Entrevista a José-Román Flecha: “As famílias têm de ter mais voz e intervenção social”

O conceituado autor José-Román Flecha, professor jubilado de Teologia Moral na Universidade Pontifícia de Salamanca, está a orientar a formação permanente do clero de Leiria-Fátima este ano. Estará também numa conferência no Seminário, no dia 23 de janeiro. O jornal PRESENTE aproveitou para o entrevistar.

 

 

 

“Aí está o segredo: as famílias unidas têm de ter mais voz e intervenção social e ser o sujeito da evangelização”

José-Román Flecha nasceu em 1941 e foi ordenado sacerdote em 1964. Em Roma, fez licenciatura em Filosofia na Universidade de São Tomás e em Teologia na Universidade Gregoriana, e doutorou-se em Teologia Moral na Academia Alfonsiana. Foi docente da Faculdade de Teologia e vice-reitor da Universidade Pontifícia de Salamanca, onde é professor jubilado e dirigiu, durante mais de 20 anos, o Centro de Orientação Familiar.

É um dos mais conceituados autores nesta área da Teologia, com dezenas de obras e centenas de artigos publicados, sendo conferencista convidado em congressos e jornadas por todo o mundo.

Foi este ano convidado para orientar os dois turnos da formação permanente do clero, a decorrer de 18 a 23 e de 26 a 30 de janeiro, na casa da Irmãs Franciscanas Hospitaleiras da Imaculada Conceição, em Linda-a-Pastora (Oeiras). Cerca de 80 padres irão dividir-se nos dois turnos, ambos com a presença de D. António Marto, onde o tema central serão as questões ético-pastorais da família hoje.

Proferirá, ainda, uma conferência sobre “a família num mundo diferente”, no dia 23 de janeiro, às 21h00, no Seminário de Leiria, promovida pelo Centro de Cultura e Formação Cristã.

Aproveitando esta passagem pela Diocese, o jornal PRESENTE quis saber um pouco mais sobre a sua visão da ética cristã, em especial, quanto à família e às questões com ela relacionadas.

Entrevista de Luís Miguel Ferraz

 

No atual contexto de multiplicidade ético-legal nas sociedades ocidentais anteriormente fundadas na matriz cristã, ainda é possível falarmos de “uma única” ética familiar cristã?

Acho que nunca houve “uma única” ética familiar cristã. Basta recordar as profundas divergências entre os católicos e os ortodoxos, e muitas mais com os protestantes e os anglicanos. Mas mesmo dentro da Igreja Católica, sempre houve diferenças de abordagem sobre a ética familiar, tal como há divergências sobre a ética económica ou a ética política. Ainda que os princípios fundamentais sejam claros, não é tão clara a sua aplicação prática.

Qual o principal centro de definição desses princípios fundamentais: uma determinação legal (normativo), um conjunto de valores (axiológico) ou uma resposta em permanente construção a cada consciência pessoal e coletiva (prático)?

Não poderei colocar assim em confronto essas três posições. A ética cristã é um rio que se alimenta de diversos afluentes, o normativo, o axiológico, o prático, o cultural, o ritual. Portanto, precisamos sempre partir da fonte que é o Evangelho de Jesus Cristo. E nunca foi fácil a construção da consciência pessoal e coletiva.

Nesse jogo de “afluentes”, é possível encontrar fundamentos, por exemplo, para chamar “família” a todos os tipos de relações que hoje exigem uma “equivalência” social, e mesmo legal, ao tradicional conceito familiar de um casal de homem e mulher e dos filhos de ambos?

Há uma grande diferença entre o conceito hebraico e o conceito romano de família, entre a conceção europeia e a conceção africana. Hoje, o tema preocupa-nos, porque as diferentes visões da família pedem a legalização num mesmo país. Certamente, os sistemas jurídicos devem ter em conta os diferentes tipos de relações, a fim de garantir os direitos dos indivíduos, mas nem todos os tipos de relacionamento podem ser equiparados à família, quando faltem alguns dos elementos essenciais da instituição familiar e dos subsistemas que a compõem.

Em seu entender quais são esses elementos essenciais e que direitos e deveres podem considerar-se “próprios” das famílias?

A família é fundada sobre o matrimónio. E o matrimónio é uma comunidade de vida e de amor conjugal entre um homem e uma mulher. Esta relação inclui, pelo menos, a unicidade, a definitividade, a fecundidade e o caráter público. Daí derivam direitos e deveres que se resumem muito bem na “Carta dos Direitos da Família”.

Voltando atrás… é uma Carta possível de aplicar às novas realidades sociais de famílias monoparentais, casais em união de facto, uniões homossexuais, etc.?

Alguns dos direitos e deveres podem ser defendidos por estas novas realidades sociais, mas não todos. É preocupante ver como a legislação social enfatiza os direitos dos pais, mas muitas vezes ignora os direitos das crianças nascidas e, acima de tudo, das crianças ainda por nascer. É claro que a nossa cultura tende a reivindicar os direitos dos indivíduos, enquanto esquece muitos dos deveres correspondentes. Antes de ser um direito, ou um objeto de desejo, um filho é um dom de Deus que envolve uma responsabilidade múltipla.

Então, até que ponto a “cultura” – ou doutrina – cristã pode iluminar ou ajudar a construir um caminho ético que seja válido para todos, universalmente? Se é que isso é possível…

É difícil de aceitar e promover essa validade “para todos”. A doutrina cristã não pode ignorar os valores humanos que, por definição, são universais e anteriores à confissão religiosa. A fé cristã é sobrenatural, mas não é antinatural. É o “super” do natural. Aos valores naturais, a fé cristã acrescenta a referência a Cristo. No entanto, as diferentes culturas selecionam com frequência um valor ou outro. E, obviamente, nem sempre chegam à descoberta do valor sacramental do humano. E menos ainda a essa referência a Cristo.

 

Problemas e soluções para as famílias

É esse o maior desafio que se coloca à ética cristã, ajudar a que outras culturas cheguem a essa descoberta do “valor sacramental do humano”?

Diria que são vários desafios. O maior deles é a confusão antropológica que prevalece na nossa sociedade. Nós esquecemo-nos do que é o ser humano, o que é a pessoa. Um segundo desafio é a confusão sobre a liberdade, que é considerada como a fonte decisiva e criativa dos valores. O terceiro desafio é a confusão do moral com o legal, com a opinião da maioria ou com a intuição pessoal. O quarto, e no fundo o desafio mais importante, sim, é o esquecimento da referência a Jesus Cristo.

No caso concreto das famílias, consegue identificar qual o problema mais grave que as afecta atualmente?

No mundo em vias de desenvolvimento, o maior problema é a pobreza. No mundo ocidental europeu, são os problemas que geram a emigração e o desenraizamento familiar. O problema mais comum e mais grave na nossa cultura ocidental será, no entanto, a falta de comunicação entre os esposos e entre eles e os filhos. Talvez esta seja a causa de muitas dependências, como a droga, o sexo, o jogo, a internet e as redes sociais…

… e a falta de “comunicação” com Deus será também relevante?

Sem dúvida. Noutros tempos dizia-se que havia muita sacramentalização e pouca evangelização. Agora, há também pouca sacramentalização. Falta nas famílias uma vida de fé e uma transmissão da fé às novas gerações, que ajude a tornar prática essa referência a Jesus Cristo de que falávamos.

São problemas sem solução?

Eu acredito que haja solução e quero ser uma voz da confiança e da esperança. Vejo muitos exemplos e sinais de que a família é, de facto, o melhor património da humanidade. Mas todos fazemos parte da solução, desde os Estados, que não podem continuar com políticas que silenciam e retiram capacidade de ação às famílias, até à Igreja, que não pode considerá-las como mero objecto de evangelização. Aí é que está o segredo: as famílias unidas têm de ter mais voz e intervenção social e têm de ser o sujeito da evangelização.

 

As questões morais

Referia atrás a confusão entre o moral e o legal. Que tipo de implicações está a ter, por exemplo, a abertura legislativa em vários países quanto à prática do aborto, da clonagem, da manipulação genética, da fecundação artificial…?

Esta questão iria obrigar-me a resumir todo o meu livro sobre Bioética. Para dar três exemplos, algumas implicações afetam o abuso da liberdade individual, que decide sobre a vida dos outros; outras referem-se ao próprio conceito da pessoa e da vida; outras arrastam-nos para uma espécie de eugenia que lembra os abusos do nazismo. As leis que despenalizam ou legalizam o aborto contribuíram para o maior genocídio de toda a história humana. Apresentou-se como um direito da mulher, quando na verdade é um imenso negócio que esconde interesses económicos e uma conceção machista da sociedade. Um dia será qualificado com a dureza com que hoje se qualifica a escravidão.

Falou também na confusão entre moral e opinião da maioria ou a intuição pessoal. Como interpreta a recusa de muitas famílias cristãs do paradigma moral apresentado na “Humanae Vitae”? Acha que o problema é a “desatualização” desse documento, ou uma crise de fé e de valores nos casais cristãos?

Antes de falar da fé, creio que se esqueceram as belas características do amor humano como as expõe a encíclica “Humanae Vitae”. Além disso, insistiu-se mais nos meios para a regulação dos nascimentos do que nas atitudes pessoais que determinam as opções para o número de filhos. Por outro lado, a encíclica previa já, profeticamente, algumas políticas antinatalidade e decisões que levaram o Ocidente a um verdadeiro “inverno demográfico”. Esta situação causou, em grande parte, os movimentos migratórios e até o choque de civilizações a que estamos a assistir. Finalmente, sim, poderemos falar da crise de fé e de resposta à vocação matrimonial.

No ensino atual, mesmo em universidades cristãs, há uma corrente que defende a necessidade de uma nova moral pessoal, sobretudo no campo da sexualidade, invocando uma abertura ensaiada no Vaticano II, na linha de um maior primado da consciência e da liberdade sobre a lei. Acha que esse será um caminho futuro?

O supremacia da lei sobre a consciência só é afirmada pelas ditaduras. E também pelas democracias da “ética indolor” na hora do “crepúsculo do dever”, como escreve Gilles Lipovetsky. Nestes casos, nega-se mesmo a legitimidade da objeção de consciência. O Concílio Vaticano II fala da consciência como escuta da vontade de Deus. Mas também lembra que a consciência pode estar deformada, a partir de fora e a partir do interior da pessoa. Além disso, como afirmava K. Rahner, X. Zubiri ou I. Berlin, a liberdade não é um ponto de partida, mas o resultado de uma pesquisa e uma conquista. Ora, a sexualidade é a linguagem do amor. Mas essa linguagem pode ser falseada. Consequentemente, a moral da sexualidade tem de ser sempre ligada à moral da verdade.

 

Sínodo sobre a família

Como viu essa “moral da verdade” trabalhada no recente Sínodo Extraordinário dos Bispos e no seu relatório final?

Jesus disse-nos que o Espírito nos levará a descobrir a verdade plena. João Paulo II falou na lei da gradualidade. E o Sínodo sobre a Família, ainda em curso, será uma ocasião de graça para ouvirmos a voz de Deus neste momento particular da história. A Igreja terá de ter em conta os valores éticos universais, mas também a enorme diferença entre as culturas e as pessoas.

Não teme o risco de uma rutura provocada por essas diferenças? Acredita que os Padres Sinodais encontrarão uma “solução de compromisso”?

Não espero nem uma rutura nem uma solução de compromisso. Espero que, como no Concílio de Jerusalém, os Padres possam decidir com o Espírito Santo. Além disso, há que ter em conta que um Sínodo não é um Concílio Ecuménico. Recordamos outros sínodos recentes a que não demos qualquer importância. Oxalá este não se limite a ser apenas uma ocasião para o confronto ou para o escândalo jornalístico.

Mas serão expectáveis algumas consequências, nomeadamente, para a vivência da fé pelas famílias cristãs…

Espero que as reflexões e decisões sinodais ajudem a Igreja a tomar algumas decisões pastorais particularmente urgentes. Mas, sem perder a esperança, pergunto-me se essas decisões vão ter alguma consequência para a vida de fé das famílias cristãs. A fé não se alimenta de documentos eclesiais.

Então, para terminar, que “palavra” considera essencial que seja dita às famílias cristãs, neste contexto de “revolução” social, de discussão ética e de “conflito” de opiniões, dentro da própria Igreja?

Crer ou não crer, eis a questão. A palavra chave é a alegria da salvação em Cristo. Como escreveu o Papa Francisco, “não é o mesmo ter conhecido Jesus que não O conhecer; não é o mesmo caminhar com Ele que caminhar às cegas; não é o mesmo poder escutá-l’O que ignorar a sua Palavra; não é o mesmo poder contemplá-l’O, adorá-l’O, descansar n’Ele que não poder fazê-lo; não é o mesmo tentar construir o mundo com o seu Evangelho que fazê-lo apenas com a própria razão”(EG 266).

 

Família património da humanidade

O padre Flecha não quer os “louros” para si, mas contou-nos a história do que pode ter sido a “paternidade” desta expressão. Foi num congresso que organizou em Salamanca, em 2002, com a participação do cardeal Alfonso López Trujillo, que presidia ao Pontifício Conselho para a Família. Referindo-se àquela cidade património da humanidade, disse-lhe que “não podem ser só as cidades ou os monumentos de pedra, mas também a família deveria ser considerada pelas instituições do mundo como património da humanidade”. O cardeal gostou da expressão e repetiu-a diversas vezes no congresso. No ano seguinte, na vídeo-mensagem que dirigiu ao Encontro Mundial de Famílias, em Manila, o Papa João Paulo II iria dizer: “A família fundada sobre o matrimónio é património da humanidade”. A partir daí, a expressão ficou famosa e tornou-se corrente…

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