Empresa promove Economia de Comunhão

Esta semana, fomos conhecer a Faria & Irmão, uma empresa que promove há mais de duas décadas a Economia de Comunhão (EdC).

Falámos com António Faria Lopes, que nos contou o caminho percorrido por esta empresa, líder de mercado no seu setor, que promove uma economia empresarial mais justa e digna, baseada no amor, no respeito, na confiança e na ética das relações.

É possível falar de amor, respeito, confiança em ambiente empresarial? Serão a comunhão e a partilha humana possíveis num contexto económico de crise, que sacrifica as pessoas em função do lucro?

 

Uma família alargada líder de mercado

A Faria & Irmão é uma empresa, de cariz familiar, fundada em 1957 que produz formas de plástico (moldes) para calçado. A sede está localizada nos Pousos, Leiria, mas conta ainda com mais duas unidades fabris no norte do país: em São João da Madeira e Felgueiras. À frente da empresa estão três irmãos, mas foram António e Acácio, irmãos gémeos, que em 1987 pegaram no legado que vinha do pai. Embora o irmão mais novo estivesse a estudar na altura, foi espontâneo incluí-lo na sociedade em igualdade de circunstâncias.
Ainda jovens, António e Acácio contactaram com a espiritualidade do Movimento dos Focolares, que se alicerçava na comunhão dos conhecimentos e dos bens. Desta experiência, veio a vontade de projetar esta mesma realidade na área económica que então abraçavam. A fundação da Economia de Comunhão (EdC), por Chiara Lubich, em 1991, veio propor o caminho que procuravam e que, a partir de então, se tornou ainda mais definido. Os princípios propostos pela fundadora dos Focolares confirmaram a certeza de que era possível uma economia mais justa em que perspetivava os lucros em três vertentes: uma parte para reinvestir, outra para os pobres e outra ainda para formar homens novos.
Sob os valores do respeito, da confiança, da ética das relações e da humildade continuam ainda a laborar desde então. Atualmente, ainda que numa conjuntura adversa, em que o lucro e o capital ditam as regras de uma economia cada vez menos humana, a Faria & Irmão assume uma postura anacrónica e continua a perspetivar a vida empresarial na sua dimensão indissociavelmente humana. “A minha riqueza são os relacionamentos e ver que estes valores se divulgam”, refere António Faria Lopes, um dos gerentes, com quem falámos acerca desta experiência que envolve empresários, trabalhadores, gestores, consumidores na construção de uma sociedade mais justa.

 

Entrevista a António Faria Lopes

Que é que isto da Economia de Comunhão?

EdC é um projeto que nasceu em 1991, quando Chiara Lubich, fundadora do movimento dos Focolares, se questionou sobre a possibilidade de atenuar a diferença abissal que se verificava nas condições de vida das pessoas. Ela encontrou uma forma de envolver quem emprega, quem trabalha, consumidores e produtores, numa lógica em que a atitude se assume mais importante que a lógica do lucro.
Ela sugeriu a criação de postos de trabalho e de novos relacionamentos entre os diferentes intervenientes no processo produtivo, para que as pessoas encontrassem no trabalho um sentido diferente de se relacionar. Chiara lançou o desafio às pessoas que estavam no mercado de trabalho, o que é que poderiam fazer, para que não houvesse tanta dificuldade, tanta pressão. Na nossa realidade, procuramos estar atentos para esses sinais.
Obviamente, e uma vez que estas empresas não estão fora do mercado e têm que potenciar o melhor que o mercado pode ter, tem que haver quem assuma as responsabilidades, procure garantir os postos de trabalho, quem, enfim, tenha que responder perante o mercado.

Foi uma iniciativa arrojada…

Foi, porque era um caminho que até então não tinha sido trilhado. Lembro-me, ainda em estudante, com base neste espírito, de partilharmos os livros, o saber, o tempo e outros bens. Quando chegamos a uma realidade destas, queríamos saber como é que conseguiríamos , também aqui, pôr esta lógica em execução. Não havia sinais pelos quais nós nos pudéssemos guiar. Fizemos algumas asneiras, até porque em algumas situações arriscámos demais, mas depois fomos mais prudentes e, repensamos a nossa acção, garantindo o estabelecimento prévio das regras do jogo. É claro que queríamos manter o fulgor inicial, mas com a prudência de, ao tomarmos uma decisão, organizá-la de modo a ter as regras previamente definidas, de modo a que as decisões não hipotecassem o que tinha começado bem. Porque nós quando fazemos uma coisa, temos que a levar até o fim, não pode ficar a meio.

Concretamente, do que é que estamos a falar?

Estamos a falar de uma pequena comunidade de cerca de 60 trabalhadores. Temos uma unidade aqui, outra em São João da Madeira e outra em Felgueiras. É uma comunidade em que somos todos co-responsáveis, em que nos procuramos respeitar a todos os níveis: clientes, fornecedores e colegas trabalho, quer até no respeito pela natureza, pois trabalhamos todos aqui dependemos do mesmo.
Procuramos trabalhar, tentando integrar todas as opiniões, de modo a melhorar a forma como é feito o nosso trabalho. Muitas vezes, este esforço nem implica muito investimento e, no fim, saímos todos a ganhar.

Peço-lhe concretize um pouco mais sobre o que se passa na parte das relações.

Aqui, somos pais, filhos, irmãos, maridos e carregamos esta circunstância, fazendo sempre esforço por encontrar a alternativa que sirva todas estas dimensões, mas não é um caminho fácil.

Quais são os valores mais importantes na EdC?

Primeiro, temos que ter um respeito muito elevado por todos os intervenientes que interagem connosco, independentemente de onde quer que se encontrem no processo. Colegas de trabalho, fornecedores, clientes, Estado, todos merecem o nosso respeito. É por aí que criamos ligações que sustentam a empresa, garantem continuidade e asseguram um produto bem feito. Se eu respondo com profissionalismo, tenho a certeza que grande parte das minhas dificuldades, embora não deixem de existir, terão uma solução.
Eu não vou deixar mal o meu funcionário, porque ele sabe que, nos últimos dias úteis de cada mês, lhe pago o salário. Esta dificuldade, eles têm-na resolvida. Se eu vendo o produto que é feito como previsto e entregue na hora certa, eu estou a resolver uma dificuldade ao meu cliente. Se, ao meu fornecedor, asseguro o pagamento na hora combinada e pelo valor estipulado, ele fica com aquela questão resolvida, e tem confiança e garantia na nossa relação.
Tudo isto facilita os nossos relacionamentos. Quando vou ter com um deles, existe o histórico que fala por si, portanto, na EdC, o respeito e a confiança são valores essenciais, que devem ser estimulados.
Esta relação suscita nos outros o melhor deles. Se nós exigimos dos outros sem antes ter dado provas, é difícil que tenhamos adesão, mas quando provamos e fazemos, há um histórico que, mesmo com algumas falhas pelo meio que tomamos a iniciativa de antecipar e de pedir desculpa, não põe em causa o histórico. Esta ética nas relações, respeito e humildade sustentam a EdC.
Por fim, também temos que trabalhar na base no amor: se tu amas o outro, não podes deixar de ser amado também. Não é que tu fazes uma coisa em troca da outra, mas, naqueles momentos, temos tido provas insofismáveis de que, de fato, aparecem soluções para os nossos problemas que nos surpreendem.

É possível falar e realizar o amor no contexto empresarial?

Muitas vezes, andamos no circuito indiverso. Andamos contra a lógica… Arriscando, mas fazendo as coisas como gostávamos que nos fizessem. Acredito que, nesta lógica de trabalho, até ao momento, não fomos traídos.

Idealista, crente, empresário, qual é o papel que melhor assume?

Considero que não é possível dissociar as três realidades. Uma pessoa que tenha fé, tem de ter um ideal e ver à frente da dificuldade e da realidade. Uma pessoa que emprega é responsável por um grupo de pessoas e tem que ter fé de que elas são capazes e de perceber os limites e as apetências que ainda não estão totalmente ativas e que ainda podem desenvolver.
De uma maneira geral, temos conseguido fazer com que as pessoas descubram um caminho diferente para, em vez do “deitar abaixo”, próprio do momento pessimista que vivemos, descobrir esta possibilidade de ver além da nossa desgraça e dos nossos limites, e acreditar que é possível fazer coisas. Agora, obviamente que uma pessoa que tem uma responsabilidade em mãos tem que ser idealista, realista e tem que ter fé.

Falou da fé em primeiro lugar por alguma razão?

A fé é a cereja no topo do bolo. Uma pessoa faz sempre muitas perguntas e as respostas não são muitas, mas, quando se tem fé, a resposta surge e aceitamos até aquela que menos esperávamos.
Às vezes, eu penso que, para crescer no mercado, tenho que tirar mercado aos meus concorrentes. Será isto um ato de querer bem ao outro? Perante esta pergunta, só encontro uma solução. Se, aos recursos que tenho, não dou um bem maior e uma forma mais digna e se não partilho o lucro de uma forma mais cristã e digna, não estou a acrescentar nada e estou a desvalorizar o que era de outro. Por outro lado, se ao ganhar mercado, procuro, com aquelas pessoas, ter um funcionamento diferente, se o lucro que eu gero, partilho em situações mais dignas, acabo por trazer um valor acrescentado àquilo que faço. Se ganho mercado só por ganhar e depois não aplico o lucro em algo mais digno, não vale a pena.

Nessa perspetiva de distribuição de lucros, onde está a dinâmica capitalista do investidor?

A empresa deve funcionar como uma família, que procura satisfazer as várias dificuldades que possam surgir, garantindo a sua sobrevivência através do investimento. Nesta lógica, procuramos potenciar a riqueza gerada para um fim mais justo, mais equitativo e abrangente. O capitalismo e ter dinheiro no banco não é uma coisa que me seduz. Eu não vivo para isso… A Minha riqueza são os relacionamentos e ver que estes valores se divulgam.

Tem noção de que o vosso discurso é anacrónico, tendo em conta a realidade empresarial atual?

Considero que não seja uma coisa atrativa para muitos, mas também não é isso que desmerece.
A relação saudável que temos com as pessoas, sentir que construímos relacionamentos novos e que as pessoas se sentem bem. Às vezes, não é preciso que as pessoas tenham muitas coisas ou muito dinheiro mas que as pessoas se sintam em paz e que vivam o sentido das coisas. Essa construção dos relacionamentos é o meu lucro principal. Como dizia Santo Agostinho: “o meu supérfluo é pertença dos outros”… Eu procuro viver por aí.

E tem compensado? A empresa tem crescido?

Esta forma diferente de fazer as coisas têm-nos mantido como líderes de mercado e, com as três fábricas, somos o maior fabricante do país.

 

 

Uma preocupação constante com a realidade do próximo…

“Na EdC imaginamo-nos no lugar do outro e é com base nesta projeção que tomamos as decisões. Temos que ser uma família com os clientes, os colaboradores, os fornecedores, com todos.

Com os fornecedores nós temos que procurar responder atempadamente ao retorno do trabalho que eles desenvolveram para nós, concretamente ao nível do pagamento e do respeito pelos prazos acordados. No entanto, quando os prazos não podem ser cumpridos, procuramos comunicar antecipadamente essa dificuldade e tentar encontrar, em conjunto, uma solução pare esse problema.

Com o cliente, fazemos um esforço para que o produto seja entregue atempadamente e rigorosamente com as características que foram pedidas, para não o deixarmos de mãos a abanar. Mas isso, julgo que se faz em todo lado. Aqui, os tempos são muito apertados, porque joga com moda. Os cliente pedem de manhã, para ser entregue à tarde e esta velocidade causa-nos alguns apertos, muitas vezes por causa das distâncias. É um esforço constante, que muitas vezes nos tritura, mas que precisamos de garantir ao cliente. De uma forma geral procuramos garantir que as condições acordadas entre nós e o cliente sejam concretizadas e garantidas na qualidade do produto e do serviço. Regra geral, temos que pôr no outro, aquilo que gostávamos de ver resolvido em nós. Se não conseguimos, devemos tomar a iniciativa de dizer antecipadamente que estamos com dificuldades, informando que a solução conforme estava prevista deixou de ser possível.”

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