CONTRA AS FALSAS ALTERNATIVAS

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(Mc 1,12-13; Lc 4,1-13)

Então, o Espírito conduziu Jesus ao deserto, a fim de ser tentado pelo diabo. Jejuou durante quarenta dias e quarenta noites e, por fim, teve fome.

O tentador aproximou-se e disse-lhe: «Se Tu és o Filho de Deus, ordena que estas pedras se convertam em pães.» Respondeu-lhe Jesus: «Está escrito: Nem só de pão vive o homem, mas de toda a palavra que sai da boca de Deus.» Então, o diabo conduziu-o à cidade santa e, colocando-o sobre o pináculo do templo, disse-lhe: «Se Tu és o Filho de Deus, lança-te daqui abaixo, pois está escrito:

Dará a teu respeito ordens aos seus anjos; e eles suster-te-ão nas suas mãos

para que os teus pés não se firam nalguma pedra.» Disse-lhe Jesus: «Também está escrito: Não tentarás o Senhor teu Deus!»

Em seguida, o diabo conduziu-o a um monte muito alto e, mostrando-lhe todos os reinos do mundo com a sua glória, disse-lhe: «Tudo isto te darei, se, prostrado, me adorares.» Respondeu-lhe Jesus: «Vai-te, Satanás, pois está escrito: Ao Senhor, teu Deus, adorarás e só a Ele prestarás culto.»

Então, o diabo deixou-o e chegaram os anjos e serviram-no.

(Mt 4, 1-11)

E chegamos de novo, nas regiões abrangidas pela liturgia romana, ao tempo santo da Quaresma; tempo que, pode dizer-se com certa tristeza, mesmo para os católicos abrangidos por este rito, mergulhados como nos encontramos num ambiente cada vez mais secularizado, já não passa de uma simples referência de calendário.

Mesmo ritualmente, não nos faltam textos e exortações suficientes para percebermos o significado e a importância destas sete emanas que precedem as celebrações pascais; mas a verdade é que até da Páscoa e do seu mistério cresce cada vez mais a ignorância: fica-se quase só com as imposições do calendário escolar, alguns feriados e a intensificação inerente à indústria do turismo.

Torna-se cada vez mais urgente, por parte dos pastores e responsáveis das comunidades cristãs, um trabalho sério na busca de meios eficazes a uma evangelização da liturgia, da qual não se fala, apesar de, sem ela, as celebrações litúrgicas programadas no respectivo Directório, tomarem a aparência – peço perdão do meu exagero – de um judaísmo com outro nome.

Apetece-me recomendar a leitura, com esta perspectiva, de parte de um texto bíblico que nos foi proclamado há três dias, na última sexta-feira (Mt 9, 14-17; com os paralelos, Mc 2, 18-22; Lc 5, 33-35). Texto e contexto – vocação de Levi, o seu banquete e o jejum dos discípulos -, que nos dizem fundamentalmente que, apesar de haver quem pareça afirmar o contrário – como, por exemplo, Lustiger e Stein, que o diziam de si próprios, mas com outro sentido – não se pode ser judeu cristão, como não se pode ser cristão judeu. Ver o que escreve São Paulo sobre a Lei e as sua práticas, no confronto com a aceitação de Jesus como Salvador, fonte da Graça e do perdão dos pecados; ele, que se dizia fariseu, filho de fariseus, formado numa das escolas mais prestigiadas em Jerusalém.

Dir-se-ia, partindo do discurso paulino sobre este tema, que mesmo um baptizado, para ser verdadeiramente cristão, não pode limitar-se a esta ou aquela prática, por muito santa que seja: tem de viver permanentemente aprofundando a sua união com a pessoa de Jesus Cristo; caso contrário, o seu Baptismo, mesmo válido, não passará de uma classificação exterior para efeitos comunitários.

O povo hebreu levou muito tempo a libertar-se do significado puramente onomástico com que Deus se definira a Moisés Yhwh (“Eu sou”, ou, nos textos, “Aquele que é”). Em muitas edições actuais grafa-se “Javé”:

Nome que hoje os exegetas se recusam a traduzir e que os textos latinos, dependentes da tradução dos Setenta, exprimem por “Senhor Deus”. Disso nasce por vezes alguma confusão, já que o Novo Testamento trata geralmente Jesus por “Senhor” (prova de que os autores acreditavam na Sua divindade), quando o “Senhor” da maioria dos textos usados na liturgia se refere a Yhwh.

Deus, de facto, não se define com nenhum dos nossos conceitos abstractos: não tem nome e a Moisés diz apenas “que é”. Donde concluem correctamente os teólogos: Deus é o mistério dos mistérios, como fonte, origem e fim de todo o ser, ou seja, de tudo quanto pode chamar-se vida, em sentido próprio: penso que será este o sentido do texto de Génesis 2, 7: “Então o SENHOR Deus formou o homem do pó da terra e insuflou-lhe pelas narinas o sopro da vida, e o homem transformou-se num ser vivo”.

“Um ser vivo”; alguns autores, para evitar uma certa confusão dos termos, preferem traduzir o “animam viventem” da Vulgata por um termo, em meu entender, mais abrangente: o homem tornou-se um vivente.

Deus, diz São João, nunca ninguém O viu: mistério que nos leva a outros, como o mistério da Encarnação e tudo o que com ele se relaciona.

Mas do que importaria falar hoje, seria da Quaresma.

Não nos sobra, porém, o espaço nem o tempo.

Direi apenas que a grande tentação de Jesus, que se repete várias vezes ao longo da Sua vida terrena e atinge o grau supremo no Calvário, é a falsa alternativa de salvar o mundo prescindindo da vontade do Pai.

Sem Deus, contra Ele ou à margem d’Ele, não há alternativa de salvação.

(Escrito no primeiro domingo da Quaresma: 26.02.22).

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