A PROPÓSITO DE DOM CAMILO

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A 22 de Julho de 1968, faleceu em Ravena, com sessenta anos e duas décadas, o jornalista e escritor Giovannino Guareschi, do qual hoje quase não se fala, mas que terá tido poucos contemporâneos com uma obra mais traduzida do que ele.

Claro. Isso não se deverá exclusivamente ao valor intrínseco dessa obra, já que, por exemplo, quando se fala de “Dom Camilo e o seu pequeno mundo”, o que, de um modo geral, nos vem à mente são as imortais personagens criadas no Cinema por Fernandel e Gino Cervi; actores que, respectivamente, como Dom Camilo e Peppone, as duas autoridades locais – o pároco e o presidente da Câmara – que, no quadro criado por Guareschi, viviam em permanente emulação, lutando em extremos opostos, numa guerrilha que, apesar de tudo, trazia sempre vantagens para a população.

E devo confessar que os filmes, designados de forma sintética por “filmes de Dom Camilo”, fizeram as delícias da minha juventude, que os procurava ver sempre que podia, nas salas de cinema ou através da televisão.

Como nunca procurei no cinema ou no teatro padrões de comportamento, não pude esconder a minha surpresa quando alguém me disse que, em muitas aldeias italianas, os filmes de Dom Camilo teriam sido um grande veículo de propaganda filo comunista:

– É que, dizia o meu interlocutor, tentando justificar um determinado regime de extrema direita, que proibira a exibição desses filmes – é que as pessoas que se entusiasmam com aquela figura de pároco, lamentam que os padres não sejam todos assim, sem sequer repararem que Dom Camilo não poderia existir sem um Peppone.

Vieram depois os incidentes relacionados com o poema satírico de Salman Rushdie e as chacinas provocadas pela revolta contra as caricaturas de Charlie Hebdo.

E ninguém ignora como grassa pelo mundo o terrorismo de todos os tipos, sempre ou quase sempre criados pela reacção violenta de crenças e etnias, feridas por caricaturas e jogos humorísticos que só o são de modo aparente e hipócrita.

Faz-me pensar nisto, para além da efeméride referida, a polémica dos últimos dias, levantada no parlamento e com ecos na comunicação social, sobre determinadas agressões verbais, polémica que, como sempre acontece nestas ocasiões, acabou por misturar alhos com bugalhos, confundindo a liberdade de criação artística, com a falta de serenidade e elegância no debate de ideias; debate que exige um conhecimento da linguagem que muitas vezes se não tem.

Claro que agressividade verbal e humorismo são coisas muito diferentes.

Quanto a este, a referida conversa sobre Guareschi e o seu Dom Camilo, pensada à luz dos acontecimentos que se lhe seguiram, levou-me a concluir que, por mais que se queira dizer o contrário, não há humorismo inocente.

Não é uma classificação moral: é apenas a constatação de um facto, tanto mais real, quanto mais artístico é esse humorismo.

Aliás, para quem conhece um pouco da história do português literário, cujos cancioneiros medievais apresentam uma larga percentagem de poemas humorísticos, não se pode admirar disso.

Talvez alguém me pergunte, ou tenha o desejo de saber onde quero chegar quando afirmo, tão peremptoriamente que não há humorismo inocente.

É evidente que não defendo a existência de qualquer quadro legal que limite as legítimas criações de artistas com talento, cuja medida não pode ser determinada por nenhum tipo de poder religioso, político, cultural ou económico.

Todos sabemos que as leis dos homens, quando pretendem determinar o que é ou não é humano, acabam sempre por tornar-se profundamente desumanas.

O que eu não poderia deixar de defender seria a criação de um quadro legal que promovesse a criação cultural e artística, sem nenhuma espécie de descriminação, para que Portugal deixasse de ser o que tão doridamente lamentava Camões, já em pleno século XVI: leia-se, por exemplo, a parte final do canto V de “Os Lusíadas”, sobretudo a estrofe 97… “quem não sabe arte não na estima”.

Confesso que há décadas tenho tido muita dificuldade em descortinar, tanto nas discussões parlamentares como nas polémicas que as acompanham, verdadeiro sentido do que é a função do Estado no campo da educação e do desporto.

Bem sei que estou a abordar um problema demasiado complexo para ser discutido com leviandade: é por isso que as instâncias do poder, sejam elas quais forem, deviam cultivar mais a humildade e não terem tanta pressa, como quem possui o monopólio da verdade, em atribuir aos opositores todos os defeitos e as piores intenções.

Não se ensina a democracia se não se procura ensinar as pessoas a pensar, cultivando ao mesmo tempo o respeito pelos que pensam de outra maneira.

Nenhuma liberdade pode existir onde em vez das ideias se discutem as pessoas, com todo o tipo de agressões que, ou são verdadeiramente artísticas e como tais, devem ser apreciadas, ou apenas agridem e como tais devem ser julgadas por quem assume o serviço de defesa da dignidade dos cidadãos.

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