A ROCHA E A SEDE DO DESERTO

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Se quisesse enumerar as surpresas que, desde o momento em que tomei como norma para a minha piedade diária, a leitura meditada de um trecho da Sagada Escritura, para além dos textos litúrgicos, se quisesse enumerar as surpresas que encontro, não acabaria nunca; nem talvez isso tenha interesse para os meus leitores, já que tais surpresas, não terão interesse comum, embora muitas delas me ajudem a novas avaliações da prática pastoral e da vida cristã de cada um.

Temos hoje para meditar dois episódios que parecem nada ter a ver um com o outro, para além da existência da rocha, uma da que brota a água para matar a sede da travessia do deserto, outra para simbolizar a firmeza do reino consumado em Cristo.

Provavelmente, na mente dos organizadores do nosso leccionário, a ligação entre o trecho do livro dos “Números”, que alguns, não sem largas razões, classificam como o livro das tentações do deserto, com o trecho de Mateus, que há quem designe por “evangelho eclesiástico”, está muito clara e não se pode negar a importância do simbolismo da rocha.

Isso, apesar de haver quem diga que Jesus, tendo em vista as pedras que existiriam em Cesareia de Filipe, não faz mais do que aproveitar a natureza circundante: o que não teria importância se quem assim enfatiza o quadro natural do episódio não tentasse desvalorizar, com isso, a mudança de nome imposta a Simão.

Para a fé dos Apóstolos, logo para a de todos nós, é certo que que Jesus utilizou o simbolismo da rocha para indicar o ministério que ia confiar a Simão, no momento também donatário de uma especial graça de Deus: diríamos em linguagem teológica actual, “graça carismática”.

Ambos os episódios, assim ligados pelo simbolismo da rocha, são narrados com muitos pormenores que de uma ou de outra forma, os ligam mais do que às vezes se pensa. Por isso também raramente se comentam na literatura ascética, tão importante para que a nossa vida se defenda de um certo profissionalismo demasiado oco para poder considerar-se acção fecunda da Igreja.

Pessoalmente, desde muito cedo, relativamente a estes dois episódios, uma coisa me chocava, sempre que os lia em paralelo: por um lado, a severidade do castigo infligido a Moisés pelo modo como bateu na rocha para que dela jorrasse a água prometida por Deus e que havia de matar a sede aos caminhantes do deserto; por outro, a dureza das palavras com que Jesus censura a incompreensão de Simão Pedro, perante a perspectiva da Paixão.

Até que, depois de ir aproximando as duas figuras e o que, para mim, seria o significado teológico dos respectivos modos de actuar, me apercebi de que, tanto Moisés como Simão Pedro estavam a ceder a uma tentação verdadeiramente diabólica, que consistia em agir como se faltasse alguma coisa ao projecto divina, cuja execução lhes era confiada.

Admito que nenhum dos meus leitores aceite as linhas desta reflexão sobre a misteriosa ligação entre estes dois episódios, que, afinal, têm como protagonista principal, além de Deus, as duas figuras que, cada qual à sua maneira e segundo as próprias circunstâncias históricas, havia de dar visibilidade ao condutor divino do povo até à Terra da Promessa, ou seja, a glória eterna.

Tinha por isso guardado o que escrevera, no fundo do baú, como diz um amigo que saúdo hoje de um modo especial; no fundo do baú, à espera de melhor oportunidade.

Pois, meu caro Padre Rui, não espero que me leia, porque o trabalho pastoral que as circunstâncias especiais da Diocese, neste momento, lhe impõem, não lhe permitirá que se debruce sobre uma reflexão tão pouco transcendente para quem sabe muto mais teologia. Não espero que me leia, mas, homenageando-o pelo muito que tenho aprendido de si, nos nossos fugazes encontros, gostaria que soubesse que foi São Domingos que, ao reaparecer, graças à liturgia, diante de mim, logo de madrugada, me fez reabrir o baú e completar esta reflexão.

Não para dizer algo de novo, ou que ignorem os pastores dos nossos dias: não ignoram e certamente nisso pensam muitas vezes, mas falam muito pouco e com frequência dão a impressão de esquecer.

Em pleno século da realização mais espectacular da supremacia papal, quando tanto o poder político como a autoridade religiosa, se acirravam com todos os meios, numa espécie de cruzada, contra a heresia albigense e movimentos extremistas de teologia duvidosa, Domingos, primeiro sozinho, depois com um grupo de companheiros, como ele apaixonados por Cristo e a salvação das almas, lança-se na pregação nas praças e nos caminhos por onde passavam os homens. Descalço, sem outro meio de pressão que não fosse o esplendor da Verdade, tão vivamente refletida no desprendimento, sinceridade e alegria dos que a anunciavam.

Os meios humanos, claro! Desde que não encubram o esplendor da Verdade que os europeus do século XII descobriram na alegria sincera de Domingos e seus companheiros.

(Fátima, 25.08.7/9)

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