DIANTE DO SEPULCRO

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“Não está aqui, pois ressuscitou, como tinha dito!”

Algumas palavras, certamente escusadas, porque toda a gente sabe, ou, pelo menos, todos os meus leitores sabem que o Sepulcro, ou o local onde foi colocado o corpo do Senhor, é uma espécie de gruta cavada na rocha, à beira de Jerusalém, materialmente marcada por vestígios da falta de comunhão e unidade dos discípulos de Jesus.

Mas as coisas mudam de figura, quando falamos do sítio que albergou, duramente algumas horas, aquele que, na cruz, depois de ter dito, “tudo está consumado, inclinou a cabeça e entregou o espírito”.

Sem negarmos a realidade material e histórica dos locais e dos factos, estamos a referir-nos ao mistério, não já daquela morte, mas do que, a partir dela, perceberam e percebem, as testemunhas, amigos, inimigos, curiosos e indiferentes, naquelas horas e nos milénios que se seguiram, até hoje.

Talvez pudéssemos até começar por reparar que, falando-se do Filho de Deus, o Verbo Encarnado, não será bem a mesma coisa, dizer que “inclinada a cabeça, morreu”, e, como se lê no grego de João, “inclinando a cabeça, entregou- parédoken (de dídomi, dar) – o espírito”.

Estamos a falar de um ponto fundamental do mistério de Cristo, presente na história dos homens.

E é sobre este mistério que quero rezar, mais uma vez e escrever, com o intuito único de partilhar o que, neste ponto, a fé me anima a encontrar de conforto para a existência.

A poucos minutos da partida para a Casa do Pai, daquele que foi durante doze anos, o sinal visível da unidade cristã e o detentor do magistério petrino – confirmar os irmãos na fé –, reforço o silêncio à minha beira e dentro de mim, por respeito, sentido do dever de rezar, e porque se multiplicam os discursos sem altura, nascidos da ignorância e má fé, de quem não sabe pensar antes de falar.

Começo pela recolha de alguns passos do texto sagrado. Dia assim São Mateus:

“Terminado o sábado, ao romper do primeiro dia da semana, Maria de Magdala e a outra Maria foram visitar o sepulcro. Nisto, houve um grande terramoto: o anjo do Senhor, descendo do Céu, aproximou-se e removeu a pedra, sentando-se sobre ela. O seu aspecto era como o de um relâmpago; e a sua túnica, branca como a neve. Os guardas, com medo dele, puseram-se a tremer e ficaram como mortos.

Mas o anjo tomou a palavra e disse às mulheres: «Não tenhais medo. Sei que buscais Jesus, o crucificado; não está aqui, pois ressuscitou, como tinha dito.

Vinde, vede o lugar onde jazia e ide depressa dizer aos seus discípulos: Ele ressuscitou dos mortos e vai à vossa frente para a Galileia. Lá o vereis»” (Mt 28, 1-7).

Visitar o sepulcro, muito cedo, depois da compra dos óleos, para a unção que não se pudera fazer antes, por respeito â Lei.

Costumamos falar das Santas mulheres, e não será por acaso que é com elas que se inicia a narração mais espantosa da história da humanidade. Tão espantosa que, ainda antes de se divulgar, logo surgiu quem tratasse de a esconder, manipulando-a ao serviço da própria cegueira, não reparando sequer no ridículo dos seus intentos.

As Santas mulheres, pois claro.

Sem dúvida que, como desde o início o entendeu a comunidade crente, apesar de algum comentário mais preconceituoso, a sua atitude revela a impaciência e a generosidade do amor de qualquer coração apaixonado; mas, para revelar de modo humano essa impaciência e generosidade, Deus não tem linguagem mais adequada que o coração apaixonado da mulher.

E elas aí estão, à procura do único homem que as tratou com o máximo respeito, e o mundo parece querer roubar-lhes definitivamente.

Por isso, são as primeiras a perceber que esse homem não era apenas uma figura extraordinária, que as defendia das discriminações políticas, sociais e económicas: era, ao contrário, a vítima suprema dessas discriminações, do descarte e da perseguição, num mundo em que se busca o poder pelo poder, onde se foi a pouco e pouco perdendo a capacidade de dar e receber e, enganosamente se procura a felicidade apoderando-se do que só se pode ter como dom.

Diante do sepulcro vazio, enquanto os curiosos procuram matéria para especular, os orações apaixonados, porque é o Senhor que procuram, choram, até que se se dão conta de que o jardineiro já não é o jardineiro, mas quem eles procuram.

É assim a Madalena, é assim a Igreja nascente, figurada em Pedro e João, numa corrida em que o amor leva a dianteira, mas espera pelo reconhecimento de quem recebeu a missão de confirmar os irmãos na fé.

Foi, é e será sempre assim:

A partir deste momento, a história da humanidade, apesar das aparências, nunca mais será igual.

No dia em que os sinos do mundo inteiro dobram, anunciando a morte de mais um Papa, sinto-me inclinado ao recolhimento, a não escutar senão a voz do coração iluminado pela fé, para o único que me parece melhor nos primeiros discípulos que, logo de madrugada, correram ao sepulcro: acolher os sinais de Deus e pedir- Lhe que a Igreja seja cada vez mais fiel ao seu ser de filha, esposa e mãe, segundo o mistério de Cristo de que é presença na história dos homens.

(Fátima, 25.04.21)

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