DA NATUREZA PARA O SOBRENATURAL

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[Nota do editor: Em memória do padre Augusto Ascenso Pascoal e como homenagem ao seu legado espiritual e pastoral, continuaremos a publicar os textos que foi partilhando na sua página pessoal, permitindo que a riqueza da sua reflexão permaneça acessível aos leitores.]

É um encanto esta conversa de Jesus com Nicodemos: um encanto pelo seu conteúdo – o que não espanta nenhum leitor crente – e um encanto pelas suas circunstâncias, normalmente pouco exploradas nas nossas catequeses litúrgicas.

Nicodemos é um fariseu de prestígio, quiçá detentor de algum cargo de responsabilidade no seu grupo.

Há quem pense que vai procurar Jesus de noite, por medo do que dirão, ou, como fazem hoje muitos dos nossos detentores do poder, sobretudo político, por uma visão esquizofrénica do exercício desse poder, ao qual se prendem com uma ambição mascarada de serviço.

Pessoalmente prefiro ver na escolha da oportunidade de encontrar-se com o Mestre, por parte de Nicodemos, a liberdade de consciência do indivíduo que, no uso leal das suas funções, ou do seu prestígio no seio da comunidade, evita tudo o que possa exercer uma pressão ilegítima, contra a liberdade de consciência dos outros.

E esta lealdade, que é também a de Jesus, inclui o respeito pessoal mútuo; precisamente aquele respeito cuja ausência sabota, na sua raiz, muitas das nossas conversas ou trocas de ideias: Jesus acolhe com benevolência o fariseu aparentemente tímido e parte respeitosamente das observações que ele faz, para ajudá-lo a caminhar, indo de etapa em etapa, até à revelação do que talvez fosse impensável para o fariseu, apesar do cuidado e abertura de espírito com que lia os sinais:

O Messias não será nunca um chefe glorioso, e muito menos alguém que cultive a vida à custa da morte dos outros.

Daí a referência explícita ao sinal mais espectacular da misericórdia divina, dado por Deus ao povo que, no deserto sofria e morria com as mordeduras dos rastejantes venenosos: a serpente de bronze, ordenada pelo mesmo Deus e erguida por Moisés, diante do acampamento dos Hebreus a caminho da Terra Prometida.

“Assim como Moisés ergueu a serpente no deserto, assim também é necessário que o Filho do Homem seja erguido ao alto, a fim de que todo o que nele crê tenha a vida eterna” (Jo 3, 14-15).

“Erguido ao alto”, isto é, pregado e morto na cruz.

Li um dia, algures, que a natureza criada era a gramática da fala de Deus aos homens.

A gramática, desde os filólogos alexandrinos, que terão sio também os criadores do vocábulo, é o ordenamento dos sinais gráficos e sonoros de modo a servirem de veículo para a comunicação do pensamento entre pessoas

Mas, como acontece com tudo o que diz respeito às nossas relações com Deus, apesar da espectacularidade dos sinais, da grandeza singular da gramática, a fala só é atingida quando se purifica o coração do que esconde a luz divina.

Na conversa nocturna de Jesus com Nicodemos há várias referências aos elementos da natureza material cujo sentido bíblico era certamente conhecido por Nicodemos, já que os encontramos como tais em quase todos os livros do Antigo Testamento, a começar pelo “mito” primordial da Criação, fruto do amor gratuito de Deus, e a penetração do mal no mundo, através da Queda.

Acontece, porém, que no quarto evangelho, as trevas, a luz, a água, o vinho e o sangue, tal como o nascer da carne e do espírito, estão envolvidos no mistério do Filho do homem, aqui citado como Deus que Se entrega para a salvação do mundo:

“Deus amou tanto o mundo, que lhe entregou o seu Filho Unigénito, a fim de que todo o que nele crê não se perca, mas tenha a vida eterna” (Jo 3, 16).

Os comentadores repetem com frequência que Jesus, tendo em conta o significado que muitas vezes assume a palavra “mundo”, em São João, aqui se referirá aos homens, à humanidade, dito de forma mais simples, mas talvez demasiado redutora e algo dependente de certas ideologias teológicas e filosóficas, cuja doutrina ronda pela heresia e encoraja políticas inaceitáveis.

Alguém definiu e bem, o mundo como a casa comum do ser humano. Só falta que, como nos têm ensinado os últimos Papas, esta “casa” não é de ninguém, mas para o uso de todos, e todos têm de cuidar dela, cada qual segundo as suas circunstâncias, com o máximo respeito pelas circunstâncias dos outros.

O mundo, em todos os sentidos da palavra, é bom, porque brota do amor gratuito de Deus: se há homens e coisas más, não depende dos nossos critérios mas da relação que mantêm com Deus, segundo o mesmo Deus, que, como diz Jesus a Nicodemos, o amou de tal modo que lhe entregou o próprio filho, a fim de que muitos se salvem, dizem as palavras da consagração do pão e do vinho reportadas por São Mateus 27. 28 (Cfr 20, 27 do mesmo evangelista).

Mas há um mundo pelo qual, sempre segundo João, Jesus se recusou a orar e do qual pede ao Pai que defenda os Seus, que estão no mundo, sem serem do mundo:

“Peço por eles: não peço pelo mundo, mas por aqueles que me deste, porque são teus; e tudo o que é meu é teu; e fui glorificado neles. Eu já não estou no mundo, ao passo que estes estão no mundo, enquanto eu vou para ti” (Jo 17, 9-11).

Amar loucamente o mundo, disse São Josemaria Escrivá aos milhares de estudantes e professores que o escutavam no campus da Universidade de Navarra, em Outubro 1967. E todos aqueles que, na resposta à sua vocação à santidade, seguiram os conselhos deste santo, sabem como ele era exigente no seu amor à liberdade de cada um, que incluía o máximo respeito pela liberdade dos outros.

Afinal como Cristo, com Nicodemos, em tantos momentos da Sua vida terrena, com Pilatos e na cruz.

Um contexto em que não se pode amar o erro; mas se pode e deve, se for caso disso, morrer por aqueles que erram por não saberem o que fazem, como Jesus, o Filho entregue pelo Pai ao mundo (Cfr Jo 18, 36-38, Lc 23, 34)).

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