Duas efemérides apenas: afinal, quem anda a enganar os povos?

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«Deixo-vos a paz; dou-vos a minha paz. Não é como a dá o mundo, que Eu vo-la dou. Não se perturbe o vosso coração nem se acobarde. Ouvistes o que Eu vos disse: ‘Eu vou, mas voltarei a vós.

(…) Já não falarei muito convosco, pois está a chegar o dominador deste mundo; ele nada pode contra mim, mas o mundo tem de saber que Eu amo o Pai e atuo como o Pai me mandou.

Levantai-vos, vamo-nos daqui!» (João 14, 27-31)

A gente não tem meio de construir qualquer serenidade a partir dos coros que se erguem à nossa volta, todos envergando a máscara do serviço à informação, a uma comunicação cada vez mais dependente da tecnologia, cada vez menos humana.

Também não admira que todo este frenesim de comunicar reduza drasticamente o tempo e o espaço de que temos necessidade para ver como os factos, desde a mais remota antiguidade, mostram a inutilidade, antes, as trágicas consequências dos caminhos errados por onde se teima em seguir.

Pego apenas em duas efemérides, separadas por 45 anos, que, apesar de aparentemente nada terem a ver com o que digo, como muitas outras efemérides, me fazem pensar que a mais grave desumanização, provocada pela vida que nos impõem as ideologias, é a redução progressiva da capacidade de pensar.

A célebre afirmação do grande sábio e místico francês que, há pouco mais de três séculos, sintetizou o ADN da existência humana, comparando o homem a um caniço que pensa, não é nenhuma brincadeira de mau gosto.

Um dos maiores escândalos que marcaram os meus hábitos juvenis de julgar as coisas, foi ouvir um dia alguém classificar os milhões de agricultores massacrados pela reforma agrária de Estaline, como um resultado da crise de nascimento.

Dei-me depois conta de que havia antropólogos que, aberta ou veladamente, defendiam a mesma ideia, adaptando as máscaras aos respetivos ambientes.

As efemérides e a negação da história

Sem querer, de modo nenhum, meter-me em assuntos que não são da minha competência, peço apenas licença para desabafar, ou partilhar um pouco do espanto que me invade, quando reparo na conspiração do silêncio ou da leitura retorcida à volta de certos factos históricos, todos tão recentes.

Em 4 de junho de 1944, os Aliados entravam triunfalmente em Roma, que tomavam como primeira capital das potências do Eixo, a render-se.

Para trás ficava a mortandade provocada por um desembarque que só teria rival no efetuado dois dias depois, nas costas da Normandia.

Nunca mais se me varreu da memória aquele campo enorme, coberto de cruzes brancas, campo por onde passei 15 anos depois, e onde tantos milhares de jovens – entre eles muitos luso-americanos –, foram sacrificados à loucura dos poderosos.

Também ouvi dizer nessa e noutras ocasiões, que tudo aquilo era o preço da democracia.

A democracia. Que palavra, meu Deus!

O facto é que, 45 anos depois – de então, passaram apenas trinta e seis – centenas de milhares de jovens que exigiam o regresso do seu país à democracia, neste mesmo dia de junho, foram massacrados, sem dó nem piedade, às ordens de um poder cujos herdeiros se impõem hoje, como uma das maiores forças de pressão sobre a vida dos povos.

E não admira que o sejam, porque, na altura, que me lembre, não houve entre os detentores do poder político, no mundo que se vangloria de ser democrático, um único que erguesse a voz contra tal desumanidade.

Apetecia-me falar ainda dos mais de duzentos milhões de mártires – sentido canónico – só no século XX, deixando para trás os números aterradores de vítimas dos conflitos da hora atual… enquanto se apregoam em todos os tons, as negociações de paz, dizem eles, que se realizam aqui e ali, pondo cada negociador a máscara que lhe parece mais adequada.

É verdade que Jesus disse: “Bem-aventurados os que promovem a paz, porque serão chamados filhos de Deus” (Mateus 5, 9).

É verdade, e todos os discípulos, qualquer que seja a sua condição étnica, cultural, social ou política, têm de estar entre os que promovem essa paz; mas não podem esquecer nunca que o princípio tradicional romano – se queres a paz, prepara a guerra –, mais do que pagão, é anticristão. E diz-nos a história que, mesmo sob o pretexto de uma certa defesa, sempre a corrida aos armamentos transformou a defesa em agressão.

Rezemos muito, peçamos mesmo aos crentes de outras religiões que rezem connosco; mas não enganemos ninguém, porque a paz prometida por Deus não é aquela de que se fala nos areópagos da opinião pública:

«Deixo-vos a paz; dou-vos a minha paz. Não é como a dá o mundo que Eu vo-la dou. Não se perturbe o vosso coração nem se acobarde. Ouvistes o que Eu vos disse: ‘Eu vou, mas voltarei a vós.

(…) Já não falarei muito convosco, pois está a chegar o dominador deste mundo; ele nada pode contra mim, mas o mundo tem de saber que Eu amo o Pai e atuo como o Pai me mandou» (João 14, 27-31).

(Fátima, 25.06.04)

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