Entrevista a Tomás Oliveira Dias

Tomás Duarte da Câmara Oliveira Dias tem 80 anos é natural de Leiria. Foi advogado, funcionário público, administrador de empresas e político.

Fundou o Partido Popular Democrático e a Associação para o Desenvolvimento de Leiria (ADLEI), da qual foi presidente durante sete anos. A causa social foi uma área para qual sempre teve uma particular sensibilidade e preocupação, desde os tempos em que integrou o Centro Académico da Democracia Cristã, em Coimbra. Homem de fé cristã assumida, diz nunca ter sido um “político de sacristia”. Participou no sínodo diocesano na década de 90. Resultado da sua defesa pela justiça social, presidiu à Comissão Diocesana de Justiça e Paz, que ajudou a fundar na Diocese. Numa homenagem à sua pessoa, D. Serafim Ferreira e Silva, bispo emérito de Leiria-Fátima, referiu que a palavra tolerância” foi a bandeira que sempre o orientou”. A distinção de Grande Oficial da Ordem da Liberdade, atribuída durante a presidência de Jorge Sampaio, foi um reconhecimento do seu contributo pelos serviços relevantes prestados em prol da dignificação da Pessoa Humana e da causa da Liberdade. Juntamente com a esposa, faz parte da primeira e mais antiga Equipa de Nossa Senhora da Diocese, que conta mais de 40 anos de existência. Pai de cinco filhos e avô de sete netos, dedica-se agora a tempo inteiro a dar assistência à família.

Quem foram as personalidades que o influenciaram?

Urbano Duarte, assistente do CADC de Coimbra e meu professor de Moral no Liceu de Leiria foi uma pessoa muito importante no meu percurso, pelo apoio e pela ajuda espiritual que me deu. Era um homem muito aberto ao social. Na entrada para a vida política, lembro Melo e Castro, um homem do outro regime mas muito aberto à evolução para a democracia. Recordo também Francisco Sá Carneiro, pela sua capacidade de liderança. Por fim, D. António Ferreira Gomes, bispo do Porto, pela sua luta e determinação e que, como homem da Igreja, nunca teve ódio a quem quer que fosse, com uma postura de amor.

Na sua ação política deixou transparecer a sua fé cristã?

Sim, dou-lhe um exemplo… Quando eu fui eleito deputado, em 1969, pretendia-se tentar fazer evoluir o regime por dentro, para uma democracia, o que não acontecia desde o 28 de maio de 1926. Por conseguinte, eu precisava de fazer evoluir o meu pensamento político. Na altura, recordo que a minha leitura de cabeceira foi o capítulo sobre a vida política da Gaudium et Spes, do Concílio Vaticano II. Foi aí que eu me inspirei quando fiz o meu primeiro discurso parlamentar na assembleia, sobre a celebração do Dia da Paz, instituído por iniciativa do Papa Paulo VI. Apesar de estarmos em guerra, inspirado por pela Gaudium et Spes, fiz uma intervenção em que defendi a promoção da paz.

Como foi conciliar a sua atividade política com a sua posição assumidamente cristã?

Depende das conceções que se tiverem da religião. Nunca procurei servir-me da Igreja na minha vida política. O que é preciso é que tanto a vida política como a vida social sejam conformes com a Doutrina social da Igreja. Daí, toda essa tentativa de tentar defender valores cristãos e imbuir deles a sociedade.

Acha que foi um político cristão bem sucedido?

Procurei ser coerente… Eu sou católico, tenho uma fé, portanto não devo esconder ou envergonhar-me de ter essa fé. Também não andei a fazer “política de sacristia” e nunca, na atividade política, me servi da Igreja para coisas alguma. A Deus o que é de Deus, a César o que é de César. Mas nunca deixei de dar a cara, com naturalidade.

Lembro o Papa Paulo VI e a sua disposição de abertura ao mundo, aos “homens de boa vontade”: as pessoas que estão dispostas a colaborar umas com as outras, em prol do bem comum. Acho que cada vez mais as pessoas se devem juntar, sem receio. Eu não tenho receio de contactar com não católicos, isso não afeta as minhas convicções. É preciso é procurar mudar as coisas por dentro, contactando, ajudando e dando testemunho, mas se fazer da Igreja uma casa fechada. Nisso, o atual Papa Francisco tem sido espetacular. A Igreja está mais aberta ao mundo e isso dá-me muita alegria.

Participou no sínodo feito na Diocese nos anos 90, o que recorda da experiência?

Foi muito interessante porque abordámos uma série de temas. Lembro-me de ter pugnado para que fosse feita uma referência expressa à justiça social, que não estava nas conclusões. Entretanto, fui convidado pelo Bispo da altura, D. Serafim Ferreira e Silva, para presidir à Comissão Diocesana de Justiça e Paz que se fundou em seguida, resultado das conclusões do sínodo. Foram organizadas palestras com presenças de ilustres convidados, onde se alertou a comunidade para os mais variados problemas sociais.

Sempre me senti muito próximo da questão social e tentei fazer o que pude neste âmbito. Às vezes olho para trás e acho que não fiz nada.

O que é que ainda não fez?

Eu tenho sempre uma certa frustração e penso sempre que, em todas as minhas vivências, eu poderia ter feito melhor. Eu olho para o nosso país, na situação em que ele se encontra e pergunto: onde está o entusiasmo pela democracia? Andei a pregar democracia e agora a política abastardou-se completamente. Na minha altura, as pessoas não iam para a política para se encher, mas para dar o seu contributo e depois vir embora. Hoje, faz-se carreirismo. Há muitos políticos, mas há muita gente que, em vez de servir, se serve. Enfim, gostaria que as coisas tivessem corrido de outra maneira, em várias oportunidades.

É uma pessoa que não desiste das causas que abraça.

Eu só desisto quando não me sinto identificado com as pessoas ou com a maneira de atuar. Eu não sou um serventuário de quem quer que seja. Se eu estou identificado com uma causa, eu luto por ela, se não, ponho-me de parte. Agora, quero fazer uma coisa que não fiz durante muito tempo, que é dar assistência à família. As situações que tive na vida tiraram muito tempo do contacto com a família. Agora estou a tentar compensar isso.

 

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