Modifiquei o título, que era simplesmente “guerra e paz”, para que se não pensasse que iria falar da célebre obra do não menos célebre escritor russo.
Não é que seja de todo inoportuno fazer algumas considerações sobre essa e outras obras de Tolstoi, que, justamente com Dostoievski, são os granes responsáveis pela imagem que daquele povo me formei na juventude; uma imagem que resistiu até hoje, aos fantasmas que algumas gerações de jornalismo ideológico, iam criando, no seu afã de, envergando a máscara da informação, tentarem condicionar a mentalidade dos povos.
Talvez uma releitura autónoma de Tolstoi, ajudasse alguns políticos, de cá e de lá, a entender como estão longe das ânsias da humanidade as iniciativas e se acirram em levar por diante.
Mas eu não quero falar disso: o que me empurra mais uma vez para a escrita nesta página, é apenas o desejo de comunicar alguns pensamentos, certamente pouco ou nada originais, inspirados na primeira frase do evangelho que a liturgia eucarística nos propõe para leitura e meditação, nesta segunda-feira, da décima quinta semana do chamado Tempo Comum:
«Não penseis que Eu vim trazer a paz à terra. Não vim trazer a paz, mas a espada».
E o primeiro pensamento que me vem à mente é que também esta frase, assim, tirada do seu contexto e repetida milhares, se não milhões de vezes, deturpa a mensagem do Mestre, com grade prejuízo para quem se contenta com a superficialidade das analises: neste caso, com a agravante de não se reparar que ela introduz um dos avisos mais solenes de Jesus aos que desejam ser seus discípulos; aviso válido para todos aqueles que pretendiam e pretendem ainda hoje, valer-se dessa condição para reivindicar outra coisa que não seja a liberdade interior de viver, como Ele, segundo a vontade do Pai.
Aviso que Santo Agostinho repetia aos seus ouvintes, prevenindo-os, na linguagem que lhe era própria, de que no momento em que decidissem assumir plenamente as exigências da sua fé, encontrariam todo o tipo de oposições e inimizades.
De facto, Jesus não diz que veio trazer a guerra, ainda que o termo grego recolhido pelo evangelista se refira a um instrumento cortante, que pode ser usado para todo o tipo de coisas, incluindo, naturalmente as agressões entre inimigos; e, se não me engano, passa-se sensivelmente o mesmo com o termo latino Vulgata, “glaive”, de um modo geral, traduzido por “espada”.
Ora, é precisamente este vocábulo que me diz que a melhor interpretação das palavras de Jesus será a que sempre fizeram os teólogos, os santos e os místicos; até porque Ele próprio disse que a paz que deixava aos discípulos, não era algo que se pudesse confundir com a paz consensual dos tratados que, em vez de eliminarem, apenas suspendem a guerra (Cfr Jo 16, 27).
Deixo de lado o enorme leque de significados que a espada, como palavra e como símbolo assumiu na arte, ao longo dos séculos e é ainda hoje usada.
Claro. A ideia de corte pode verificar-se na raiz e centro de todos esses significados; mas nem sempre de agressões físicas ou sangrentas.
Que a fala de Jesus se não exclui esse significado, está implícito em tudo quanto diz sobre as futuras perseguições que irão sofrer os que quiserem segui-lo até ao fim; mas se nos fixamos nisso, acabamos por negar o essencial da mensagem, não direi do Evangelho, mas de toda a Sagrada Escritura.
São Paulo tem certamente presente a definição que da vida dá Job (por exemplo em 7, 1); Job, uma das figuras do Antigo Testamento cujo significado, de modo especial para uma época como a nossa, tão marcada por sofrimentos indizíveis, é podemos dizer, inversamente proporcional ao conhecimento que dela se tem e às deturpações a que tem sido sujeita.
O Apóstolo, escreve, na sua primeira carta a Timóteo:
“Esta é a recomendação que te confio, meu filho Timóteo, de acordo com o que predisseram algumas profecias a teu respeito: apoiado nelas, combate o bom combate, conservando a fé e a boa consciência.
Alguns, que as rejeitaram, naufragaram na sua fé, como aconteceu com Himeneu e Alexandre, que entreguei a Satanás, para que aprendam a não blasfemar” (1Tim 1, 18-20).
E na carta seguinte, falando de si próprio: “Combati o bom combate, terminei a corrida, permaneci fiel.
A partir de agora, já me aguarda a merecida coroa, que me entregará, naquele dia, o Senhor, justo juiz, e não somente a mim, mas a todos os que anseiam pela sua vinda. (2 Tim 4, 7-8).
Combater o bom combate foi o que não fizeram outros, como Himeneu e Alexandre, apesar terem recebido os mesmos dons que Timóteo, afastados por isso da comunidade, por ordem de Paulo.
– Não vim trazer a paz, mas a espada!
A espada que não pode virar-se contra ninguém, porque o combate que simboliza tarava-o Ele comigo contra o que possa deter ou cortar a corrida, impedindo-me de pôr Deus como a única meta que diviniza os meus passos; a espada que, no convívio entre as nações, torna possível a paz autêntica: essa paz sem armas referida e pedida pelo Papa Leão XIV, logo no início do seu pontificado.
(Fátima, 25.07.14/16)