Por esta ordem, porque na medida em que cresce a fé, diminui o zelo e o medo.
Claro, tem carradas de razão quem me soa o ouvido que não posso dizer tal coisa sem esclarecer devidamente que significam, no contexto das minhas reflexões estas três palavras, que, à primeira vista, se exceptuamos o caso do medo, têm um sentido positivo.
Mas eu também tenho razão, se insistir no carácter peculiar da palavra, que, como signo linguístico, ou sinal transmissor de uma mensagem, só dentro do quadro dessa mensagem tem algum conteúdo.
Não vamos agora discutir esse assunto; só peço a quem tiver a amabilidade de me ler, que o faça tendo em conta duas coisas: primeiro, que medito os textos sagrados com o máximo respeito pela sua historicidade, radicada na fé das comunidades em que nasceram e os alimentam ao longo dos séculos; depois, que, tratando-se de uma leitura pessoal, aceita, sem qualquer hesitação, que outros discordem dela. Ou a corrijam naquilo em que a competente autoridade achar que está errada.
O ponto fulcral será o conceito teológico de fé: não ignoro a extrema complexidade de campos semânticos, mesmo exclusivamente religiosos, em que surge esta palavra: por isso sempre me recusei a identificar “fé” com “religião”. Dado que esta fala directamente de uma expressão cultural, enquanto aquela significa essencialmente uma atitude íntima, da pessoa que se compromete vitalmente com Deus, que ama e no qual confia, de modo ilimitado.
Ainda que, em meu entender, o Novo Testamento seja tão dependente do Antigo, como o Antigo do Novo, fixo-me neste e, de modo particular nos evangelhos.
E ainda aqui, não será de todo inoportuno ter em consideração que os três evangelhos, chamados “sinópticos” – Mateus, Marcos e Lucas – foram escritos, pode dizer-se, depois da pregação apostólica; e o quarto, atribuído a João, na forma com que chegou até nós, terá sido o último escrito do Novo Testamento.
Não será necessário insistir que tanto o medo como o zelo, são muitas vezes usados com sentido positivo; mas, se os inserimos num quadro de dependência entre si, o zelo que nasce da fé não pode conceber-se senão como a solidarização com o “tenho sede” de Jesus agonizante; o medo, por sua vez, será a fuga de tudo o que possa reduzir ou corromper essa solidariedade.
Assim, se analisamos bem as palavras e os gestos de Jesus, especialmente nos contextos de formação dos discípulos, vemos como rejeita tudo o que pode significar um excesso de zelo ou uma atitude de medo; e, o que me parece mais importante, muitas vezes o faz, censurando a pouca fé dos que o seguiam.
Escrevo estas notas, depois da releitura do trecho de São Mateus, da missa desta manhã de sábado, deitando um olhar sobre a história da Igreja, inserida na história dos homens, que é o lugar que Deus lhe reservou como guarda do mistério de Cristo.
«O discípulo não é superior ao mestre, nem o servo é superior ao seu senhor. Ao discípulo basta ser como o seu mestre e ao servo ser como o seu senhor. Se ao chefe da família chamaram Belzebu, quanto mais aos da sua casa? Não tenhais medo dos homens, pois nada há encoberto que não venha a descobrir-se, nada há oculto que não venha a conhecer-se. O que vos digo às escuras, dizei-o à luz do dia; e o que escutais ao ouvido proclamai-o sobre os telhados. Não temais os que matam o corpo, mas não podem matar a alma. Temei antes aquele que pode lançar na geena a alma e o corpo. (…) A todo aquele que se tiver declarado por Mim diante dos homens também Eu Me declararei por ele diante do meu Pai que está nos Céus. Mas àquele que Me negar diante dos homens, também Eu o negarei diante do meu Pai que está nos Céus».
Ninguém pode negar que, do ponto de vista pastoral, o zelo e o medo terão sempre consequências muito graves, quando não se alimentam de uma fé profunda, vivida à luz do Calvário, que não admite deturpações nem máscaras.
Isso explica que muitas vezes se chame serviço ao que o não é, e se confunda unidade com uniformidade, mascarando assim a intolerância.
Quanto ao discípulo individualmente considerado, peço que me perdoem se, para ilustrar o que penso sobre esta questão, cito duas figuras da história europeia, um pouco distantes de nós, mas quase contemporâneas uma da outra e unidas por uma grande amizade assente em comuns interesses culturais. Não direi por uma fé comum, porque a diferença de destinos, faz-me pensar em diferentes atitudes de fé.
Passam hoje 489 anos sobre o falecimento, em Basileia, do humanista conhecido por Erasmo de Roterdão, cidade onde nascera em 1466.
Ao saber da morte do amigo Tomás More, executado um ano e poucas semanas antes, por respeitar a liberdade das consciências, teve uma reacção típica de quem não entendeu nunca onde estavam as raízes da verdadeira liberdade, nem a coerência de quem morre por ela.
Pessoalmente, e peço mais uma vez perdão a quem pense o contrário, sinto como uma tremenda ironia da história, que a Europa actual, dos dois humanistas mais ilustres do século XVI, tenha escolhido para patrono da sua política cultural comum, precisamente o que nunca quis comprometer-se com nada nem com ninguém.
De facto, classificar como “grande reformador” um religioso professo que, em 1522, quando o seu conterrâneo, Adriano de Utreque, recém eleito Papa, pede a sua colaboração, lhe volta literalmente as costas, só por uma cruel ironia, que pode explicar muitos dos males de que sofremos hoje.
(25.07.12)