ESCALA SEM DEGRAUS DE SUBIDA

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[Nota do editor: Em memória do padre Augusto Ascenso Pascoal e como homenagem ao seu legado espiritual e pastoral, continuaremos a publicar os textos que foi partilhando na sua página pessoal, permitindo que a riqueza da sua reflexão permaneça acessível aos leitores.]

Talvez em nenhum outro período da história humana se tenha falado tanto de promoções como no nosso: na sociedade civil até se inventaram vocábulos novos, quase sempre para camuflar o desejo de apoderar-se de algo que não temos e, por razões várias, às vezes pela pressão das ideologias, achamos que é nosso, ou, pelo menos, a que temos direito como os outros.

Mas o mais grave de tudo é que, quer pela falsidade das promoções, quer pela máscara das maiorias parlamentares, quase sempre dominadas por minorias que militam no seu interior de qualquer partido, nunca houve tanta desigualdade, no domínio cultural, económico e social.

Começo com esta reflexão, porque, encarnada no mundo como está, a Igreja não pode evitar que penetrem nela os ecos desta incoerência; para não falar já muitas vezes das poeiras agitadas pelas ideologias mais ruidosas.

No evangelho deste domingo, talvez o domingo que, na nossa tradição litúrgica e popular, tem mais nomes – Oitava da Páscoa, Domingo de Pascoela, “domenica in albis”, e, finalmente, “Segundo Domingo da Páscoa”/“Domingo da divina Misericórdia – neste evangelho temos muitos pormenores pertinentes ao conjunto dos sinais, segundo a terminologia joanina, de que Jesus está vivo.

Está vivo, mas só visível na Igreja, à qual confia o ministério do perdão.

É pensando nisto que retomo o a narração de São Marcos, indicada por alguns directórios litúrgicos para o último sábado.

Diz assim o segundo evangelho sinóptico:

“Jesus ressuscitou na manhã do primeiro dia da semana e apareceu em primeiro lugar a Maria Madalena, da qual tinha expulsado sete demónios.

Ela foi anunciar aos que tinham andado com Ele e estavam mergulhados em tristeza e pranto. Eles, porém, ouvindo dizer que Jesus estava vivo e fora visto por ela, não acreditaram.

Depois disto, manifestou-Se com aspecto diferente a dois deles que iam a caminho do campo. E eles correram a anunciar aos outros, mas também não lhes deram crédito.

Mais tarde apareceu aos Onze, quando eles estavam sentados à mesa, e censurou-os pela sua incredulidade e dureza de coração, porque não acreditaram naqueles que O tinham visto ressuscitado.

E disse-lhes: «Ide por todo o mundo e proclamai o Evangelho a toda a criatura»” (Mc 16, 9-15).

O primeiro dia da semana, hoje, devido ao colonialismo cultural que nos esmaga, dito, em simultâneo com o sábado, “fim de semana”, começava, para os hebreus e povos vizinhos, por volta do pôr do sol do sábado; mas desde a primeira geração cristã que, talvez por ser nesse dia que os discípulos viram os primeiros sinas da Ressurreição, se fixou o dia a seguir à tarde de sábado, como primeiro dia da semana.

A este facto, os teólogos juntaram a consideração da vitória de Cristo sobre o pecado e a morte como uma nova criação.

Assim, se o meu pensamento está correcto, podemos tomar estes últimos sete versículos do terceiro evangelho como a espinha dorsal da fé no mistério pascal de Cristo; e não será mero acaso, o facto de irmos de domingo a domingo:

Primeiro as Aparições, que não são simultâneas, ainda que Marcos não nos diga que distância de tempo as separa; segundo os outros sinópticos – Mateus e João -, apesar das referências à Ascensão e ao Pentecostes, poderíamos concluir que se verificaram na mesma semana; mas a narração de Marcos, sem levantar esses problemas, mantém, para todo o Novo Testamento, o esquema das etapas que tem de percorrer a nossa fé para ser autenticamente pascal: o movimento pessoal, como o da Madalena, a amizade dos caminhantes, como os discípulos de Emaús, a experiência da comunidade, como os Onze do Cenáculo.

É evidente que há aqui uma sequência ilustrativa da experiência de Deus: vai-se do indivíduo, pelo grupo, ao interior da Igreja. A Igreja, que não substitui a fé de cada um, nem promove ninguém, seja a que título for, a uma superioridade que não identifique o crente com o Filho do Homem, que não veio para ser servido, mas para servir e dar vida para a redenção de muitos (Cfr Mt 20, 26-28).

Ou seja, a promoção de todos – o Evangelho diz MUITOS – ao ministério, o serviço, ordenado ou não, cujo incontornável elemento está no último versículo, onde Jesus, depois de censurar a falta de fé dos que não haviam acolhido o testemunho dos primeiros, diz: “Ide por todo o mundo e proclamai o Evangelho a toda a criatura” (Mc 16, 15).

A terminar, duas notas finais:

A ordem de partir e evangelizar o mundo, que se dá no final do encontro com Jesus vivo, como deve ser toda a celebração da Eucaristia, ao domingo ou durante a semana, não escolhe quem acredita pouco ou muito: é um preceito divino para qualquer membro da comunidade crente e celebrante.

Neste contexto, o ministério ordenado, que ninguém pode reclamar para si ou para outrem, dá apenas uma dimensão comunitária, ainda que igualmente divina, ao ministério baptismal, que também evangeliza criando condições necessárias à promoção e desenvolvimento do ministério ordenado.

Um e outro, dons da infinita Misericórdia de Deus.

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