A espiritualidade do Advento em tempos de crise(s)

Advento significa chegada. Na liturgia cristã, é o tempo em que se prepara a vinda de Cristo, na aproximação da celebração do seu Natal. Quase dois milénios depois desse facto histórico, que sentido faz ainda esperar Aquele que já veio?

Olhando o contexto atual, de crises várias, de guerras e violências diversas, de tantas dores e desesperos, poderemos também perguntar: será que já veio? Onde e como O podemos encontrar?

O povo judeu viveu um longo advento. Durante séculos, esperou a vinda do Messias prometido por Deus, Aquele que viria libertá-lo das opressões e conduzi-lo, finalmente, à verdadeira terra prometida. E foram muitas as provações a que foi sujeito, desde guerras, fomes, exílios e muitas dificuldades para se afirmar como nação.

No ano 3758 da sua história, equivalente ao ano 754 do calendário romano (após a criação de Roma), era numa dessas situações em que se encontrava. Dominado territorialmente pelo império romano, governado por uma elite corrupta e rendida aos interesses estrangeiros, subjugado por uma lei religiosa de minuciosas restrições aplicadas por sacerdotes e levitas, carregado de pesados impostos cobrados sem piedade, vivia numa profunda crise económica e de identidade.

A maioria da população era muito pobre, enquanto os poucos sem escrúpulos aproveitavam a situação precária para enriquecer cada vez mais e manter o poder a qualquer custo. Enquanto isso, alguns grupos revolucionários iam organizando ações de protesto, mais ou menos violentas, embora com resultados escassos e sempre abafadas pelo exército romano e pelo poder judaico, fiel ao opressor para garantir a sua sobrevivência. Ao mesmo tempo, outros refugiavam-se nas montanhas ou no deserto, em comunidades eremitas, procurando manter-se fiéis a Deus pela oração e a vida simples e despojada. Alguns deles apareciam em público como profetas, lembrando ao povo as promessas de Deus e a necessidade de continuar a acreditar que Ele enviaria o Salvador.

Terá sido de uma dessas comunidades que surgiu João Batista, precisamente com o anúncio de que o Messias já estaria entre eles. A história de Jesus, desde o seu nascimento e os cerca de três anos da sua vida pública até à morte e ressurreição, já todos a conhecemos.

Para os cristãos, Jesus foi o salvador, que veio trazer a libertação, criar um novo estilo de vida em fraternidade, justiça e paz e dar esperança para a vida pessoal e coletiva da humanidade ao longo do tempo e na eternidade, após a morte.

E hoje?

Crise é também uma das palavras que mais tem marcado os nossos dias. Referindo-se, em primeiro lugar, às dificuldades económicas e financeiras, ela é também apontada para descrever a ausência de valores morais e éticos, a desintegração das famílias ou a desestruturação social, a dificuldade na educação das novas gerações, ou mesmo a depressão e conflito interno que afeta tantos homens e mulheres vítimas destas e outras dificuldades nas suas vidas.

Olhamos em redor e nem sempre é fácil acreditar que Cristo já veio. Vemos uma enorme fatia da população sem as condições mínimas de vida, a morrer de fome e sem uma habitação condigna, sem acesso à educação ou a cuidados médicos primários. Por outro lado, outros desperdiçam os milhões que ganham à custa da exploração do seu semelhante, em jogos de poder e corrupção sem escrúpulos, roubando descaradamente o pão que a outros pertence.

Em pleno século XXI, a guerra continua a ser uma realidade que divide nações, raças e credos, a matança dos inocentes chega a ser legislada pelos povos mais “civilizados”, a perseguição em nome de Deus causa milhares de mortos e desalojados pelo mundo inteiro, a violência dentro das próprias famílias é uma chaga que alastra sem aparente controlo.

Neste cenário, emerge de novo o grito: “Vem, Senhor Jesus, vem libertar-nos!” Precisamos de quem nos abra os olhos e o coração para vermos os sinais de Deus e nos compadecermos com quem sofre. A espiritualidade do Advento impele-nos a vigiar e a agir em favor de quem precisa de ajuda.

Hoje, como ontem, o tempo da espera

A vida terrena é uma passagem. Este “lugar-comum” que tantas vezes ouvimos e dizemos é, de facto, o que caracteriza a visão cristã da existência. Talvez nem sempre seja totalmente entendido e vivido esse sentido de sermos “peregrinos na história, a caminho da pátria definitiva”. Sobretudo, o sentido da esperança cristã, de que o Senhor não nos abandona, mas vem permanentemente ao nosso encontro e caminha connosco nessa mesma história.

Em cada Advento, ao mesmo tempo que lembramos a “vinda natalícia” de Jesus, nesse longínquo ano zero da era cristã, projetamos a construção da nossa história pessoal e comunitária na perspetiva da vida plena e definitiva de Cristo como Rei e Senhor do universo. Nesse sentido, vivemos o tempo da espera que é constante e permanente, na certeza de que Ele virá. E, por isso, somos convidados a acreditar que vale a pena, que é preciso sempre preparar o caminho, converter a vida e superar a cada dia todas as formas de dominação, exclusão e miséria, para que se realize uma sociedade com liberdade e dignidade para todos.

Hoje – como ontem e amanhã – somos convidados ao Advento de atenta vigilância e de alegre expectativa, sendo missionários dessa boa nova, anunciadores de que a vinda está próxima, por palavras e com o testemunho de quem vive essa certeza. E é, sobretudo, num tempo de “crise”, de falta de horizontes, de aparente vitória do consumismo sobre a pobreza do presépio, que se torna mais urgente acender e renovar o ânimo da esperança cristã.

Assim, o Advento é também o nosso tempo, depois da encarnação de Deus. Somos convidados a vivê-lo hoje intensamente, não apenas na liturgia e na espiritualidade pessoal e comunitária (ver caixas), mas também em cada momento e ambiente da vida quotidiana.

A caridade como caminho

É habitual por estes dias multiplicarem-se campanhas de solidariedade, recolhas de alimentos, roupas, brinquedos e outros bens, apelos a um olhar para quem está mais desprotegido ou marginalizado na sociedade. Muitas vezes, são iniciativas que fazem já parte do “figurino” tradicional da quadra natalícia e algumas confundem-se mesmo com o ambiente consumista que se respira nas ruas, nas montras, nos meios de comunicação social e nas conversas privadas. A mensagem parece ser, tantas vezes, “já que compra tanto para si, compre ainda mais um pouco, gaste mais uns trocados que nem se vão notar no custo dos montes de presentes adquiridos e, a talho de foice, desempoeire um pouco a consciência por ajudar os pobrezinhos”.

Como tempo de conversão, de endireitar veredas e aplanar caminhos, o Advento é, de facto, um tempo propício para a prática da caridade. Mas não reduzida a “esmola” ocasional, ainda que o resultado sirva, de facto, para melhorar a vida de alguns dos mais carenciados.

Na verdade, é bom que os cristãos participem e colaborem nessas campanhas, mas terão que ir muito além disso para um Advento que signifique “mesmo” preparar o encontro com o Senhor. Porque ele só pode acontecer se existir antes o encontro com os outros. A caridade cristã é isso mesmo: acolher e abraçar o outro, caminhar com ele de mão dada, oferecer-se, mais do que oferecer coisas. E o outro é cada pessoa, próxima e distante, é a natureza e toda a criação, é o próprio Deus que toma sempre a iniciativa de vir ao nosso encontro e fazer-Se próximo.

Para tal, a caridade manifesta-se, em primeiro lugar, no despojamento, como o viveu Jesus nascido numa manjedoura. Não se trata de enaltecer a pobreza económica como um ideal, mas sim encarar os bens terrenos com desprendimento, colocando-os ao serviço dos outros. A única riqueza verdadeiramente desejável é Deus, de Quem tudo recebemos e de Quem dependemos inteiramente.

O Advento leva-nos ao Natal sempre que que se pratica a justiça, se reconhecem e se tratam os semelhantes como irmãos, se entreajudam e partilham bens e talentos. Onde se pratica o amor recíproco “aí habita Deus”, aí acontece o Natal.

Origem e teologia do Advento

O Sínodo de Saragoça, precisamente, na Península Ibérica, no ano 380, é onde se encontra a primeira referência ao “tempo do Advento”, indicando três semanas de preparação para a Epifania, data em que se celebrava também o Natal. Várias outras referências vão surgindo, sendo recorrentes em muitas partes do mundo nos séculos IV a VII, embora com configurações diversas, mas normalmente associadas a um caráter ascético (jejum, abstinência…), por vezes associado à preparação dos catecúmenos para o batismo.

No século VII, o Advento assume também uma vertente escatológica, isto é, de preparação para a segunda e definitiva vinda do Senhor. Assim, passa a ser um tempo de esperança, de estarmos atentos e vigilantes, preparando-nos alegremente para essa vinda de que “não sabeis o dia nem a hora”, como Ele havia dito.

A teologia atual insere o Advento na dimensão histórica da salvação (recordar o nascimento de Jesus), evidencia a dimensão escatológica do mistério cristão (Ele virá de novo no fim dos tempos) e sublinha o caráter missionário da vida cristã (devemos preparar-nos pessoalmente e anunciar a todos os povos essa oferta de salvação). Nessa linha, toda a humanidade e a criação vivem em permanente clima de advento, de ansiosa espera pela manifestação plena do Reino de Deus.

Essa é a dimensão a privilegiar neste tempo, que a Igreja prolonga atualmente em quatro semanas antes do Natal.

Liturgia e espiritualidade do Advento

A liturgia do Advento é um convite à vivência mais intensa dos valores cristãos da esperança, da partilha, da conversão e da alegria vigilante. Confiantes na fidelidade de Deus, certos de que Ele “veio, vem e virá”, os cristãos vivem em alegre expectativa, na certeza da primeira vinda do Salvador realizada em Cristo e na certeza de que a salvação se consumará na parusia (volta) do Senhor. É uma “esperança em Cristo”, que virá renovar tudo e todos, conduzindo-nos a uma vida eterna com Ele, onde não haverá mais misérias, pecados, fraquezas, dificuldades ou perseguições.

Mas não é uma espera estática. Este é um tempo de conversão, de “preparar o caminho do Senhor” na vida concreta do dia a dia, de estar “vestido a rigor” e pronto para entrar na “festa do noivo”. Isso faz-se com a luta diária para nos libertarmos do pecado e do que afasta de Deus, usando como armas a oração, a meditação da sua Palavra e os sacramentos. E também pela prática da caridade, como é referido noutra parte.

Neste ano litúrgico – Ano B –, a liturgia privilegia a ideia do encontro com Deus, na realização da sua promessa de vir até nós. O primeiro domingo sugeriu uma atitude de expectativa e preparação para esse encontro e, no segundo, apontou-se mais concretamente a necessidade de conversão permanente para que ele se realize. No 3.º domingo, ouviremos já ecos de alegria pelo anúncio eminente da presença de Deus, pelas vozes dos profetas Isaías e João Batista. No 4.º domingo, será Maria a figura central, aquela que disse “sim” à proposta de Deus e assim possibilitou o seu “encontro” com o homem.

Sinais de Advento

São vários os símbolos que podem ajudar-nos na vivência espiritual do Advento. Uma das suas manifestação mais importantes é a sobriedade e a moderação, tanto na decoração dos espaços como nas próprias celebrações. Por exemplo, não se canta o “Glória”, reservando-o para a aclamação festiva no Natal do Senhor. Nessa linha, tem sido sugerido que haja maior contenção na ornamentação das igrejas com flores, luzinhas, árvores e presépios, como se fosse já Natal. Isso servirá, até, como exemplo contra a onda consumista que esta quadra proporciona na sociedade e, mesmo, em tantos lares.

Uma das expressões visuais que mais se usa é a “Coroa do Advento”. O seu elemento essencial são as quatro velas, representando as quatro semanas, mas há outras características que permitem uma leitura simbólica. É o caso das cores das velas: três roxas, a cor deste tempo litúrgico de conversão e penitência, e uma rosa para o terceiro domingo, o Domingo Gaudete (Domingo da Alegria), em que a liturgia aponta para a alegre expectativa da vinda de Cristo. A forma circular da coroa simboliza a nova aliança de Deus com a humanidade, os ramos verdes que a enfeitam significam a esperança, e a fita vermelha com que muitos a envolvem é cor da vida, do amor e ao mesmo tempo do derramamento do sangue.

Após os quatro domingos, em que cada pequena luz foi sendo acesa, a coroa é substituída pela verdadeira luz, Cristo que nasce para iluminar o mundo.

Meditações para o Advento

Sendo um tempo de especial preparação espiritual, podemos aproveitar algumas ajudas para dedicar mais tempo à oração e à meditação da Palavra de Deus. Uma delas é o próprio jornal Presente que publica os textos litúrgicos e o seu comentários para cada domingo e solenidade.

Mas não faltam outra propostas, em livros, revistas e em páginas de espiritualidade na internet. Apontamos como exemplo o “Percurso de Advento” sugerido pela FEC – Fundação Fé e Cooperação, “um itinerário de reflexão e oração que cruza diferentes olhares sobre o mundo atual”. Com o lema “abandonar-se em suas mãos… acreditar, confiar e dar o sim ao seu projeto”, conta com as reflexões do padre Vítor Feytor Pinto, da jornalista Laurinda Alves, da irmã Rita Cortez e de Fernando d’Oliveira, assistente espiritual da Casa de Saúde do Telhal. Partindo da liturgia de cada domingo do Advento, pretende-se levar ao “(re)nascimento em cada coração, até ao coração deste Deus amor que nasce para nós”. A consultar em www.fecongd.org.

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