A essência das festas cristãs

Poucas serão as paróquias que não têm uma mão cheia de festas nos meses de verão. Nalguns casos, nem duas mãos cheias chegam para as contar, distribuídas ao ritmo quase semanal pelos diversos centros de culto. A esse propósito, fomos verificar as orientações diocesanas sobre as festas cristãs e como é vivida esta realidade em cinco paróquias de diferentes vigararias.

 

 

 

A alegria da comunidade unida
para louvar a Deus e honrar os Santos

Não é preciso grande argumentação para justificar a existência de festas na vida cristã. Depois dos relatos do nascimento, Jesus aparece na Bíblia ainda criança no contexto da grande peregrinação festiva da Páscoa, acompanhando os pais a Jerusalém. E foi em ambiente de festa, no casamento de Caná, que iniciou a sua missão de anúncio do Reino de Deus. Foi também na festa da Páscoa que realizou o mistério da nossa salvação, com a sua morte e ressurreição.

Esta passou a ser, precisamente, a primeira grande celebração dos cristãos. Se qualquer dos sacramentos é uma festa, incluindo a do perdão na Penitência ou na Unção dos Doentes, a Eucaristia é, por excelência, a grande festa e o coração de todas as festas, como memorial que torna sempre atual e presente a ressurreição de Cristo, o motivo pelo qual a nossa fé é bela, feliz e viva.

Ao longo da história, os cristãos sempre usaram a festa para manifestar essa alegria da sua fé, não apenas nos sacramentos e celebrações litúrgicas, mas também na expressão social e pública da sua identificação com a comunidade unida em Cristo.

No Sínodo que a diocese de Leiria-Fátima viveu entre 1995 e 2002, esse foi um dos temas em análise. De mais de meia centena de grupos de todas as paróquias vieram constatações de que “as festas são um momento importante de alegria, convívio e participação de todos, momento privilegiado de reforçar a vivência cristã na comunidade”, mas apontando que “a preocupação com o arraial e o dinheiro a arranjar abafa a parte religiosa e espiritual”, entre outros pontos a melhorar.

Da reflexão sinodal posterior resultou a publicação da “Carta Pastoral sobre as Festas Cristãs” (CPFC), em 2001, pelo então bispo de Leiria-Fátima D. Serafim Ferreira e Silva, documento que continua em vigor como regulamentação diocesana.

 

O Santo, o povo ou o dinheiro?

“O objetivo principal é louvar a Deus e honrar os Santos” e, embora sem um “modelo pré-definido”, refere a CPFC, “todo o programa deverá ser elaborado em função deste”, adiantando que “a celebração solene da Eucaristia, a procissão bem ordenada e com beleza, a música e a atuação de artistas, as representações de determinadas cenas ou episódios são algumas das formas a privilegiar”. Só depois virá, como finalidade também importante, a promoção do convívio e comunhão entre os membros da comunidade e acolhimento aos que os visitam, bem como a angariação de receitas para as despesas da igreja paroquial ou local.

Mas nem sempre é assim. “Infelizmente, muita gente pensa primeiro em arranjar dinheiro e só depois é que se lembra que o objetivo da festa é honrar os Santos e congregar as pessoas à volta dessa homenagem”, afirma o padre José Batista, pároco do Souto da Carpalhosa, onde acontecem 10 festas religiosas por ano. O seu paroquiano Elísio Antunes, membro da comissão de festas das Várzeas, confessa que aceitou a missão para “continuar as tradições antigas e para juntar as pessoas em convívio, pois se não for isto já pouco os crentes ligam à padroeira”.

Na mesma linha de “manter a tradição e divulgar a antiquíssima romaria a Nossa Senhora da Vitória” vai Juliana Santos, da comissão que está a preparar a festa de Pataias para os próximos dias 13 a 17 de agosto. O padre Virgílio Francisco, que tem 11 festas nesta paróquia e mais quatro na de Alpedriz, comenta que “para além de pensarem mais no convívio social, muitas vezes o que move as pessoas é o bairrismo de promover a terra e cai-se na tentação de querer fazer melhor do que o vizinho”. Por isso, tem tentado “puxar para o religioso, para a honra ao padroeiro e para os valores da partilha e do serviço à união da comunidade”. Parece ter surtido algum efeito, já que, “este ano, entre petiscos e outros exposições locais, a festa vai ter uma tendinha de informação sobre a padroeira e a história e tradições desta festividade, que já remonta ao século XVI”, adianta Juliana.

Samuel Batista, festeiro do ano passado e membro do conselho económico da paróquia da Atouguia, onde há seis festas anuais, também vê no “convívio e união entre as pessoas” um dos principais motivos dos organizadores, mas reconhece que “muitos vêm ajudar pela devoção ao Santo”, mesmo os que não vão regularmente à Missa. O seu pároco, padre Fernando Varela, tem seis festas anuais anão tem dúvidas de que “congregar a comunidade à volta da memória deste Santo” é um objetivo assumido e, embora num plano secundário, é também importante juntar algum dinheiro, pois “se não fossem as festas, muitas comunidades não teriam o suficiente para as suas despesas correntes”.

Os vizinhos João Monteiro, da Corredoura, paróquia de Porto de Mós, e Valdemar Costa, da Calvaria, afirmaram de imediato que “homenagear a Padroeira” é a principal intenção das comissões de festas de que fazem parte este ano. “É tempo de louvor a Deus, de confraternização e de celebrar a fé”, aponta o padre Sérgio Fernandes, que tem apenas três festas nas duas paróquias da Calvaria e das Pedreiras. Já o padre José Alves, pároco de Porto de Mós, tem uma dúzia delas e concorda que os seus festeiros pensam prioritariamente em “honrar os respetivos padroeiros e em promover o convívio”.

Realidades relativamente próximas entre todos, mais ou menos correspondentes ao que será de esperar e está determinado que seja.

 

E que programas?

Uma das partes mais extensas da CPFC é sobre o programa das festas. Para além de muitas normas práticas sobre horários e cartazes dignos, ornamentação harmoniosa dos arraiais, ou ambiente sonoro respeitador, defende que deve evitar gastos excessivos, promover o convívio salutar, ter artistas de qualidade e cuja “mensagem não contradiga o espírito humanista e cristão”, para além de “dar prioridade aos valores locais e grupos da comunidade”.

Aqui as coisas são mais divergentes. Se todas as pessoas com quem falámos confessam essa preocupação, nem todos conseguem cumprir os requisitos. Gastos exagerados parece não haver, pois “os tempos são de crise e temos ter lucro”, refere Elísio Antunes, para quem o preço é um dos fatores preponderantes, “sem critérios muito além de querer animar as pessoas”, acrescenta o seu pároco. O mesmo se passa em quase todos os locais, sendo quase sempre contratados fora os artistas.

As exceções são um ou outro rancho folclórico, como acontece no Souto, ou uma filarmónica, como na Atouguia, onde o pároco lamenta que seja “uma tradição que está a perder-se” trazer um grupo de cavaquinhos ou um rancho local. Aqui os grupos vêm nos “pacotes” dos promotores. “Sem uma imagem ‘atrevida’ e contidos na linguagem” é o critério da Calvaria, onde Valdemar Costa concede na existência de “uma tenda com DJ, para o público mais jovem”.

O mesmo espaço mais juvenil existe em Pataias, onde o pároco assegura que seja “aberto a todos e com bom ambiente”. Nas reuniões prévias costuma alertar para a qualidade dos grupos contratados e promove os locais, o que até costuma acontecer, segundo relata Juliana Santos: “procuramos sempre gente da terra, mas nem sempre é fácil”.

Em Porto de Mós é, diz o pároco e corrobora João Monteiro, “pois há por muitos organistas na região e vêm quase sempre os mesmos, contratados de uns anos para os outros; não há bandas de rock nem artistas de renome”.

 

Liturgia e espiritualidade

As comissões de festas não pensam apenas no arraial. Pelos testemunhos colhidos, também a animação litúrgica é cuidada, cabendo aos festeiros fazer as leituras, organizar a procissão e assumir papel ativo noutros momentos celebrativos, em colaboração com as habituais equipas de liturgia. Assim o recomenda a CPFC, pois “embora não sejam os atos mais frequentados, são os que melhor concretizam o objetivo principal da festa”. Mas também há casos de “desorganização e de ter de ser o pároco a preocupar-se até em chamar pessoas para levar os andores”, comenta o padre José Alves.

Tal como há diferenças pela positiva. “Dou orientações e eles tratam disso”, diz o padre Sérgio Fernandes, onde as comissões contam com a colaboração da catequese e dos grupos de jovens das paróquias. No caso da Calvaria, o início da festa é uma procissão de velas com cinco mistérios encenados e “a comissão é a responsável por organizar tudo”, conta Valdemar Costa. E na Corredora, onde há um juiz da festa, “é à esposa, a juíza, que compete cuidar da liturgia”, diz João Monteiro.

Mas o documento episcopal sobre as festas também diz que “haja o cuidado de fazer a preparação adequada e atempadamente”, sublinhando: “é preciso ajudar a comunidade a preparar-se espiritualmente”, pois “a evangelização das pessoas é a primeira condição para a realização das festas com um sentido cristão”. Concretamente, “não se pode reduzir a preparação espiritual a uma ou mais missas, como tantas, e a confissões à maneira de sempre”.

Aqui a unanimidade é pela negativa e com justificações similares. “Não há ambiente nessa semana, em que anda tudo atarefado com o arraial”, diz o padre José Alves e dizem os restantes por outras palavras. Nalguns casos há confissões uns dias antes, ou uma procissão mais cuidada na abertura, mas outras tentativas, como já tentou o padre Fernando Varela, “têm participação diminuta”. Para compensar, “procuro fazer uma evangelização regular e insisto no tema do padroeiro nos domingos antes, pedindo a oração pelos festeiros e pelo bom fruto da festa, tal como faço um texto de agradecimento, comentário e formação sobre a festa na folha paroquial do domingo seguinte”.

 

Todos participam

Recomenda também a CPFC que a comunidade cristã deve pensar a festa “em atenção e diálogo com a comunidade humana”, pois é também ocasião para promover “valores como o reforço da identidade comunitária, a alegria sã e o fortalecimento da fraternidade e da esperança”. Apelando ao acolhimento de todos, mesmo “os que não participam nos atos de culto”, o documento defende ainda que “deve estar bem inserida na caminhada cristã e no esforço pastoral da comunidade”, como “momento extraordinário, que faz experimentar o diferente do quotidiano, na alegria, na intensidade, no sentimento de fraternidade e de comunhão, na perceção das graças e do amor divino”.

Em todas as paróquias que consultámos, é evidente esta noção. “É sempre uma altura em que a igreja se enche”, diz João Monteiro. “Os que não vão à Missa durante o ano aparecem, pelo que se proporciona o encontro com a Igreja, até entre as pessoas que constituem as comissões”, reforça o padre Sérgio Fernandes e concorda o colega Fernando Varela, adiantando que “até entidades civis querem colaborar, como é o caso da junta de freguesia”. O padre José Batista vai mais longe: “até os não crentes participam”.

Embora várias decorram próximo ou na data em que o respetivo Santo tem festas litúrgica, a maioria das festas são deslocadas para o verão, não só por causa do clima mais propício, mas também por ser altura de visita de quem está fora, como é o caso dos emigrantes.

Talvez as festas cristãs sejam um dos eventos mais permeáveis às adaptações aos gostos e situações do povo. São, com certeza, daqueles que provocam mais mobilização das comunidades cristã e da sua relação com outros residentes ou visitantes. Sem dúvida, uma oportunidade pastoral que poderia ser, por vezes, mais aproveitada, como reconhecem os próprios párocos. A conclusão da CPFC dá uma pista: “Sabemos que as tradições podem ter vícios e desvios, que é necessário purificar; perante ocasionais teimosias e caprichos, teremos a força da pedagogia e do bom senso, a fim de que caminhemos progressivamente, separando as águas, para a renovação e beleza de todas as festas cristãs”.

 

Constituição das comissões

Um dos pormenores onde a amplitude de práticas é maior é a constituição das comissões de festas. Por convite, por nomeação, por idades dos festeiros, por voluntariado espontâneo, ou porque é a comissão da igreja que assume a tarefa, há para todos os gostos.

O que determina a CPFC é que “os primeiros responsáveis pela promoção das festas são o Conselho Pastoral Paroquial ou o Conselho Económico Paroquial ou a Comissão Administrativa da Igreja” e que elas “não podem ser confiadas simplesmente a qualquer comissão, sem que esta tenha recebido orientações do Conselho Pastoral”. Por outro lado, deve “nomeada pelo pároco”, que é o seu presidente por inerência, e “quando possível, tomar posse da sua responsabilidade em ato público, perante a comunidade cristã”.

A realidade é bem diferente, como se depreende da nossa amostra. Na Atouguia, o pároco “acompanha regularmente, mas acaba por tratar mais da parte litúrgica, enquanto os festeiros organizam a parte lúdica e o arraial”. Ainda assim, diz o padre Fernando Varela, está presente “pelo menos na primeira reunião da comissão, para dar o tom e explicar as normas, e depois da festa, para agradecer”. “É a primeira pessoa a dar opinião, mas dá autonomia aos festeiros”, concorda Samuel Batista.

Em Pataias, também se faz uma reunião inicial, mas conjunta, “com todas as comissões desse ano, para apresentar o regulamento das festas e esclarecer dúvidas”, refere o pároco, adiantando que não é hábito ouvir o Conselho Pastoral, tal como “não sendo possível acompanhar todas em permanência”.

O pároco e o Conselho Pastoral “não são ouvidos, nem nomeiam comissões, que funcionam por autodeterminação”, confessa o pároco do Souto. “Vamos dando conhecimento das decisões”, completa Elísio Antunes. Parecido se passa em Porto de Mós, onde o padre José Alves “deixa correr o ritmo, pois as tradições não deixam que se fuja muito ao costume”. Mas, mesmo sendo muitas, “esforço-me por manter certa proximidade e aproveito para conhecer, motivar e conversar com essas pessoas”. “Acompanha sempre os trabalhos da festa e aparece no arraial”, concorda João Monteiro.

Já na Calvaria, cumpre-se a recomendação de “serem apresentadas as listas ao pároco e ao Conselho Pastoral, que as podem recusar”.

 

Lucros e contas

A CPFC determina que haja “orçamento ou estimativa das despesas” e que, não sendo o lucro o principal objetivo, ”é bom que da realização das festas resulte saldo positivo, para dotar a comunidade dos bens necessários ao seu desenvolvimento”, evitando-se o esbanjamento “que por vezes existe” e “não se harmoniza com as características de uma festa cristã”.

As contas e o saldo “deverão ser entregues ao Conselho Económico ou à Comissão da igreja, dentro de dois meses após a sua realização, registadas no livro próprio da igreja” e ”será dado conhecimento à comunidade”. Sem estas condições, “nenhuma outra festa será autorizada”.

Nas cinco paróquias visitadas, todas as festas dão lucro, “senão nem valia a pena realizá-las”, como remata Elísio Antunes. Valdemar Costa e Juliana Santos referem também essa preocupação, ao ponto de, ao longo do ano, se realizarem eventos que permitam garantir a maioria das despesas à partida.

Em todas se cumpre também, salvo raríssimas exceções pontuais, a entrega de contas e saldos aos responsáveis administrativos, sendo anunciadas publicamente e nos pasquins. O pároco de Porto de Mós vai mais longe e coloca tudo no sítio da paróquia na internet, para as pessoas poderem comparar e ajuizar sobre as boas opções de organização”. O da Atouguia faz questão de que tudo seja assinado por si, pelo Conselho Económico e pelas comissões e, no fim da aprovação, tira fotocópias “para que quem quiser possa conferir com calma em casa”.

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