ENTRE O SILÊNCIO DE DEUS E A TAGARELICE DOS HOMENS

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Poucos meses após o vinte e cinco de Abril – recordo-me como se fosse ontem – ouvi uma alta figura da política nacional, das inteligências que haviam programado e realizado a chamada “revolução dos cravos”, dizer, com certa amargura, que, afinal, se tinha substituído a ditadura de um regime, pela ditadura da palavra.

Ao longo das quase cinco décadas seguintes, senti-me muitas vezes interpelado a reflectir sobre a singularidade do fenómeno, que acabou por me parecer menos singular: vi que era universal e de todas as épocas da história humana.

E verifiquei também, como a ditadura da palavra, numa espécie de infanticídio que só os espíritos verdadeiramente sábios conseguem evitar, mata a própria democracia; democracia que, de facto, nasce e se alimenta dela, sempre que o pensamento se alimente da verdade do homem, que é absolutamente transcendente.

Isto significa, em meu entender, que a democracia será tanto mais débil perante a ditadura da palavra, quanto menos dotadas de capacidades religiosas e culturais forem as sociedades, perante os manipuladores da palavra. E, neste campo de batalha, ultrapassado o real conhecimento da verdade, tão mortal pode ser o falar como o calar-se; tornando-se ainda mais mortíferos, quando se unem na mesma luta pelo poder.

Segundo o mito original recolhido por inspiração divina no livro do Génesis, para nos revelar a Queda que introduz o mal no mundo, é a ambição do PODER que abafa a felicidade do SER.

E não será por mero acaso que aí se conta como a tentativa de conquistar o que não se pode ter senão como dom, brota e se concretiza numa escuta sacrílega das criaturas que contrapõem a sua palavra à de Deus.

Com esta troca de escuta, tudo na criação fica inquinado: desde a astúcia da serpente à felicidade do homem, passando pela beleza e encanto do companheirismo da mulher. com o cúmulo trágico de o homem se esconder, quando se apercebe da presença de Deus e recusar assumir-se como culpado do que aconteceu.

Segundo declarou um dia o ainda Cardeal J Ratzinger, após a queda do homem, Deus só tinha duas hipóteses: ou destruir a criação inteira ou fazer-Se Ele próprio criatura; com o mesmo amor absolutamente gratuito e misericordioso, escolheu a segunda hipótese, tornando-Se caminho e preço da Redenção. Assim, a palavra de Deus, sem deixar de ser divina, faz-Se palavra humana.

O que acontece é que o homem, de mente corrompida pela escuta da serpente, para escutar de novo a Deus, tem de receber d’Ele a graça de que precisa para ir sempre além da sua própria palavra. E como isso só é possível quando, como Adão reconhece que sem Deus está em absoluta indigência, é de Deus que tem medo; Deus que acusa de silêncio, porque a Sua fala não cabe no ruído que fazem os que d’Ele fogem, O negam ou perseguem.

Reúno estes pensamentos, sem originalidade e vindos de pontos diferentes, no dia em que a liturgia romana recorda São José Operário, o humilde trabalhador manual de Nazaré que, sem pronunciar qualquer palavra, está diante de nós com um silêncio que a cada momento grita que o essencial da existência humana é ser feliz segundo Deus,

Sem uma palavra, sempre pronto para ser o que Deus quer que seja, sem discutir nem comentar: porque o que importa é que se faça o que deve ser feito e o vejam os que passam pela vida de olhos abertos para a Verdade.

Pensando nisto, creio que ninguém me leva a mal que sinta uma enorme inquietação, quando reparo, talvez cometendo alguma injustiça, da qual peço antecipadamente perdão, que esta troca do silêncio que ajuda a contemplação, pela profusão dos discursos sobre as mais diversas matérias, tenha invadido de tal modo certos ambientes da nossa pastoral, que alguém os acusou já de transformarem os encontros de pastores em assembleias de tagarelas.

Não se trata obviamente de recusar a ninguém o direito de exprimir o seu pensamento, desde que essa expressão respeite o direito dos outros e, sobretudo, não se transforme a palavra numa fonte de tirania.

E, quanto à Igreja, qualquer das suas instituições tem o dever de tornar-se um espaço de liberdade da palavra, usada quando e como o exige a natureza dessa mesma instituição.

Isso implica também um grande discernimento, por parte de cada um, no conhecimento exacto das suas funções, no seio da comunidade crente: saber como e com quem se compromete quando quebra o silêncio, que, se não pode ser cobardia, não pode também quebrar-se como fez “o mais astuto de todos os animais selvagens que o SENHOR Deus fizera” (Gn 3, 1).

No fundo, todos na Igreja, ministros ordenados ou não, estão entre o silêncio de Deus e a tagarelice dos homens.

Oxalá São José, que homem nenhum criado jamais superou em amor fraterno, esponsal, conjugal e paterno, nos ensine a caminhar como ele na fidelidade a Deus, cujo silêncio só a tagarelice dos homens torna tão abissal.

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