Sou uma mula, querido Menino,
Mas gosto tanto de ti!
Pega-me nas orelhas e beija-me,
Que não quero beijar-te,
Porque terias medo! O boi disse à mula:
Afasta-te, companheira,
Que eu quero ver o Menino,
E tuas orelhas me estorvam.
Dois vilancicos (canções tradicionais espanholas) e as divagações do meu pensamento, um pouco atarantado, procurando as estrelas baças daquela noite de Natal, quado se esgotava o quarto mês da mina prisão no leito de dor.
E eram dores de todas as feridas do meu ser físico e espiritual, num combate em que a resiliência tentava vencer a resistência, com a qual se confundia por vezes, deixando-me isolado, sozinho, combatente derrotado, num campo de batalha transformado em mar de despojos.
A certa altura, vindos de longe – de muito longe mesmo… – soaram-me aos ouvidos, no seu timbre predominantemente feminino, aqueles versos, obrigatórios em todas as “adorações do Menino”, que aconteciam sempre, terminada a celebração da Eucaristia:
“Ó meu Menino Jesus/ ó meu lindo amor perfeito/ se tendes frio, oh vinde / Chorar aqui no meu peito”!
Passou-me velozmente pela memória a imagem dos presépios da minha aldeia: humildes como os templos em que se construíam, frequentemente num canto, ao lado do altar, até que se divulgou, pelo zelo de alguns sacerdotes, o hábito de cada família erguer o seu presépio; presépio para o qual se mobilizavam sobretudo as crianças, que percorriam os pinhais vizinhos, em busca de algum musgo porventura escapado à limpeza com que, nesse tempo, os proprietários preparavam as camas do gado, o adubo dos campos e a prevenção contra os grandes incêndios que, nas últimas décadas, têm vindo a consumir a nossa riqueza florestal.
O musgo, que dava ares de natureza silvestre à Gruta, onde as figuras, além do Menino e seus pais, aumentavam ou diminuíam consoante as posses da família: as ovelhas, os pastores, os magos, ao longe… muito longe, a uma distância que se eliminava na solenidade da Epifania.
Contrariando esta pobreza generalizada, foi hábito, em vários natais seguidos, construir na igreja paroquial um presépio movimentado, que atraía por semanas, crianças e adultos.
Mas, uma vez arrumadas as figuras e desmontada a maquinaria, o que nos ficava no encanto da memória era a manjedoura onde dormia o Menino, adorado por Maria e José e acalentado pelo bafo do boi e do burro.
Não deixa de ter um grande significado na história da cultura popular, o facto de, apesar da sua polissemia tradicional, a mula estar sempre no lugar do burro, muitas vezes tratado por burrinho, ou mesmo “burriquito”.
As duas canções espanholas que cito acima, de que não conheço a cronologia e cuja tradução oficial altero ligeiramente, fazem-me ocupar o pensamento com a ideia de que também a Gruta de Belém, cuja figura central é Deus feito mais pequeno e frágil que qualquer de nós, pode ser uma imagem do mundo e da Igreja, no centro deste mundo.
A Igreja, onde o burrinho – como a mula do primeiro vilancico – pede esse carinho gratuito que vem de Deus, mas se manifesta nos gestos daqueles que, pela Graça, se identificam com o Menino. Ele que, despido de todo o orgulho, repousa obre as palhinhas que sobram do alimento dos animais.
“Pega-me nas orelhas e beija-me,
Que não quero beijar-te,
Porque terias medo!”
Como me encanta esta ternura da “mula”, que não quer que nada do seu ser se transforme em incómodo, ou causa de tormentos para Jesus; por isso não se atreve senão a oferecer-se aos beijos do Menino.
“O boi disse à mula:
Afasta-te, companheira,
Que eu quero ver o Menino,
E tuas orelhas me estorvam”.
Sou tentado a pensar que este poema, sem perder o seu tom nitidamente popular, olha para a Gruta de Belém, analisando-a com ares de uma certa cultura, que acaba, em meu entender, por alterar o significado dos dois animais.
E aqui não se exalta a ternura, mas um certo egoísmo, agravado pela falta de tolerância:
As orelhas da mula, na Gruta interpretada como símbolo da Igreja, podem significar muita coisa: tanta, que me parece escusado tentar enumerá-las.
Neste momento, tomo-as como sinal de tudo quanto na nossa vida, belo ou disforme, nos serve para viver intensamente, abraçando com humildade e carinho, a via directa do coração de Cristo.
“Orelhas grandes, disformes”, que despertam a aversão e as queixas dos que, como a vaquinha, olham demasiado para si, em vez de oferecerem ao Menino a capacidade do seu olhar manso e largo, para ver Jesus no carinho da companheira, se queixam dela.
Assim que, oração humilde e intolerância se me afiguram presentes nos dois animais que a tradição instalou na Gruta de Belém.



