Em todas as circunstâncias

Nesta vida, tudo tem o seu preço, resmunga uma voz pouco conformada dentro de mim, tentando desfazer o meu pensamento agradecido desta manhã.

Manhã cedo, ainda escuro, saboreando antecipadamente as pausas que a Bárbara irá fazer nas suas travessuras, vem-me à ideia que a minha acção de graças tem sido realmente muito magra, demasiado magra para aquilo que devo à Providência.

Porque não posso deixar de admitir que esta Pandemia me tem trazido grandes lições, quase a preço nulo; contrariamente ao que terá acontecido com milhões de seres humanos, por esse mundo fora, onde poucos podem viver um confinamento tão benigno, quase dourado, como o meu.

Nesta vida, tudo tem o seu preço, resmunga uma voz pouco conformada dentro de mim, tentando desfazer o meu pensamento agradecido desta manhã; mas quando reparo no que vivi ao longo dos anos, essa voz cala-se, e eu fico mais confundido, pensando que uma das maiores graças desta pandemia são as luzes com que o Senhor me vai dizendo o que posso ainda deixar, para ficar mais livre e os outros terem o que não lhes chega de modo nenhum.

E, como pensamento traz pensamento, caio sobre a Sagrada Escritura, que é cada vez mais o meu livro diário de oração.

Sem querer de modo nenhum armar-me em comentador das palavras do Papa – outros o farão com mais competência e oportunidade do que eu -, não resisto à tentação de trazer São Paulo para um dos temas abordados de modo tão agudo pela encíclica “Fratelli Tutti”, um parágrafo da carta aos Filipenses.

Uma carta tão importante para o desenvolvimento de alguns dos temas fundamentais da teologia do Novo Testamento, mas com um estilo tão pessoal e íntimo, que faz dele um documento muito expressivo da humanidade do coração do Apóstolo dos Gentios:

Paulo está na prisão – uns dizem que em Roma, outros que em Éfeso, pouco importa – por causa da sua fidelidade como pregador do Evangelho. E na prisão recebe, da parte dos cristãos de Filipos, a primeira comunidade cristã da Europa, fundada precisamente por ele, poucos anos antes, uma delegação com ajuda material e manifestação de solidariedade agradecida.

Deste encontro de corações crentes nasce, com o impulso e as luzes do Espírito Santo, um dos textos mais belos do Novo Testamento.

Aqui vai o parágrafo:

“Irmãos: Sei viver na pobreza e sei viver na abundância. Em todo o tempo e em todas as circunstâncias, tenho aprendido a ter fartura e a passar fome, a viver desafogadamente e a padecer necessidade. Tudo posso n’Aquele que me conforta. No entanto, fizestes bem em tomar parte na minha aflição. O meu Deus proverá com abundância a todas as vossas necessidades, segundo a sua riqueza e magnificência, em Cristo Jesus. Glória a Deus, nosso Pai, pelos séculos dos séculos. Amen (Fil 4, 12-14. 19-20).

Se não estou em erro, neste parágrafo, que alguns dizem pertencer inicialmente a um bilhete de agradecimento, depois anexado ao corpo da carta, o Apóstolo traça as grandes linhas de um programa de luta, por parte do cristão, contra o consumismo. O consumismo, ao qual vemos com tristeza regressarem com avidez, indivíduos, sociedades e nações, como se não tivessem aprendido nada com este flagelo.

Ao consumismo, ou à necessidade de lutar contra ele, se refere com veemência o Papa, na encíclica “Fratelli tutti”, da qual transcrevo o seguinte parágrafo:

“Se não conseguirmos recuperar a paixão compartilhada por uma comunidade de pertença e solidariedade, à qual saibamos destinar tempo, esforço e bens, desabará ruinosamente a ilusão global que nos engana e deixará muitos à mercê da náusea e do vazio. Além disso, não se deveria ignorar, ingenuamente, que «a obsessão por um estilo de vida consumista, sobretudo quando poucos têm possibilidades de o manter, só poderá provocar violência e destruição recíproca» (“Laudato sí” , 204). O princípio «salve-se quem puder» traduzir-se-á rapidamente no lema «todos contra todos», e isso será pior que uma pandemia”. (Francisco, Fratelli tutti, 36).

De Francisco para Paulo de Tarso: porque será que sentimos falta de tanta coisa? Que temos tão pouco para compartilhar? Nem tempo, nem esforço, nem bens?

É altura de os cristãos se perguntarem se, de facto, contam com Jesus Cristo para alguma coisa. A todos, São Paulo se apresenta como exemplo: “Em todo o tempo e em todas as circunstâncias, tenho aprendido a ter fartura e a passar fome, a viver desafogadamente e a padecer necessidade. Tudo posso n’Aquele que me conforta”.

Fecho os livros e os janelões do espírito, que procuram atirar comigo para aquilo de que me priva este confinamento, esquecendo o que tenho e falta aos outros, talvez à maioria das pessoas; mas, o que é mais grave, fechando o coração ao único conforto que privação nenhuma pode vencer: “Em todo o tempo e em todas as circunstâncias, tenho aprendido a ter fartura e a passar fome, a viver desafogadamente e a padecer necessidade. Tudo posso n’Aquele que me conforta”.

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