ENTRE ACÁCIAS FLORIDAS

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[Nota do editor: Em memória do padre Augusto Ascenso Pascoal e como homenagem ao seu legado espiritual e pastoral, continuaremos a publicar os textos que foi partilhando na sua página pessoal, permitindo que a riqueza da sua reflexão permaneça acessível aos leitores.]

Os agricultores não gostavam de vê-las crescer demasiado perto dos seus terrenos, e os donos dos pinhais arrancavam-nas quando apareciam nas vias cavadas pelas chuvas do Inverno, que arrastavam consigo a terra dos desmoronamentos, se não havia raízes que a segurasse.

Fora o caso de grandes inundações, as acácias resistiam e era preciso arrancá-las para que não infestassem os caminhos.

Eu sentia um especial encanto pelas suas copas floridas, sempre muito precoces a anunciar a chegada da Primavera; também porque a sua cor amarela vinha seguida muito de perto, no tempo, pela flor do tojo, de cor igual e que fascinava de modo especial as cabeças de gado que eu conduzia às pequenas pastagens de livre acesso, no interior dos pinhais adultos. Os adultos, porque os outros tínhamos de defendê-los da voracidade das cabras, que raramente se contentavam com os pequenos arbustos que estavam ao seu alcance. As ovelhas, essas, sempre de cabeça baixa, tirando uma ou outra excepção, procuravam a relva, que também abundava no início da Primavera.

Acácias floridas, assim, naquele tempo, não abundavam nas matas da minha aldeia; o que contribuía largamente para o fascínio que exerciam sobre mim, como tudo o que saía do verde geral do mundo daquela adolescência descuidada e feliz.

Depois vieram os estudos, e , a respeito de acácias, já não se falava das flores, mas da diversidade das suas espécies e da fonte de riqueza que era o negócio da sua madeira.

Foi por isso que voltei um dia às acácias da minha região, agora reduzidas a uma lembrança do passado, porque actualmente o que resta das nossas matas, abandonadas pela incúria dos seus proprietários e consumidas pela voragem dos incêndios, são pinheiros calcinados e pequenos arbustos, sempre mais rápidos a fazer brotar a vida do que restou dos seus troncos e raízes.

E tive saudade, confesso que tive saudade dos tempos em que via o amarelo das copas das acácias rivalizar com o da flor do tojo, ali, naquela planura, onde, não sei bem porquê – talvez pela qualidade do terreno -, os pinheiros eram bastante mais raros.

Ali, onde um dia, enquanto meu pai fazia uma carrada de mato, fiquei longamente a escutar os sinais fúnebres que anunciavam o falecimento do tio João; o tio João, que se mostrava sempre tão amigo das crianças. Que me lembre, era o primeiro membro da família que sentia levado para sempre do meu mundo de encantos.

Tive saudade e, como quem procura libertar-se da usura do tempo, puxei um pouco mais da memória, para uma conversa íntima, de comunhão quase interpessoal, com as acácias que me haviam fascinado, décadas antes.

Era uma tarde de Primavera, como naquele dia da carrada de mato.

E ouvi a natureza queixar-se do homem: não já daquele que a explorava sem respeito, mas dos que, ignorando o bem que ela podia dar-lhes, a tinham abandonado, em busca da riqueza fácil, que, afinal, acabava sempre nas mãos de quem ia à floresta buscar matéria para iludir quem não tinha sabido cuidar dela como o tesouro que o Criador quis que fosse para todos.

Estarei a deixar-me levar por um anti urbanismo anacrónico?

Seja como for, as ruínas calcinadas da floresta por onde corri e saltei, com o rebanho e sem ele, fez-me pensar no erro que têm cometido, ao longo da história, aqueles que, em vez de fazerem render o bem que têm, vão à procura de outros rendimentos, aliás obtidos à custa de engenhosas manipulações, cujas vítimas são sempre as mesmas.

É ver o que tem acontecido com a fuga das aldeias para a cidade, ou dos países pobres para os que enriquecem com as matérias primas dos mais pobres.

Anti urbanismo anacrónico?

Talvez não o consideremos tanto assim, se lermos com a devida atenção os mitos do bom e falso progresso que os autores humanos dos textos sagrados recolheram ou rconstruíram, para fazer-nos entender, como na fábula das duas panelas arrastadas pela torrente, e a antropologia estruturalista ensina, que riqueza sem Deus, será sempre aumento da pobreza de alguém.

Nunca foram isentos de ambições e perigos os movimentos migratórios de indivíduos e populações inteiras; só me choca que, de facto, o seu sentido seja sempre o mesmo: até a conquista pelas armas, aparentemente mascarada de expansão de uma determinada cultura ou religião, desejo de aumento de riqueza e poder, esconde muito mal a força, o fascínio dos bens dos outros.

A lembrança das acácias floridas, da minha região, no dia litúrgico do santo Papa Acácio, faz-me pensar que, num mundo que já foi classificado de aldeia global, os cristãos cometem um pecado grave de infidelidade, deixando ao monopólio dos políticos o encargo de estudar com critérios mais humanos, o drama da emigração, que, talvez devido a essa infidelidade, está transformado em autêntica tragédia.

E não se diga que lhes faltam solenes advertências: os textos sagrados, a historiografia correcta iluminada por esses textos, a doutrina e o magistério de quem, na Igreja, têm a missão de formar as consciências.

Os movimentos migratórios, na sua extrema variedade, estudando com humanidade os pontos de partida, os pontos de chegada e os caminhos que levam lá.

Urge reparar mais na grande lição da história, que nos diz como, sempre que se confunde integração com assimilação, se cobre o mundo de ruínas.

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