A veste nupcial

Assim, a veste nupcial não pode reduzir-se ao estado de graça necessário para a comunhão sacramental, e torna-se mais compreensível a severidade do senhor do banquete para com o convidado que ousou entrar nele sem essa veste.

Apesar das ameaças da depressão Ellen, é uma manhã outonal, mesmo se o calendário nos diz que ainda estamos no Verão.

Conjugando a piedade com as normas e concessões da autoridade competente, em ordem a uma preparação próxima da Eucaristia, puxo do texto sagrado e leio a parábola do banquete nupcial, ao qual faltaram os primeiros convidados.

Como me considero do número dos outros, dos que foram convidados depois, fixo-me na parte final da parábola:«Então os servos, saindo pelos caminhos, reuniram todos os que encontraram, maus e bons. E a sala do banquete encheu-se de convidados. O rei, quando entrou para ver os convidados, viu um homem que não estava vestido com o traje nupcial e disse-lhe: ‘Amigo, como entraste aqui sem o traje nupcial?’. Mas ele ficou calado. O rei disse então aos servos: ‘Amarrai-lhe os pés e as mãos e lançai-o às trevas exteriores; aí haverá choro e ranger de dentes’. Na verdade, muitos são os chamados, mas poucos os escolhidos» (Mt 22, 10-14).Noutros tempos parecia tudo muito mais simples: o banquete era a Missa, que depois começou a chamar-se Eucaristia, incluindo a Comunhão sacramental; a partir de certa altura, esta passou a ser apontada pelos liturgistas, quase como elemento indispensável para o cumprimento do preceito dominical A veste nupcial seria o estado de graça, que os catequistas, de um modo geral, não sabiam explicar fora da coisificação, tendência tão profunda, no pensamento religioso e místico do Ocidente. Veio depois a reforma conciliar. E quando se esperava que doutrina e princípios tão claros abrissem caminho a um novo aprofundamento vital, já tentado, de forma tão zelosa e expressiva pelos Papas que, no início do século, precederam o Concílio, sobretudo Pio X, Bento XV e Pio XII, o vendaval em que, quase por toda a parte, se transformou a aplicação dessa reforma, sem a catequese adequada e com arbitrariedades rondando por vezes a heresia, deixou tudo, pelo menos aparentemente, mais confuso.

Mas também é verdade que hoje, quando se medita a sério sobre o mistério, se percebe melhor o que é a Eucaristia, na sua globalidade, como celebração e fonte vital de uma existência que só será cristã na medida em que nasce dela e para ela conduz.

Assim, a veste nupcial não pode reduzir-se ao estado de graça necessário para a comunhão sacramental, e torna-se mais compreensível a severidade do senhor do banquete para com o convidado que ousou entrar nele sem essa veste. Afinal, o que faltava àquela pessoa – convidada como as outras, que os servos haviam trazido de todos os recantos, segundo as ordens do senhor, não seleccionando com critérios seus, que certamente não se arrogaram? Que faltaria, de facto, àquele convidado?

Em meu entender, o não ter percebido, ou não ter querido assumir integralmente as características fundamentais daquele banquete, implicadas na natureza do próprio convite: ali não se estava apenas para comer e festejar, de modo puramente externo, para depois sair com a tranquilidade de consciência erroneamente baseada na ideia de ter cumprido, usufruindo de um direito.

Os exegetas e os teólogos têm muitas explicações para o modo um pouco estranho como termina a parábola, com uma frase que, aparentemente desfasada do contexto, parece ser um comentário do próprio Jesus: «Na verdade, muitos são os chamados, mas poucos os escolhidos».Deixo quem queira pensar de outra maneira.

Mas eu acho que os escolhidos são apenas os que envergam a veste nupcial, quando iniciam, realizam, terminam e continuam na vida, o mistério de um banquete absolutamente gratuito: estar nele, despojado ou tentando despojar-se de preconceitos, ideias feitas, estereótipos de toda a espécie: aquilo que nos separa de Cristo e dos irmãos, numa palavra, o que divide e desfaz a unidade do Corpo. Não enverga a veste nupcial, ainda que se sinta em estado de graça, quem não está em comunhão com a Igreja, na sua fé e nos seus sacramentos. Quem não se interessa pela sua vida e a sua doutrina, como presença de Cristo na história dos homens.

E não ter nunca a presunção de que se tem direito a tomar parte no banquete, porque se enverga a veste nupcial; mas antes, desejar ardentemente essa participação, que, por misericórdia divina, nos restitui ou renova essa veste. Pouso os livros e pego nos paramentos, renovando a consciência de que eles não substituem a veste nupcial, mas servem para que perceba quão longe estou ainda da envergar.

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