A graça da alegria e da fraternidade na vida e na missão do padre

Homilia da Missa Crismal 2015

 

A graça da alegria e da fraternidade

na vida e na missão do padre

† António Marto

Catedral de Leiria

Missa Crismal, 02 de abril de 2015

Refª: CE2015B-005

É bom e belo reencontrarmo-nos aqui como irmãos, nesta Quinta Feira Santa, em clima de cenáculo, para voltar sempre de novo às origens do nosso sacerdócio. Com fraterna alegria saúdo-vos a todos e cada um dos sacerdotes, dos consagrados/as e de todos os fiéis aqui presentes. Em nome pessoal, do presbitério e de toda a Diocese dirijo uma saudação de particular congratulação aos presbíteros que celebram o 25º e o 50º aniversários da sua ordenação sacerdotal. E na comunhão dos santos queremos também fazer memória viva e grata, nesta eucaristia, dos irmãos do nosso presbitério que, ao longo do ano, partiram para a casa do Pai.

Hoje é o dia, por excelência, da festa sacerdotal, da festa do presbitério e de cada sacerdote. A memória da unção da nossa consagração evocada pelas leituras (Is e Lc) ajuda-nos a sentir vibrar dentro de nós a alegria do dom e da missão: “O Espírito do Senhor está sobre mim e o Senhor ungiu-me… e enviou-me a levar o óleo da alegria em vez dum traje de luto” (Is). Celebramos este dia num clima de fraternidade e no contexto do ano pastoral sobre “alegria e a beleza de viver em família” e também do ano da Vida Consagrada em que o Santo Padre chama os consagrados/as a serem “Testemunhas da Alegria”. Serão estas, pois, as tónicas da nossa meditação: “A graça da alegria e da fraternidade na vida e na missão do padre”. Isto vale também para os consagrados e consagradas.

1. A alegria de ser padre

Antes de mais gostaria de partilhar convosco a alegria de ser padres. É deveras significativo e interessante notar que o Papa Francisco convida todos as fiéis a uma nova etapa de evangelização marcada pela alegria do Evangelho, que é antes de mais a alegria de Deus connosco e do seu amor que salva. Esta é o critério de aferimento da vitalidade da fé dum cristão e mais ainda de um padre.

Duma maneira simples e tocante, o Papa indica-nos a fonte e o segredo da alegria sacerdotal e de toda a vida consagrada: “Ao chamar-vos, Deus diz-vos: ‘És importante para mim. Eu amo-te; conto contigo’ – Jesus diz isto a cada um de nós. Daqui nasce a alegria! A alegria do momento no qual Jesus olhou com bondade para mim, para a minha pequenez. Compreender e sentir isto é o segredo da nossa alegria: sentir-se amado por Deus, sentir que para Ele não somos números, mas pessoas; sentir que Ele nos chama e conta connosco”.

Chamados a segui-lo, a estar com Ele, para ir aos outros levar a luz e o calor do seu Evangelho, a sua ternura, a sua misericórdia, o seu perdão, o dom da vida nova… a mensagem mais bela que há neste mundo: eis a alegria da vocação e missão. Não há nada mais belo. É uma alegria que se revela quando o pastor está no meio do seu rebanho e dá a vida por Cristo e pelo seu povo; é sinal da presença de Cristo Bom Pastor e, por isso, deve configurar o estado habitual de um padre.

Neste sentido, é pertinente a advertência do Papa Francisco sobre “a doença da cara de funeral, própria das pessoas ácidas e amargas que consideram que, para se ser sério, é preciso pintar o rosto de melancolia, de severidade e tratar os outros com rigidez, dureza e arrogância. Na realidade, muitas vezes, a severidade teatral e o pessimismo estéril são sintomas de medo e de insegurança de si mesmo. O apóstolo deve esforçar-se por ser uma pessoa gentil, serena, entusiasta e alegre, que transmite alegria onde quer que esteja. Um coração cheio de Deus é um coração feliz que irradia e contagia com a alegria todos aqueles que estão ao seu redor: disso nos damos conta imediatamente”.

A alegria do sacerdote é um bem precioso não só para ele, mas também para todo o povo fiel de Deus. É bom e necessário que, no silêncio da oração, diante do tabernáculo, verifiquemos com Jesus se somos “canais abertos” por onde corre abundante a alegria do evangelho, o seu amor ou se nos tornamos meros funcionários de Deus, burocratas frios, prestadores de serviços religiosos.

Hoje ocorre o 10º aniversário da morte de S. João Paulo II. Aprendamos dele a viver o nosso ministério com o seu ardor e seu entusiasmo.

2. A beleza da fraternidade

Em segundo lugar, desejaria partilhar convosco a beleza da fraternidade que é uma graça do sacramento da Ordem: o ser padres conjuntamente em presbitério, o seguir o Senhor não isoladamente, um a um , mas juntos na grande  variedade de personalidades e de dons, de proveniências, de idades, de talentos. Esta diversidade enriquece o presbitério se tudo for vivido na comunhão, na fraternidade. De contrário caímos facilmente no isolamento, na autossuficiência, na soberba, na inveja, na crítica, na murmuração…

Há duas tentações fortes a que devemos estar atentos: a cultura do subjetivismo que exalta o “eu” até idolatrá-lo, tornando-o centro de atenção de tudo e de todos; e a tentação de um certo individualismo pastoral que cria separação.

Por isso não podemos dar a fraternidade como algo pressuposto e descontado à partida. Não pode ser confiada ao acaso ou à espera das circunstâncias favoráveis. A fraternidade é uma opção de fé a realizar; é resposta ao dom que recebemos mas que deve ser acolhido e cultivado sempre de novo: a comunhão com Cristo no presbitério à volta do bispo. Não resulta de uma mera relação de  simpatia ou de interesses de clube. Resulta da graça sacramental que requer a “mística de viver unidos” no Corpo místico de Cristo precisamente como presbíteros: vivendo antes de mais a lei do amor fraterno na atenção, na ajuda e partilha recíprocas, mas sempre em perspetiva apostólica, com estilo missionário, com fraternidade e simplicidade de vida. A participação na formação permanente, partilhando juntos durante uma semana momentos de oração, estudo, refeições, passeio, recreação e comunicação de ideias e experiências constitui uma experiência significativa de fraternidade. E como esta poderíamos mencionar outras. Não as desperdicemos, mas participemos e dêmos o nosso melhor para vivermos verdadeiramente como irmãos em Cristo!

“Oh como é bom e belo os irmãos (sacerdotes) viveram unidos. É bênção de Deus e vida para sempre”! Testemunhar que a fraternidade evangélica não é uma utopia mas é possível e bela, faz parte do anúncio da alegria do evangelho! Interroguemo-nos diante de Jesus: o que me impede de crescer no caminho da fraternidade sacerdotal? Que me pedes Senhor para tal fim, neste momento?

3. Trabalhar com as famílias e pela família

Por fim, desejaria encorajar-vos no vosso trabalho pastoral com as famílias e pela família. É um trabalho que o Senhor nos pede de modo particular neste tempo difícil para as famílias por causa da crise cultural, económica e social e das suas consequências.

Os encontros vicariais deste biénio manifestaram a pertinência do tema que atraiu e  tocou o coração de muitas famílias sedentas da luz, do calor e do conforto da fé neste tempo confuso e conturbado. Também evidenciaram que, quando confiamos às famílias responsabilidades da pastoral familiar, elas são capazes de nos surpreender com iniciativas boas e belas e de realizá-las bem e com entusiasmo. Ficou provado que as famílias cristãs são os primeiros e melhores mensageiros do evangelho (boa nova) da família. São o caminho da Igreja e há que envolvê-las mais como sujeitos ativos na vida da comunidade.

Uma outra conclusão é que, por parte dos sacerdotes, é necessário potenciar a pastoral do acompanhamento de proximidade das famílias, com um olhar acolhedor, respeitoso e cheio de compaixão que encoraje e ajude a amadurecer na vida cristã. Como diz o Papa Francisco: “A Igreja, como Mãe, não abandona a família, mesmo quando ela é aviltada, ferida e mortificada de muitos modos. Nem sequer quando cai no pecado ou se afasta da Igreja. Fará sempre tudo para procurar cuidar dela e curá-la, convidá-la à conversão e reconciliá-la com o Senhor”.

Precisamente neste tempo difícil, Deus chama-nos a ser testemunhas, mediadores da sua proximidade às famílias, da força profética e da alegria do evangelho para a família.

Com a alegria do evangelho e em comunhão fraterna no sacerdócio renovemos as promessas da nossa ordenação invocando a intercessão materna de Nossa Senhora, Mãe da santa alegria para sermos sempre fiéis à missão. 

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