[Nota do editor: Em memória do padre Augusto Ascenso Pascoal e como homenagem ao seu legado espiritual e pastoral, continuaremos a publicar os textos que foi partilhando na sua página pessoal, permitindo que a riqueza da sua reflexão permaneça acessível aos leitores.]
A pequena aldeia em que nasci – hoje ainda mais pequena (se não me engano nas contas, as cerca de doze famílias de então, não passam hoje da meia dúzia)-, esta pequena aldeia estava situada na vertente esquerda do vale onde corria um ribeiro, com pressa e caudais variáveis, à mercê das estações do ano: fazia uma longa caminhada – tão longa, que tomava muitos nomes, segundo as terras por onde passava -, até chegar, pelo rio Lis, ao mar, que o recebia numa foz traiçoeira, pelas areias que nela se acumulavam.
Por ser o primeiro grande curso de água que conheci e pelo que nas suas margens me foi dado viver na infância e adolescência, juntamente com as marcas que me deixou o contacto com as suas gentes, fui algumas vezes tentado a falar dele mais extensamente nos meus escritos; sempre me inibiu o facto de tais escritos não passarem de pobres rascunhos.
Volto às memórias da infância que vivi na minha apequena aldeia, para falar de algo que será estranho, talvez até ridículo, em pleno século vinte um, primeiros dias da Semana Santa, a dez depois do início da Primavera… pormenores do toque do sino, que nos chegava da outra vertente do vale, como, aliás, o estralejar dos foguetes e, se a meteorologia estava de jeito, o toque da filarmónica, que actuava nos arraiais das grandes festas, enquanto outras modas não vieram roubar-lhe a clientela e os executantes.
O sino, na aldeia, tocava muitas vezes e por vários motivos, durante o ano; e, como norma, mesmo os mais novos sabiam distinguir os toques: eu apreciava-os todos, mas o que mais me impressionava era o que, enquanto informava, pedia aos povos vizinhos que rezassem por alguém que falecera; era o que mais me impressionava, talvez por uma certa solenidade que reunia dois sinos, como que em diálogo: dois toques toques espaçados, quase sugerindo que o maior respondia ao mais pequeno, com a sua voz cava, de algum mistério que apenas se assinalava, sem se poder explicar.
Era de tal ordem, que a palavra sinal, aplicada ao toque do sino, se não se lhe juntava qualquer qualifictivo, dizia pura e simplesmente: alguém morreu; rezemos pela sua alma. E sabíamos, pelo número de vezes que o sino grande dobrava, se fora um homem ou uma mulher que falecera.
É claro que a palavra “sinal”, já nesse tempo, na minha aldeia, tinha muitos outros significados: até designava o que, num negócio de compra e venda, a garantia monetária que o comprador dava, para que o negócio não fosse rescindido sem um acordo mútuo.
Polissémica nesse tempo, a palavra “sinal”, é-o ainda mais hoje; o que acontece é que se inventaram outras palavras, ou, algo de mais negativo: fruto, também quanto ao vocabulário, do colonialismo cultural, veiculado pelos meios de comunicação, que contribui não só para mascarar os sinais, mas sobretudo para os pôr ao serviço da publicidade, ou da propaganda ideológica.
Por isso não posso deixar de homenagear aquele professor de Linguística que afirmava com particular ênfase, que o respeito pelo vocabulário próprio de um povo faz parte do respeito verdade da comunicação.
Passando do vocabulário aos sinais, no seu significado mais amplo, toda a gente está de acordo que a mentira se esconde sempre por detrás da manipulação dos sinais, principalmente da linguagem, que, quando resiste a essa manipulação, sofre inevitavelmente a tirania do poder, que, quando não consegue alterá-la, procura fazer com que desapareça.
Releio os parágrafos seguinte do trecho do evangelho de hoje:
“Seis dias antes da Páscoa, Jesus foi a Betânia, onde vivia Lázaro, que Ele tinha ressuscitado dos mortos. Ofereceram-Lhe lá um jantar: Marta andava a servir e Lázaro era um dos que estavam à mesa com Jesus. (…)
Soube então grande número de judeus que Jesus Se encontrava ali e vieram, não só por causa de Jesus, mas também para verem Lázaro, que Ele tinha ressuscitado dos mortos. Entretanto, os príncipes dos sacerdotes resolveram matar também Lázaro, porque muitos judeus, por causa dele, se afastavam e acreditavam em Jesus” (Jo 12, 1-2; 9-11).
Deixemos por momentos, a dificuldade que muita gente experimenta quando ouve falar da ressurreição de Lázaro e outras ressurreições de que lemos nos evangelhos, como milagres de Jesus: se não me engano, é um problema irreal, criado por uma noção errada de ressurreição, no sentido teológico.
O que, por agora, gostaria de frisar é como as autoridades de Jerusalém – as religiosas em primeiro lugar, fingindo respeito pela autoridade civil – decidem eliminar um dos sinais mais espectaculares do poder divino de Jesus.
Depois, sem qualquer atenção à verdade dos factos, querem que o governar veja n’Ele – em Jesus e Lázaro – precisamente o que os Romanos mais temiam: um agitador das massas contra aquilo que essas autoridades odiavam ainda mais o que o próprio povo: a dependência do grande império de Roma.
Foi assim em Jerusalém, há mais de vinte séculos; tem sido assim ao longo de toda a história, é assim hoje, quando se consegue até fingir que não se quer que assassinem aqueles a armamos para matar e destruir.
E há nações inteiras a “chorar lágrimas de crocodilo”, como já hoje ouvi a um comentador da nossa rádio, como o qual estou plenamente de acordo, no que se refere aos factos em questão.
Fornecemos as armas, todos os meios de ataque; depois fingimos dor pelas vítimas dos ataques.
(Fátima, 26.03.31)