Acreditar e ter fé

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Plagas, sicut Thomas, non intueor
Deum tamen meum te confiteor
Fac me tibi semper magis credere
In te spem habere, te diligere.

Releio a quarta estrofe do conhecidíssimo hino eucarístico atribuído a Tomás de Aquino e, ao reparar que ocupa precisamente o centro de tão devota expressão de fé na presença real de Cristo sob as espécies sagradas, apeteceu-me perguntar ao grande santo e sábio teólogo se se considerava mais feliz do que o seu homónimo, que viu as chagas e ouviu do Senhor umas palavras que, apesar de todas as interpretações que delas tenho ouvido, me soam sempre mais como censura do que como elogio:
«Porque Me viste acreditaste: felizes os que acreditam sem terem visto» (Jo 20, 29).

Peço licença ao respetivo autor para apresentar uma tradução desta estrofe, que, apesar de me parecer ritmicamente perfeita, não só não tem, como é natural, a beleza do latim de Tomás, mas ainda parece diluir aquilo que, em meu entender, torna o santo dominicano mais feliz que o apóstolo homónimo, no cenáculo, donde estivera ausente na primeira aparição do Ressuscitado. Aliás, uma ausência que não estará vazia de significado bíblico.

A este, Jesus censurou por não ter acreditado nos companheiros; e porque não terá ele acreditado? Terá sido por teimosia, ou, antes, porque faltava qualquer coisa na informação? Esse será um dos mistérios encerrados na revelação deste episódio; mas terão os companheiros acreditado verdadeiramente? Terá Tomé visto neles alguma coisa que não pudesse explicar-se sem uma autêntica fé no mistério da vitória de Cristo sobre a morte e tudo o que a anuncia? Então, que estavam eles ali a fazer, de portas fechadas, com medo dos judeus?

Não vejo as chagas, como Tomé,
Mas confesso-te, meu Deus e meu Senhor.
Faz-me ter cada vez mais em ti mais fé,
Uma esperança maior e mais amor.

Boa interpretação do que pede o santo a Jesus Sacramentado; crescer sempre mais na fé, na esperança e na caridade. Os teólogos dizem que as três acabam por ser uma só, porque sem fé teologal, não pode existir nem a esperança, nem a caridade. E cada qual define estas virtudes como sabe e pode, segundo as respetivas estruturas conceptuais, que, consequentemente, nos deixam sempre insatisfeitos.

Na Sagrada Escritura, o hino mais belo que encontro à fé será todo o capítulo onze da epístola aos Hebreus, que, na versão que tenho ao alcance neste momento, começa assim:
“Ora a fé é garantia das coisas que se esperam e certeza daquelas que não se veem. Foi por ela que os antigos foram aprovados” (Hebr 11, 1-2).

A certeza das coisas que se não veem!

Se a fé tem como objeto as coisas que se não veem, como pode ser feliz quem acredita por ter visto? Claro que Tomé ficou muito feliz por ter visto o que queria ver como prova de que os companheiros diziam a verdade, isto é, que tinham visto o Senhor. E até podemos dizer que ficou mais feliz e alegre do que eles, pois fora objeto de uma especialíssima delicadeza do Mestre, pelo qual sempre mantivera a disposição de dar a vida, se fosse necessário.

Mas fé autêntica: esse compromisso íntimo, profundo e vital com o mistério que não se vê com os olhos do corpo, nem se demonstra com ideias abstratas, um compromisso que arromba as portas fechadas pelo medo, faz sair para a rua, empurra pelas praças e lança no mar encapelado, confiando que o sono do timoneiro não o impedirá de fazer o que promete, se fazemos o que nos compete… uma fé assim, só depois do Pentecostes.

É um dom de Deus aos que O acolhem no Seu Espírito. Um dom de Deus, sem o qual, segundo o autor da mesma carta aos Hebreus, será impossível agradar-Lhe.

Para encurtar razões e sem querer armar-me em exegeta – o que seria um altíssimo disparate – confesso que só distinguindo de modo muito claro o que significa “acreditar” do “ter fé”, “fazer um ato de fé”, consigo perceber, como se diz no Evangelho tantas vezes que os discípulos acreditaram – do discípulo amado diz-se mesmo que, quando entrou no sepulcro onde se encontravam as vestes de Jesus, “viu e acreditou” – e só depois do Pentecostes, a sua vida se transforma numa afirmação permanente e permanentemente arriscada do que, como já acontecera com Jesus, nem os milagres convencem os adversários.

Será um tema vasto e complexo, já sei. Mas talvez não fosse de todo inoportuno estudá-lo com maior profundidade do que é habitual.

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