[Nota do editor: Em memória do padre Augusto Ascenso Pascoal e como homenagem ao seu legado espiritual e pastoral, continuaremos a publicar os textos que foi partilhando na sua página pessoal, permitindo que a riqueza da sua reflexão permaneça acessível aos leitores.]
Nas vésperas do último domingo da OITAVA DA PÁSCOA, tradicionalmente designado por Domingo de Pascoela e que se designa hoje “Domingo da Misericórdia”, por determinação de São João Paulo II; ele que foi chamado por Deus à glória eterna precisamente no sábado anterior á primeira celebração deste Domingo (2005.04.02), neste dia recordamos a leitura do capítulo vinte um de São João.
Capítulo cuja autoria humana continua a ser discutida pelos exegetas, mas cuja estrutura interna é a mesma do quarto evangelho e foi sempre acolhido pela Igreja, como texto divinamente inspirado.
Não consigo, porém, ir adiante sem recordar que, quanto a mim e autores mais autorizados do que eu, nada no quarto evangelho nos permite dizer que João era “o discípulo predilecto”: de facto, traduzido à letra, o texto grego fala do “discípulo que Jesus amava” e não do Seu predilecto.
Chamar a João o discípulo predilecto talvez facilite a identificação do autor humano do quarto evangelho; mas, além do estranho que seria a existência de uma especial predilecção e Jesus por um dos seus discípulos, reduz quase drasticamente o significado que tem, de facto, neste evangelho, a figura do “discípulo que Jesus amava”.
Pondo de lado outras questões de ordem exegética, algumas relacionadas com a data de composição do quarto evangelho, tenho para mim que qualquer discípulo será aquele que Jesus ama e cresce como discípulo, precisamente na medida em que se deixa colher por esse amor, até tomar a Mãe do Mestre como algo seu, não como se fosse, mas porque é sua Mãe.
“Simão Pedro subiu ao barco e puxou a rede para terra, cheia de cento e cinquenta e três grandes peixes. E, apesar de serem tantos, não se rompeu a rede. Disse-lhes Jesus: «Vinde comer»” (Jo 21, 11).
Tendo em conta que João não escreve nada por acaso, sem querer dizer-nos algo pertinente para o significado global do seu texto, poderíamos talvez pensar que no número 153, somando os algarismos (1+5+3=9) encontramos, um quadrado perfeito, o que poderia ser uma referência ao número incontável de fiéis.
Em meu entender, no entanto, o mais importante deste pormenor será a afirmação de que “apesar de serem tantos os peixes, não se rompeu a rede”: a rede, que só acolhe os que Deus determina que entrem e depois de os pescadores a lançarem como e para onde o Senhor lhes ordena. O Senhor, que não é reconhecido senão após a leitura do sinal por parte do “discípulo que Deus amava”.
Faz parte da globalidade desse sinal tudo quando neste texto fala da pesca, desde a decisão de voltar ao trabalho, por parte dos discípulos, até ao alimentar-se dele, mas com a transfiguração do brasido aceso por Jesus: comida esta que muitos comentadores identificam com a Eucaristia, que é, como afirmou solenemente o último concílio ecuménico (Vaticano II), raiz e centro de toda a vida cristã.
Mas voltemos à rede que não se rompe, apesar da grande quantidade de peixes.
E não se rompe, porque, ainda como insinua o evangelista, se trata de uma pesca impulsionada pela confiança em Jesus, que não Se identifica imediatamente, mas que “o discípulo que Ele ama” (no fundo qualquer discípulo que, independentemente das circunstâncias, se mantém pendente do Mestre), descobre não poder ser senão Ele.
A rede não se rompe, mas temos de estar atentos, porque muitas guerrilhas internas ameaçam-na de rotura, e alguns peixes saltam fora sem possibilidade de sobreviver, se não desistem do orgulho próprio ou alheio, que gera essas guerrilhas.
Talvez partindo daqui percebamos melhor como os versículos 15 a 24 fazem também parte da globalidade do sinal: mais do que levar Pedro a compensar com uma tríplice confissão de entrega a sua tríplice negação anterior, Jesus poderia sobretudo querer mostrar-lhe que o encargo de constituir a base da unidade da Igreja: não seria uma questão de prestígio pessoal, mas de entrega sem reservas ao amor pela mesma Igreja da qual Cristo é a cabeça.
Hoje 11 de Abril de 2026, o Directório Litúrgico propunha a leitura da conclusão do evangelho de São Marcos, talvez o texto mais claro para a definição intra-mundana das “aparições” de Cristo ressuscitado; sobre ele talvez falemos amanhã, último dia da oitava da Páscoa, como se disse acima.
Neste dia 11, para estar o mais possível dentro da rede lançada pela Igreja Apostólica e pensando em tantos irmãos nossos, muitos crentes como nós, esmagados por uma guerra cujo absurdo ultrapassa o absurdo dos maiores conflitos bélicos da história, queria ter um pensamento especial de união com Pedro (Leão XIV), que, também segundo o mandato divino, recebido nas margens do lago, Pedro, nos recomenda uma vigília de oração pela paz, que não será oração senão na medida em que inclui a nossa conversão interior: porque sem a paz do coração, não podemos senão produzir a guerra.
Queremos paz que só Deus nos pode dar e que tem de ultrapassar todos os egoísmos, venham donde vierem; egoísmos que, afinal, até os negociadores de um cessar, fogo palavra que cobre a vontade de continuar a guerra, escondem muito mal.
(Fátima, 26.04.11)