DE AUSCHWITZ À FAIXA DE GAZA

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Nove de Agosto de 1942.

Ela, que não completara ainda os cinquenta anos, tinha o nome civil de Edith Stein, que mudara, nove anos antes, para Teresa Benedita da Cruz, ao professar como religiosa carmelita, em Colónia. Daí saira, depois da chamada “noite de cristal”, para Eicht, na Holanda, onde procurava uma segurança que terminaria a dois de Agosto de 1942, presa pelo único crime de não ser, como diziam os agentes da tirania Nazi, de raça ariana.

Diz-se que, ao sair para o campo da morte, animou a irmã Rosa, presa como ela e pelos mesmo motivos: Vem daí, que devemos isto ao nosso povo!

O seu povo era precisamente o povo hebreu: um povo odiado e perseguido através dos milénios, que ela, como Paulo de Tarso e tantos outros da sua raça, acabara por descobrir em Jesus Cristo morrendo no madeiro da iniquidade, para não matar os que o perseguiam e odiavam.

Por isso não cessava de tentar convencer a própria mãe de que, ao fazer-se cristã, não traíra o seu povo, mas se identificava com o sentido mais profundo da sua história.

Assim, dois dias apenas depois da sua prisão, as duas irmãs juntavam-se a tantos milhões de vítimas, não só judeus, mas cristãos, muçulmanos, pessoas anónimas de todas as raças, cujo viver não se conformava com o terror dominante.

Por uma infeliz coincidência, faz hoje noventa anos – logo, apenas três dias depois da morte de Teresa e a irmã, de uma forma tão cruel – Nagasaki é totalmente destruída pela segunda bomba atómica, lançada por uma das potências beligerantes sobre o Japão.

Era o horror da guerra: como sempre acontece quando a informação, já de si elemento privilegiado de qualquer arsenal, insiste mais nas tragédias do que no respectivo significado, perante os escombros das duas urbes esmagadas pela força, o que a maior parte das pessoas viu e cantou, foi a vitória da força, esquecendo por completo a desumanidade dos factos e do que daí se seguiria.

Noventa anos depois.

Fizera o propósito de não assinalar tais datas, nesta minha página de reflexões pessoais, que não pretendo sejam compromisso para ninguém.

Fez-me quebrar este propósito o desejo de homenagear o meu caríssimo Professor e amigo Carlos André e dizer-lhe que há muitas décadas, apesar das aparências, a minha visão das coisas, no essencial, se foi desenvolvendo na direcção das suas linhas de pensamento: li, ainda como aluno de literatura portuguesa, no Seminário, o livro de Samuel Usque, que foi, posso dizer, a estrada que me conduziu à obra de Bernardim Ribeiro e ao confronto das interpretações da Écloga Crisfal.

E quando, passados alguns anos, passeava isolado pelas ruas de Roterdão, ao deparar com tantos nomes que soavam a português, nos apelidos dos proprietários e respectivas profissões, muitas coisas ficaram mais claras para mim, que há muito vinha formando a mente na linha de uma ideia, tão antiga como o surgir do pensamento humano: violência gera violência e só quem não se sente seguro no poder, teme e persegue a liberdade de pensar.

Pois, meu caríssimo Professor, amenizando um pouco a linguagem e descontextualizando os factos, para que se torne mais claro o seu sentido – eu diria o carácter universal da sua desumanidade -, o nosso pensamento será perfeitamente coincidente.

Para mim, meu caro André, o que é mais triste é que os males da violência e da guerra, são permanentemente envolvidos em nevoeiros ideológicos, favorecidos por uma cada vez menor capacidade de pensar, por parte dos consumidores da comunicação social; encontram cada vez menos espíritos suficientemente bem formados.

Isto dito, é minha convicção, como quem procura ler a história procurando o seu verdadeiro significado, que nem gestos nem instituições podem ser julgados com objectividade, se nos falta a serenidade apara avaliar devidamente os argumentos de quem os condena ou defende.

E todos sabemos que a maior parte dessa serenidade se adquire no contacto inteligente com os grandes autores, as obras literárias e artísticas de todos os tempos.

Contacto inteligente, que exige respeito pela respectiva hermenêutica.

Caríssimo Carlos André, um grande abraço, como votos de que possamos continuar a ler textos tão sábios e oportunos.

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