Em busca de oásis para saciar a sede de espiritualidade

A espiritualidade cristã, que brota da graça recebida no encontro com Cristo e na iniciação cristã (Batismo, Crisma e Eucaristia) e se traduz da relação íntima e comunitária com Jesus Cristo, é como uma nascente que brota no coração.

Na atual sociedade de bem-estar e muita ambição, a vida torna-se esgotante. Mesmo assim, sem se darem conta das fragilidades do seu estado, as pessoas entregam-se a sempre novas experiências de prazer, para satisfazer os seus insaciáveis anseios. Os amargos frutos deste estilo de vida acabam por chegar: a vida seca, a alegria azeda, a esperança murcha, a angústia e o vazio tomam conta dos corações humanos, invadidos por estados depressivos. Muitos perdem então o gosto de viver, a capacidade de suportar as exigências das relações, os fracassos e sofrimentos, os desafios… 

Quem tinha perdido ou abandonado práticas e convicções religiosas fica sem essa ajuda. Há, no entanto, quem espreite e se ponha à busca, quase desesperada, de espiritualidade. Atualmente são publicados muitos livros e oferecidos cursos que correspondem a essa procura. Emerge particularmente uma sedução pelas formas de espiritualidade oriental, propostas muitas vezes nas modalidades de terapias alternativas, exercícios de concentração e meditação, ensinamentos e sabedoria para uma vida saudável e para desenvolver o próprio potencial humano. Acabei de ler um desses livros. Propõe aos executivos ocidentais, como “uma fábula espiritual”, de forma leve, transfigurada e adaptada, os princípios e práticas do budismo para homens que têm uma intensa atividade profissional e social dominada pela ambição materialista, busca de riqueza e bem-estar, sem nunca estarem satisfeitos, mas também sem verdadeiramente saborearem a vida momento a momento. O caminho indicado pelo Mestre espiritual do livro é transformar a própria mentalidade, objetivos e estilo de vida, passando a viver de modo diferente, a partir da espiritualidade.

Não ponho em causa que alguém encontre sabedoria e ajuda espiritual neste tipo de ofertas. Com frequência, são formas de espiritualidade muito narcisista, que alimentam e reforçam o próprio eu. Recebidas sem espírito crítico e capacidade de discernimento, tais propostas desviam e desvirtuam os cristãos da própria fé e identidade, tornando-se autênticas “cisternas rotas, que não podem reter as águas”, construídas para si próprios por quem abandonou a Deus “nascente de águas vivas”, como denunciou o profeta Jeremias (cf Jr 2,13). Muitos procuram fora de casa o bem mais preciso que nela podem encontrar, vão pelo deserto em busca de um oásis, quando têm junto de si e no seu próprio interior uma nascente onde podem saciar-se. Alguém, depois de uma experiência de abandono e de redescoberta da vida e da espiritualidade cristãs, disse que muitos cristãos são como gente que se encontra no meio da água e morre de sede, por não se dar ao esforço de se curvar e beber. 

A espiritualidade cristã é relação e comunhão com Jesus e com os outros

A espiritualidade cristã, que brota da graça recebida no encontro com Cristo e na iniciação cristã (Batismo, Crisma e Eucaristia) e se traduz da relação íntima e comunitária com Jesus Cristo, é como uma nascente que brota no coração, refresca o nosso ser e satisfaz a sede interior que nos habita. Entre as palavras de Jesus, podemos escutar estas: “«Se alguém tem sede, venha a mim; e quem crê em mim que sacie a sua sede! Como diz a Escritura, hão de correr do seu coração rios de água viva.» Ora Ele disse isto, referindo-se ao Espírito que iam receber os que nele acreditassem” (Jo 7, 37-39). 

Para alimentar e viver uma espiritualidade satisfatória, não basta a prática cristã tradicional, por hábito e quando me apetece. Escuta da Palavra de Deus, oração e meditação diárias, participação ativa na liturgia comunitária, exercícios espirituais ou retiros, acompanhamento espiritual, peregrinações a santuários e cultivo da relação pessoal com Jesus Cristo, procurando nele inspiração e energia para a vida quotidiana, constituem fontes e alimento que nos refrescam, irrigam e revitalizam interiormente. Além da Bíblia, há bons livros e propostas, até no próprio telemóvel, para alimentar a própria espiritualidade cristã. Autores cristãos, como Anselm Grün, Henri Nouwen, Chiara Lubich e muitos outros, são autênticos mestres e guias espirituais que ajudam a saciar a sede de interioridade, iluminam e fortalecem a alma humana para os desafios e inquietações da vida quotidiana. Mas a oferta cristã é bem mais ampla como antes referi.

Muito sugestivo da espiritualidade cristã, centrada em Jesus e inspirada em Maria, mas incarnada numa vida quotidiana solidária e empenhada no mundo, é o seguinte texto de Chiara Lubich, fundadora do Movimento dos Focolares, no seu livro “Meditações”:

«Eis o grande atrativo dos tempos modernos: 
penetrar na mais alta contemplação 
e permanecer misturado com todos, lado a lado com os outros. 
Queria dizer mais: 
perder-se na multidão, para a impregnar do divino, como um pedaço de pão se embebe no vinho. 
Queria dizer mais: 
tornados participantes dos desígnios de Deus sobre a humanidade, 
desenhar sobre a multidão rendilhados de luz 
e, ao mesmo tempo, partilhar com o próximo 
a injúria, a fome, os ultrajes, as alegrias breves.
Porque o atrativo do nosso tempo, como o de todos os tempos,
é o que de mais humano e mais divino se possa pensar,
Jesus e Maria:
O Verbo de Deus, filho de um carpinteiro;
A Sede da Sabedoria, dona de casa».

Sem espiritualidade, a vida seca e quebra-se; com ela, torna-se capaz de suportar e enfrentar as adversidades com amor, confiança, resiliência, esperança e criatividade. “O Senhor é minha força e proteção: a Ele devo a minha liberdade”, assim se reza numa antífona da liturgia das horas da Igreja. 

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Livro acima referido: ROBIN SHARMA, O monge que vendeu o seu ferrari. Uma fábula espiritual, Pergaminho, Lisboa 2004.

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