Conto de Natal I

Assim, passada a meia-noite do dia 25 de dezembro, sai à rua onde vagueia o dia inteiro, farejando gente assolada pela pobreza, pela solidão, pela amargura, pela tristeza e pela perda de sentido para a vida.

Um homem reformado passa o ano inteiro a preparar o dia de Natal.

Assim, passada a meia-noite do dia 25 de dezembro, sai à rua onde vagueia o dia inteiro, farejando gente assolada pela pobreza, pela solidão, pela amargura, pela tristeza e pela perda de sentido para a vida. Encontra-se com olhares vazios e distantes que nada lhe dizem, porque nada têm para dizer. Olha-os, fala-lhes ao espírito, em silêncio brutal e assolador, interroga o seu passado, descobre-lhes a esperança e a vontade de amar.

Depois destas descobertas de existências nulas aos olhos de quem passa, transeuntes atarefados, pega no seu bloco de notas e escreve a morada quase incógnita dos “novos conhecidos”.

O homem volta para casa, pega em papel de carta e escreve o que tem a escrever para um destinatário igualmente incógnito, mas cujo coração é rico, transbordante, alegre e altruísta. O homem fá-lo 364 vezes. À 365.ª vez, sabe que, por cada dia do ano, houve alguém que foi correspondido por outro que soube ser humano.

No dia 365, o homem sai de casa. Percorre a rua. Abre a porta da capela do fundo, quase a cair de podre, e deixa uma carta junto de um corpo menino, meio quebrado, deitado numa manjedoura, tão solitário como os solitários da rua do dia seguinte.

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