditar que a igreja está viva e que os empresários cristãos estão vivos. Trata-se de uma economia inclusiva, uma economia que faz viver e, aqui, os líderes empresariais têm um papel muito importante. Porquê? Porque a COVID criou desigualdades. Desde logo a desigualdade do medo, o que faz com que o medo tenha que passar a entrar na equação da igualdade e da eficiência de quem lidera. E se trouxe gestores que informaram os seus colaboradores que iam para lay off através de uma sms, também trouxe líderes muito preocupados com o bem-estar dos seus colaboradores e agradecidos pela colaboração das pessoas, apesar de estarem em lay off.

Aqui a importância da liderança que, à luz da Economia de Francisco, tem que estar próxima das pessoas. Há que olhar para as pessoas na sua humanidade, mas também na sua criatividade e na sua inovação. Porque esta nova economia tem que ter a componente ambiental no seu âmago. Precisamos da criatividade dos empresários para criarem produtos a preço de mercado e ambientalmente responsáveis, que as pessoas gostem de trabalhar nestas empresas, que os clientes não os troquem e a comunidade reconheça o seu papel.

O que nos está a acontecer há de ter um propósito. Por muito estranho que pareça nós, cristãos, sabemos que tudo o que Deus faz é para nosso bem.

Dada esta realidade, há que haver esperança. E a esperança só é possível se houver fé. A fé, a esperança e a caridade têm que andar juntas. Jesus diz: “sem mim nada podeis fazer”.

Todos somos chamados a tornar Jesus presente, neste tempo, em cada lugar. Todos somos chamados a ser protagonistas neste novo mundo, os líderes empresariais em particular! 

O desafio deste novo humanismo é recentrar na pessoa humana, a pessoa como princípio e fim da economia. É o amor à criação, amar o que Deus ama, não deixar nada nem ninguém de fora. Sem Jesus não podemos ser empresários nem líderes.

E o Papa Francisco faz-nos o apelo a escutarmos o nosso coração, um apelo à vida interior. Neste apelo, ganham uma enorme importância os grupos Cristo na Empresa da ACEGE onde, em reuniões mensais, os empresários e gestores partilham as suas experiências e descobrem a vocação cristã nas diferentes dimensões das suas vidas.

Em síntese, na liderança das nossas empresas precisamos de amor.
“O amor como critério de gestão” (António Pinto Leite) vai orientar decisões que terão em conta cada uma das pessoas, as suas famílias e os seus sonhos. O amor faz-nos humildes e lembra-nos que estamos para servir aqueles que nos seguem, e não para sermos servidos. O amor vai-nos fazer dedicar à nossa causa, à nossa empresa, aos nossos resultados e às nossas pessoas. O amor lembrar-nos-á que cada um dos nossos resultados, que cada vitória conquistada não é a vitória de uma, mas sim de muitas pessoas, unidas num propósito comum. 

Construir um mundo com mais prosperidade, com mais realizações e com mais felicidade, tem que ser para todos e não só para alguns…

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