CHEGAR À TERRA ONDE NOS DIRIGIMOS

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“Quiseram então recebê-l’O no barco e o barco chegou imediatamente à terra para onde se dirigiam” (Jo 6, 21).

Entre o grande sinal da multiplicação dos pães, com tudo o que o integra, principalmente as referências, ainda que veladas, à Igreja como depositária, guarda e distribuidora do mistério eucarístico, Jesus manda aos discípulos que passem ao outro lado, enquanto, diz o texto, Ele despede a multidão.

E os discípulos obedecem, talvez um pouco contrariados, já que a multidão se preparava para algo que eles teriam visto com largo prazer: a glorificação do Mestre.

“Aquela gente, ao ver o sinal que Jesus tinha feito, dizia: «Este é realmente o Profeta que devia vir ao mundo!» Por isso, Jesus, sabendo que viriam arrebatá-lo para o fazerem rei, retirou-se de novo, sozinho, para o monte” (Jo 6, 14-15).

Os discípulos receberam, pois, ordem de partir, enquanto Jesus se retirava para o seu diálogo íntimo com o Pai; e não será ilegítima especulação, supor que esse diálogo tem como tema precisamente a tentação que vinha do entusiasmo daqueles que Ele saciara de modo tão extraordinário: sabia que “viriam arrebatá-lo para o fazerem rei”, destruindo assim por completo o significado do sinal.

Bem vistas as coisas, seguindo a estrutura narrativa do quarto evangelho, o significado messiânico do gesto de Jesus precisa de novos dados, antes que seja Ele próprio a dizer abertamente que pão é esse com que o Pai mata a fome às multidões, mas não sem exigir delas um contributo, a partir do que já lhes deu.

A oração solitária de Jesus, no monte, para fugir mais facilmente dos perigos da planície, onde os milagres podem transformar-se em tentações diabólicas; a barca, que atravessa o mar por obediência, sem qualquer salvo-conduto contra as tempestades; o fantasma que só a escuta tranquilizadora da voz do Mestre desfaz; o querer acolhê-lo e a chegada imediata ao lugar para onde se vai.

Não se diz que a tempestade amainou; mas apenas que o barco chegou imediatamente.

“Ao cair da tarde, os seus discípulos desceram até ao lago e, subindo para um barco, foram atravessando o lago em direcção a Cafarnaúm. Já tinha escurecido e Jesus ainda não fora ter com eles. Soprando uma forte ventania, o lago começou a agitar-se.

Depois de terem remado mais ou menos uma légua, avistaram Jesus que se aproximava do barco, caminhando sobre o lago, e tiveram medo. Mas Ele disse-lhes: «Sou Eu, não tenhais medo!» Quiseram recebê-lo logo no barco, e o barco chegou imediatamente à terra para onde iam” (Jo 6, 16-21).

Mais uma vez me permito substituir a tradução litúrgica oficial do versículo vinte um, por outra que me parece mais conforma com o texto e o contexto de João, como traduzem outros autores também aprovados, a partir quer do texto grego, quer do texto latino da Neo-Vulgata.

“Imediatamente”, advérbio, em si mesmo considerado, talvez pouco importante, não podemos, no entanto, desvalorizar a sua função no conjunto do sinal que engloba a narração joanina da multiplicação dos pães, que abrange todo o capítulo sexto e termina com um desafio aos discípulos, ao qual responde Simão, como sempre adiantando-se aos outros:

“A partir daí, muitos dos seus discípulos voltaram para trás e já não andavam com Ele. Então, Jesus disse aos Doze: «Também vós quereis ir embora?» Respondeu-lhe Simão Pedro: «A quem iremos nós, Senhor? Tu tens palavras de vida eterna! Por isso nós cremos e sabemos que Tu é que és o Santo de Deus.»

Disse-lhes Jesus: «Não vos escolhi Eu a vós, os Doze? Contudo, um de vós é um diabo.» Referia-se a Judas, filho de Simão Iscariotes, pois esse é que viria a entregá-lo, sendo embora um dos Doze” (Jo 6, 66-71).

Não vamos agora ocupar-nos do mistério da falta de perseverança precisamente dos que, mesmo quando chamados na primeira hora, chegam ao fim pervertendo os sinais que lhes proporcionou a misericórdia; direi apenas que, precisamente porque se trata de um mistério, não podemos traçar para ninguém as fronteiras da sua infidelidade: o discípulo verdadeiramente fiel tem apenas o critério de Simão Pedro, que não indica quem foge, mas quem não quer “ir embora”: “A quem iremos nós, Senhor? Tu tens palavras de vida eterna! Por isso nós cremos e sabemos que Tu é que és o Santo de Deus”.

Assim se completa o sinal, que tem no centro o mistério eucarístico, como ponto de partida e termo de chegada: a barca, que, levando Cristo se aproxima imediatamente da terra para onde vai, experimenta que essa, não é, de modo nenhum, um porto de abrigo; por isso também não se diz, ao contrário da informação dos sinópticos, que a tempestade termina quando Jesus entra.

Cafarnaum, entre muitos outros sinais do Evangelho, ficará para sempre como a pátria onde o grande mistério do Pão da Vida, tão solenemente proclamado pelo Filho de Deus, ficará para sempre como o símbolo da fronteira entre o discípulo que acredita em Jesus pela força da Sua palavra, o que se enreda em discussões sobre ela.

E precisamos de estar muito atentos, porque este cafarnaum pode meter-se no interior das nossas celebrações, onde não devemos procurar senão o apaziguamento da experiência de que Cristo está vivo.

(Fátima, 26.04.19)

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