[Nota do editor: Em memória do padre Augusto Ascenso Pascoal e como homenagem ao seu legado espiritual e pastoral, continuaremos a publicar os textos que foi partilhando na sua página pessoal, permitindo que a riqueza da sua reflexão permaneça acessível aos leitores.]
Durante muitos anos, na minha sensibilidade de aldeão, as palavras “impostor” e “impostura”, talvez por serem usadas com menos frequência, surgiam quase como um eufemismo, perante os vocábulos “mentira” e “mentiroso”.
Mais tarde, quando os estudos linguísticos me chamaram particularmente a atenção para o valor frequentemente negativo do prefixo «in-», e tendo como fundo os autores que ia lendo, comecei a pensar precisamente o contrário: talvez impostura seja algo de mais grave do que mentira.
O original grego de Mateus usa duas palavras da mesma família – “planos”, “plane” -, para exprimir a o que as autoridades religiosas de Jerusalém dizem a Pilatos, de dois modos: segundo a versão latina da Vulgata, Jesus é um “sedutor” (“seductor ille”? e o resultado do hipotético roubo do Seu corpo por parte dos discípulos, o pior dos “erros” (“novissimus error peius priore)”.
Estamos perante um tema que, apesar da sua importância para a crítica exegética e teológica, podemos passar adiante, porque, pensando bem, a palavra portuguesa “mentira” pode usar-se hoje para designar qualquer pensamento, fala ou acção contrária à verdade, como também os seus efeitos; ainda que, neste caso, se use com mais frequência a palavra “erro”.
Nem sempre se explora devidamente o facto de as últimas palavras de Jesus, perante o poder religioso (religioso, porque Pilatos sabe que está a ceder às autoridades religiosas), o poder religioso e civil, que claramente, em vez da verdade, procura salvar a face, a última palavra de Jesus é, segundo o quarto evangelho: “para isto nasci, para isto vim ao mundo: para dar testemunho da verdade; todo aquele que vive da verdade escuta a minha voz” (Jo 18, 37).
Dar testemunho da verdade.
Qual verdade? Parece que pergunta Pilatos; mas o que ele faz é afirmar que não há outra verdade senão a que lhe dá segurança nos erros e abusos que se permite, seja em nome de que lei for.
Por isso, também com certa displicência, entrega o corpo do Mestre a um dos Seus discípulos, para que lhe dê uma sepultura minimamente digna.
Jesus é Deus, que Se faz homem para salvar a criação da escravatura do erro em que caiem os que, como Adão Eva, se deixam seduzir pela beleza e doçura da árvore do bem e do mal.
Talvez não seja de todo errado afirmar que o medo dos príncipes dos sacerdotes e fariseus – ironicamente tratados por Pilatos, que, afinal, não estava muito seguro da sua razoabilidade – este medo, ridículo, sem qualquer dúvida, continha uma profecia: o roubo do corpo de Cristo para negar a sua Ressurreição, deu-se de outro modo, e o erro nascido daí, é tão grave e universal, que até muitos crentes – digamos, antes, que até nós, crentes – se não nos precatamos devidamente, sofremos a sua tirania.
“No dia seguinte, isto é, depois da Preparação, os príncipes dos sacerdotes e os fariseus foram ter com Pilatos e disseram-lhe: «Senhor, lembrámo-nos do que aquele impostor disse quando ainda era vivo: ‘Depois de três dias ressuscitarei’.
Por isso, manda que o sepulcro seja mantido em segurança até ao terceiro dia, para que não venham os discípulos roubá-lo e dizer ao povo: ‘Ressuscitou dos mortos’.
E a última impostura seria pior do que a primeira»”
Podia Deus, que nos criou por amor, Se fez um de nós, para ser o nosso resgate, deixar que roubasse o Seu corpo, aquele a que Ele oferecia como alimento?
“Enquanto comiam, Jesus tomou o pão, recitou a bênção, partiu-o e deu-o aos discípulos, dizendo:
«Tomai e comei: Isto é o meu Corpo».
Tomou em seguida um cálice, deu graças e entregou-lho, dizendo:
«Bebei dele todos, porque este é o meu Sangue, o Sangue da aliança,
derramado pela multidão, para remissão dos pecados»” (Mt 26, 26-28).
Sem querer ofender ninguém, acho que andam por aí traduções das palavras de Jesus na última Ceia, que têm o seu quê de latrocínio, pela indevida apropriação que lhes dá origem, por vezes, até com o aval da autoridade competente.
Jesus não Se deixou roubar: entregou-Se todo, corpo e alma, sem qualquer preço, a todo o que, reconhecendo a indigência em que o lançam as falsas promessas de felicidade, O procuram, melhor O acolhem, como tantas e tantos de todos os tempos, pobre e ricos.
Ricos também?
Claro. Penso que devíamos escutar melhor a mensagem encerrada em figuras como a de Zaqueu, Levi (Mateus) e José de Arimateia; para não falar já de “um tal”, em cuja casa celebrou com os discípulos o banquete da Páscoa.
E percebermos melhor o que lemos em João XII, 1-8: utilizar os pobres como pretexto para negar a generosidade com quem nos dá tudo, será sempre, além de querer guardar Jesus fechado no buraco da rocha, um buraco emprestado, mas digno, porque do jardim de um homem rico, insultar os mesmos pobres, em nome dos quais retemos, ou, pior ainda, exibimos e delapidamos o que nos foi confiado para uma administração fraterna e generosa.
Assim se une, como não podia deixar de ser, a Eucaristia ao pecado original.
A pior impostura é a que nos liga, pelo desprezo da Verdade de Deus, à impostura com que a serpente enganou os nossos primeiros pais.
(Fátima, 26.04.01)