Com a Igreja do cenáculo

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Bem sei que, segundo a sã teologia e as solenes afirmações do último concílio ecuménico, a Igreja, mistério de Cristo na história dos homens, e Igreja, instituição eclesiástica visível, são de tal modo coincidentes, que não podem nunca estar em contradição, nem uma ser invocada contra a outra.

Penso até que uma das maiores carências dos fiéis dos nossos dias, padres e leigos, dada a imprecisão reinante em toda a comunicação social, será, mais ainda do que saber identificar os dois conceitos da mesma Igreja, perceber que muito do que se diz da Igreja Católica, a reduz a uma simples ONG. Ou, o que é muito mais grave, a um grupo de pressão, com caricaturas mais ou menos ridículas, segundo as ideologias que tentam servir-se dela.

Agradeço a Deus os formadores que, pela sua infinita bondade, pôs no meu caminho e o tempo que me concede para reler com fé e serenidade os acontecimentos, os livros e os textos, sagrados ou não, sempre como quem reza.

Faço questão de escrever estas palavras, para que não haja equívocos: quando digo que quero estar com a Igreja do Cenáculo, não estou a falar de duas instituições, mas do único mistério de Cristo, presente na história dos homens e todos os domingos proclamamos como elemento inalienável da nossa fé: “Creio na Igreja una, santa, católica e apostólica”.

Também sei que qualquer destes termos, porque em si profundamente polissémicos, precisa de ser muito bem explicado; o que exigiria grandes cortes noutras atividades, que, infelizmente continuam a consumir energias de muita gente boa e responsável.

O que a Igreja do Cenáculo pede ao mundo

Esta é a Igreja que celebra o mistério do cumprimento integral das promessas de Jesus, no momento da despedida, e que reza assim: “Deus do universo, que no mistério do Pentecostes santificais a Igreja dispersa entre todos os povos e nações, derramai sobre a terra os dons do Espírito Santo, de modo que também hoje se renovem nos corações dos fiéis os prodígios realizados nos primórdios da pregação do Evangelho”.

A Igreja do Cenáculo é a Igreja que reza assim.

Uma fé profunda na unicidade de Deus. O sem nome, porque é aquele que é, origem e fim de todo o ser. Tudo quanto existe, existe na medida em que participa da sua existência. Assim também tudo é, pelo menos potencialmente santo; e o homem justo, santo, temente a Deus, de que falam os textos sagrados, não será o que realiza grandes coisas, mas o que respeita a verdade divina de tudo quanto existe.

Também dizemos, num dos hinos da celebração da Eucaristia: “Só Vós sois santo”: Jesus proclamou bem-aventurados os que têm fome e sede de santidade (“justiça”) e por ela sofrem perseguições; que serão saciados e que deles é o Reino dos Céus.

Na oração deste domingo, a Igreja, depois de afirmar a sua fé na santidade que brota de Deus e atinge a mesma Igreja, “dispersa entre todos os povos e nações”, não pede nenhuma espécie de triunfo ou domínio, nada do que poderia alguma vez passar-nos pela mente, se nos não guiasse esse Deus universal, que, em Jesus Cristo nos restitui o “caminho, a verdade e a vida” que nos conduzem ao Pai.

“Derramai sobre a terra os dons do Espírito Santo, de modo que também hoje se renovem nos corações dos fiéis os prodígios realizados nos primórdios da pregação do Evangelho”.

O que a Igreja pede, para si e para o mundo, são os dons do Espírito Santo, que não se alcançam por nenhum sistema humano de resistência ou resiliência, mas pela disponibilidade dos corações que, como o de Jesus e na sua pegada o de Maria, se fecham cada vez mais às trevas do pecado, procurando intensificar o seguimento da luz divina, o mesmo Espírito Santo, que é Deus feito dom.

Esta é a Igreja com que quero estar, porque é mergulhado na sua fé que descubro sentido e conforto para as dores e alegrias do meu viver pessoal e das notícias que dos outros me chegam.

Derramai sobre a terra os dons do Espírito Santo, de modo que também hoje se renovem nos corações dos fiéis os prodígios realizados nos primórdios da pregação do Evangelho.

Nos corações dos fiéis:

É do coração que se trata: o coração de cada um, como indivíduo, pessoa irrepetível, amada por Deus como se só ela existisse.

Quantas coisas não mudariam, neste mundo atormentado com tantas carências, se eu visse melhor o que depende de mim, da minha entrega e fidelidade; se fossem mais os que, iluminados pelas luzes do Espírito Santo, recusam corajosamente as mentiras de tantos negociadores de uma paz que não podem dar!

E se deixam guiar, avançando pelo caminho que apontam essas luzes.

(Fátima, 25.06.08)

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