Não venho falar outra vez da feijoca que, apesar de ter desabrochado, seguindo as leis da natureza, pela ambição, pressa e impaciência do semeador, foi privada do sonho de viver que vinha ligado ao seu grelo, ainda que com ligeira demora em relação aos outros grãos lançados no mesmo canteiro.
Não venho falar da feijoca, mas permito-me pegar na lembrança do trágico destino que lhe causou a inexperiência do semeador, para desenvolver um pensamento de santo Agostinho que reaparece numa das páginas mais belas de São Francisco de Sales. Santo que celebrámos também há pouco.
É um pensamento que, radicado no Evangelho, veio de século em século, de uma maneira ou de outra, iluminando a vida de milhões de baptizados, até que o Magistério solene da Igreja o assumiu e consagrou definitivamente, como doutrina revelada, elemento da fé de qualquer baptizado (Vat II LG 42 5).
A perfeição da caridade só existe em Deus; por isso, como diz o hino litúrgico, só Ele é santo; e é da Sua plenitude que estão cheios os céus e a terra.
A história da espiritualidade cristã, sobretudo na Europa e nos tempos modernos, está recheada de exemplos de homens e mulheres que procuraram, individualmente ou em grupo (sociedades de vida apostólicas e ordens religiosas), viver a radicalidade do Evangelho, muitas vezes com a incompreensão e as perseguições de pastores e leigos, dependentes de uma mentalidade elitista que, no que se refere ao ensino oficial da Igreja, não foi nunca apadrinhada. Mais, Jesus contesta-o, por palavras e por gestos, desde o início da sua existência histórica. E podemos dizer que também Ele foi perseguido até à morte pela firmeza com que sempre rejeitou esse elitismo.
Os Padres conciliares, no que podemos designar por documento charneira do Vaticano II, depois de definirem o carácter hierárquico da Igreja, por instituição divina – bispos, sacerdotes e diáconos -, antes de se ocupar de alguns grupos específicos, fala do povo de Deus como um todo, terminando do seguinte modo:
“Assim todos os fiéis são convidados à santidade e obrigados a tender para a perfeição do seu estado. Cuidem por isso de orientar rectanente os seus afectos, não vá o uso das coisas mundanas e o apego às riquezas, contrário ao espírito de pobreza evangélica, impedi-los de alcançar a caridade perfeita; já advertia o Apóstolo: os que usam deste mundo vivam como se não o usufruíssem plenamente. Porque este mundo de aparências está a terminar (1 Cor 7, 31 gr).
Contém este último parágrafo do capítulo quinto da Lumen Gentium duas palavras de significado múltiplo: já de si mal tratadas ao longo dos tempos, no discurso comum de muitos cristãos, recentemente, por circunstâncias sistematicamente analisadas sob o domínio de determinadas ideologias, se tornaram fonte de graves confusões, sobretudo no mundo ocidental.
Refiro-me ao TODOS e à CARIDADE.
“Todos os fiéis” são mesmo todos, sem discriminação de qualquer tipo: chamados gratuitamente a ajustar-se pela perfeição divina, dentro e fora da Igreja, à qual não têm o direito de exigir senão os meios necessários a esse ajustamento.
“Todos os fiéis”, no contexto do Concílio, são os baptizados – “in re (pelo sacramento), in voto (por desejo) ou in sanguine (pelo martírio) – segundo uma determinada terminologia teológica.
Dispensados desta vocação universal à santidade não estão, nem os leigos, nem os religiosos, nem os ministros sagrados, qualquer que seja a especificidade do seu ministério.
Não vamos agora ocupar-nos do mar de escolhos para a fé comum e a pastoral, que encerra hoje a comunicação social, que não sabe ou não quer entender o mistério cristão, mesmo quando se arroga o direito de noticiar comentando à sua maneira, palavras e factos cujo sentido mais profundo não se descobre fora desse mistério.
Deixando de lado as questões linguísticas e adiando as referências históricas à evolução da espiritualidade cristã nos últimos cinco séculos, façamos uma breve pausa em São Francisco de Sales, que dedicou toda a sua vida – relativamente curta – ensinando, com a doutrina e com o exemplo, como qualquer fiel tem aberto o caminho para a santidade, aminho que nenhum obstáculo ou tempestade pode, só por si, fechar a quem teime em segui-lo: o importante é não se esquecer, em momento nenhum, nas grandes e pequenas ocasiões, “que a única medida perfeita do amor de Deus, é amá-Lo sem medida”.
Cerca de dez séculos antes, com reminiscências bíblicas, falava Santo Agostinho da felicidade de que gozam os que vivem no jardim ao qual compara a Igreja, como plantação divina alimentada pela Graça do Redentor:
“Tem, tem, irmãos, tem este jardim do Senhor, não só as rosas dos mártires, mas também os lírios das virgens, as heras dos cônjuges e as violetas das viúvas.
Por isso, amadíssimos, nenhuma pessoa desespere da sua vocação: de facto, por todos sofreu Cristo. D’Ele foi verdadeiramente escrito: “Quer que todos se salvem e cheguem ao conhecimento da verdade (2Tim 2.4).
(Sermão 304 4.2)



