FILHOS DA MULHER LIVRE

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[Nota do editor: Em memória do padre Augusto Ascenso Pascoal e como homenagem ao seu legado espiritual e pastoral, continuaremos a publicar os textos que foi partilhando na sua página pessoal, permitindo que a riqueza da sua reflexão permaneça acessível aos leitores.]

“«Abraão vosso pai, exultou com o pensamento de ver o meu dia. Viu-o e encheu-se de alegria».

Os Judeus disseram-Lhe então: «ainda não tens cinquenta anos e viste Abraão?»

Disse-lhes Jesus: «Na verdade vos digo: antes que existisse Abraão, “eu sou”. Então pegaram em pedras para atirarem contra ele; mas Jesus escondeu-se e saiu do templo” (Jo 8, 56-59).

Num texto provavelmente mais antigo do que este, São Paulo, um fariseu, filho de fariseus, nascido na diáspora e formado nas escolas rabínicas de Jerusalém, que se tornou cristão pelo encontro com Jesus, no caminho de Damasco, interpela assim os judeus da Galácia, consumidos pelo cumprimento da Lei, tal como ele fora.

Aliás, pensando bem, e relendo com atenção toda a carta aos Gálatas, temos de concluir que Paulo não se consome menos pela Lei, depois de encontrar a Cristo; o que o faz é de outro modo e com horizontes tão vastos como o mundo:

“Dizei-me, vós que quereis permanecer sujeitos à lei: como não escutais a Lei? Está, de facto, escrito, que Abraão teve dois filhos, um da escrava, outro da mulher livre. Mas o que era filho da escrava nasceu segundo a carne, enquanto o da mulher livre nasceu por causa da promessa.

O que foi dito como alegoria: pois trata-se de duas alianças: uma, a do monte Sinai, foi a que nasceu para a servidão; ora Agar é o nome que na Arábia se dá ao monte Sinai, e corresponde à Jerusalém actual, já que se encontra sob a escravidão, juntamente com seus filhos. Mas a Jerusalém do alto é livre; essa e a nossa mãe.

(…) Mas, como então o que foi gerado segundo a carne perseguia o que foi gerado segundo o Espírito, assim também agora.

(…) Irmãos, não somos filhos da escrava, mas da mulher livre!” (Gal 4, 21-31).

Quiseram apedrejar Jesus, porque, diziam eles, blasfemara, fazendo-se igual a Deus; e como se faz Ele igual a Deus? Não foi, de certeza absoluta, por dar a entender que era anterior a Abraão; mas pelo “eu sou”, que Moisés ouvira como resposta, quando pediu a Deus que lhe revelasse o nome.

Os judeus que discutiam com Ele e O quiseram lapidar por blasfémia, perceberam muito bem o que queria dizer com aquele “eu sou”. Tanto, que, como vemos no julgamento que precedeu a entrega do Mestre a Pilatos, nem o falso testemunho de que Ele teria ameaçado destruir o templo e edificá-lo em três dias, foi suficiente para o sumo sacerdote, que se viu na necessidade de impor-lhe que dissesse claramente se era de facto “filho de Deus”: expressão polissémica, mas que neste contexto, exprime exactamente a relação íntima do Filho com o Pai.

«Antes que existisse Abraão, “eu sou”»!

Eles perceberam; por isso condenaram O Senhor à morte. E, como numa grave ironia da história, quiseram que Ele morresse às mãos da autoridade civil, quase como se tivessem percebido também que tinha chegado a hora de ultrapassar a tirania das fronteiras e acabar com nacionalismos fanáticos.

É a um fanatismo semelhante, tão forte entre os judeus da diáspora, que Paulo responde, quando escreve aos Gálatas, fazendo a leitura crente do livro do Genesis, especialmente os capítulos XVI e seguintes:

“Abraão teve dois filhos, um da escrava, outro da mulher livre. Mas o que era filho da escrava nasceu segundo a carne, enquanto o da mulher livre nasceu por causa da promessa”.

As duas mulheres, afinal, segundo a leitura paulina, representam as duas alianças: a do Sinai e da “Jerusalém celeste”, que é a Igreja, nossa mãe.

Isto significa que, se aceitássemos a perspectiva étnica que cega ainda hoje dois povos que se dizem descendentes de Abraão e se guerreiam de modo tão feroz, poderíamos talvez, como os Romanos representados por Pilatos e Herodes no processo de Jesus, considerando-nos alheios a essa guerra, continuar, quando muito a evitar que ela nos prejudicasse.

Pior do que isso, seria explorar tal guerra, pressionados pela adesão que achássemos mais de acordo com os nossos interesses ideológicos, políticos ou culturais.

E não vale a pena usar a máscara do bem maior, quando à definição desse bem falta o horizonte da transcendência divina: por isso os moralistas que se mantêm dentro dos limites da fé, dizem que nunca se pode considerar bem maior o que resulta de um pensamento ou de um agir intrinsecamente mau.

Jesus morre condenado pelos dois poderes, político e religioso, ambos mascarados com a defesa da estabilidade, de valores mais altos, que, por outro lado, se põem constantemente em questão.

São Paulo escreve ainda:

“Mas, como então o que foi gerado segundo a carne perseguia o que foi gerado segundo o Espírito, assim também agora”.

Fico a perguntar a mim mesmo, com certa ansiedade: como se vê que sou filho da mulher livre e não da escrava?

(Fátima, 26.03.31)

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