Das sombras da memória aos raios luminosos da fé

A pneumónica! Ouvi muitas vezes falar dela a minha mãe, que contava como, para espanto meu, todos os dias percorria, de baixo acima, a aldeia onde nascera, para ajudar, como podia, os doentes, que, em muitos casos, eram todos os membros da família.

A pneumónica! Ouvi muitas vezes falar dela a minha mãe, que contava como, para espanto meu, todos os dias percorria, de baixo acima, a aldeia onde nascera, para ajudar, como podia, os doentes, que, em muitos casos, eram todos os membros da família.
– O que é que vocês pensam, dizia ela, introduzindo uma pausa de reflexão no seu discurso, houve casas que ficaram completamente vazias!
Contava dezassete anos incompletos e nunca nos disse, que me lembre, como conseguiu libertar-se dessa epidemia; uma epidemia que lhe deixara memórias mais dolorosas que a Grande Guerra, que, por sua vez, lhe roubara muitos dos jovens que, embora um pouco mais velhos, tinham sido seus companheiros de trabalho e de folguedos.
Fiquei com a impressão de que o país tinha querido esquecer essa tragédia. Só muito mais tarde ouvi falar dela, a propósito da morte dos dois pastorinhos, Francisco e Jacinta Marto, que hoje veneramos como santos, depois de beatificados por João Paulo II e canonizados pelo Papa Francisco. Disse-se na altura que eram as primeiras crianças não mártires a receber as honras dos altares; mas falou-se muito pouco das causas da sua morte, ainda que fosse claro para toda a gente que, embora em anos diferentes, ambos tinham morrido pelas sequelas da pneumónica.
Agora enchem-nos os ouvidos com memórias desse passado doloroso, dando-lhe o nome de gripe espanhola. E não cessam de apresentar números aterradores; quero crer que será por pensarem que o medo pode fazer o que não souberam fazer os poderes públicos, demasiado distraídos com discursos ideológicos, para se darem conta que o Covid-19 não precisa de passaporte para transpor as fronteiras.
Volto ao Papa Francisco, porque o seu exemplo de fé e solidariedade sofredora não pode ficar apenas como adorno de uma certa imprensa, mais sensacionalista do que informativa.
Nas memórias da juventude dos meus pais, tirando os horrores da guerra e aquela lembrança do silêncio dos sinos, que deixaram de anunciar as mortes, para não causarem mais pânico na gente, revejo um enorme clarão que, mesmo com o silêncio dos sinos, se espalhava das igrejas, que nunca se fecharam, até às casas, onde, a partir de certo momento, muitas vezes só entrava o padre, com o que a igreja tem para confortar os moribundos.
Quando, mais tarde, comecei a reunir os dados, sempre muito fragmentários das narrativas de minha mãe, fui percebendo cada vez melhor as frases com que sempre nos arrancava do pessimismo ou do desânimo.
Eram geralmente frases muito conhecidas, mas que nos seus lábios assumiam uma tonalidade especial, um assomo de coragem, que se manteve até ao fim, mesmo quando os filhos eram já adultos e com alguma experiência de vida.
Quando as desgraças já não eram só familiares e atingiam grupos ou populações inteiras, a sua fase padrão era:
– Deus está no Seu lugar e não é cego nem surdo!
Nem mudo, diria hoje, com mais propriedade: porque aquilo de que os homens andam mais esquecidos é de se pôr à escuta de Deus. E eu não tenho dúvidas de que o Papa, de terço nas mãos pelas ruas de Roma, mesmo que grite com o Salmista, “os nossos olhos voltam-se para o Senhor, até que tenha piedade de nós. Piedade, Senhor, tende piedade de nós”(S 123), o que ele pede com mais insistência, será que os homens se convertam e escutem a Palavra de Deus:
Porque, não vale a pena fechar os olhos e muito menos os ouvidos: se a natureza é a gramática do discurso de Deus aos homens, a maior loucura que se poderá cometer nesta hora será fechar-Lhe os ouvidos.
O Papa a rezar pelas ruas da sua cidade!
È um conforto, não tenhamos dúvidas; mas é também um apelo veemente: aos crentes, para que se solidarizem com ele e o imitem; a todos, crentes e não crentes, para que vejam bem por onde andam.

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