Não sou especialista em História, e menos ainda versado em qualquer dos ramos em que se divide atualmente essa ciência. Ciência que, como ciência, não carece de grande nobreza e que, de facto, sempre me fascinou: pelo que dela tenho aprendido no conhecimento dos povos e a crescer num misto de sentimentos que vão do carinho ao temor, passando pelo desejo de compreender e perdoar, solidarizando-me, na medida do possível, com Jesus, que, segundo São Lucas, quando agonizava na Cruz, disse:
«Pai, perdoa-lhes, porque eles não sabem o que fazem» (Lc 23, 34).
Palavras ditadas pelo Espírito Santo, para qualquer crente, divinas num duplo sentido: porque são de Deus e proferidas por um homem que é Deus.
Mistério insondável! Tanto, que, desde a mais remota antiguidade cristã, se multiplicaram os comentários, em grande maioria tendentes a reduzir o número daqueles para os quais o Senhor pede perdão.
É sempre a mesma coisa: quando na escuta da palavra de Deus, entra mais a cabeça que o coração, ou então a cabeça, sem o coração, corre-se o risco de não ficar senão à beira do Reino.
Se não se erguem até armar contra ele.
Foi a lembrança de que passam hoje 1700 anos sobre o primeiro Concílio Ecuménico – concílio, isto é, reunião das comunidades cristãs convocadas de toda a terra – considerado pela maioria dos especialistas um dos quatro ou cinco mais importantes concílios ecuménicos.
Concílio que teve como legado do Papa, um bispo natural da Península Ibérica, que merecia um pouco mais de atenção por parte do país que foi durante anos dominado por herdeiros de uma das heresias aí condenadas.
Concílio ordenado por um imperador que nem sequer cristão era, mas que intuía que as divisões doutrinais entre os cristãos punham em risco a unidade do Império, que ele alcançara pelas armas.
É claro, o essencial, a unidade da Fé, porque dependia da assistência do Espírito Santo, conseguiu-se, como sempre, com a aprovação das suas definições pela cabeça do Colégio Apostólico, que era o bispo de Roma.
O drama dos três concílios
Mas, vistas as coisas a olho nu, nem na Igreja, nem na sociedade civil, se conseguiu a tal almejada paz: porque um Concílio, em si mesmo considerado, não se reúne senão para que o Colégio Apostólico, com Pedro como cabeça, realize a sua missão de confirmar os irmãos na Fé.
O drama é que nem sempre, apesar de todas as proclamações dos textos convocatórios, como ouvi um dia a um professor de História Eclesiástica, ainda antes do Vaticano II, há sempre três concílios: o dos Padres, o do Espírito Santo e o do diabo; que é também o que faz mais barulho, antes, durante e depois.
Foi por isso que, ao refletir sobre a paz, a paz, que é um dom de Deus e não existe sem o perdão da Cruz, foi por isso que me apeteceu, e sinto que não estava errado, unir este grito de Deus feito homem, quando Lhe cortavam a existência histórica: «Pai, perdoa-lhes, porque eles não sabem o que fazem», unir este grito à afirmação do mesmo Jesus, no banquete de despedida:
«Deixo-vos a paz; dou-vos a minha paz. Não é como a dá o mundo, que Eu vo-la dou. Não se perturbe o vosso coração nem se acobarde» (João 14, 27).
Senhor, eu bem queria não me perturbar; mas o futuro que os responsáveis das nações nos prometem trazem nuvens cada vez mais sombrias, tragédias abaixo das quais ficam as mais tremendas imagens do Apocalipse… como poderei não me perturbar?
Faz ao menos que nunca, por nada me acobarde!
Tantos milhões de mártires de todos os povos e nações, antes e depois da Vossa exortação, souberam e sabem arriscar tudo pela Verdade que Vos levou à Cruz.
A Cruz da Paz que é Vosso dom, não existe sem o perdão.
A espada do soldado que fez jorrar do Vosso lado aberto sangue e água, abriu-nos o acesso ao único armamento com o poder de produzir a paz: O AMOR, que nem a vida nem a morte podem destruir, e levou São Paulo a exclamar:
“Quando eu era criança, falava como criança, pensava como criança, raciocinava como criança. Mas, quando me tornei homem, deixei o que era próprio de criança.
Agora, vemos como num espelho, de maneira confusa; depois, veremos face a face.
Agora, conheço de modo imperfeito; depois, conhecerei como sou conhecido.
Agora permanecem estas três coisas: a fé, a esperança e a CARIDADE; mas a maior de todas é a CARIDADE” (I Coríntios 13, 11-13).
As pessoas que não gostam desta palavra, são capazes de ter razão, dados os elementos negativos de certas práticas puramente laicas a ela ligadas; mas seria bom que reparassem que a palavra “amor”, na nossa cultura atual, não está menos abandalhada.
Aqui fala-se da Caridade que nasce do amor de Deus em nós e acolhido por nós: amor que, como acabamos de ver, não é possível sem dor, arrependimento e perdão.
(Fátima, 25.05.20)



