HOMENS OU PREGADORES?

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[Nota do editor: Em memória do padre Augusto Ascenso Pascoal e como homenagem ao seu legado espiritual e pastoral, continuaremos a publicar os textos que foi partilhando na sua página pessoal, permitindo que a riqueza da sua reflexão permaneça acessível aos leitores.]

Antes de irmos adiante, desejaria esclarecer o seguinte: “homem”, no meu texto (do latim “homo”), traduz o grego “ànthropos”, que na língua original do Novo Testamento se refere ao ser humano, homem e mulher, de qualquer idade, religião e cultura; “pregador” (do latim “praedicator”), termo em português actual extremamente polissémico, uso-o aqui para designar aquele/aquela que, no seio da comunidade cristã, ou com mandato dela, procura fomentar a fé com o anúncio, mais ou menos oficial da doutrina da Igreja: função paralela, parecida, às vezes erroneamente confundida, com a do professor ou mestre-escola.

A minha pergunta, inspirada num texto até agora inédito, do Papa Bento XVI, nasce da reflexão que tenho feito nos últimos dias sobre os relatos evangélicos da Ressurreição de Jesus; relatos que sintetizo a partir dos capítulos e versículos seguintes:

Mateus 28, 8-9; Marcos 16, 8-11; Lucas 24, 8-11 e João 20, 11-18.

É evidente que deixo de lado muitos pormenores, comuns ou específicos de cada evangelista; pormenores cuja importância não quero negar, mas que, quanto a mim, não anulam, antes, acentuam aquilo que me parece o cerne, não apenas da experiência dos primeiros discípulos que, depois da morte na cruz, viram Jesus vivo, não apenas a desses, mas a de todos os que, ao longo dos séculos fizeram ou vão fazendo essa experiência, nas variadíssimas circunstâncias da vida de cada um.

Antes e depois de ser Papa, Bento XVI, que oi também um dos maiores teólogos do nosso tempo, afirmou várias vezes que a Igreja estaria a caminho de tornar-se uma minoria – o “pusillus grex” de que, afinal, fala o próprio Jesus: “não tenhais medo, pequeno rebanho, porque foi do agrado de vosso Pai dar-vos o reino” (Lc 12, 32).

Houve quem censurasse o Papa de advogar a transformação do cristianismo numa religião elitista; acusação que, à parte a má vontade donde frequentemente provinha, só se explicava pelo desconhecimento, por parte das pessoas, da profundidade e das fontes do pensamento de Ratzinger.

De passagem, talvez pudéssemos referir as medidas verdadeiramente ecuménicas tomadas pela Santa Sé, durante o seu pontificado; medidas algumas das quais foram depois revertidas sob o pretexto de que atentavam contra a unidade.

Voltando ao texto de São Lucas, não será fácil encontrar na catequese dos Padres referências à expansão do cristianismo que neguem de qualquer modo as palavras de Jesus sobre a pequenês do rebanho: precisamente o rebanho de que Ele é, ao mesmo tempo, o pastor e a porta do aprisco.

Noutros contextos, é também o alimento, o pasto e a pastagem. Metáforas chocantes, dizem alguns; para mim são tudo símbolos tirados da nossa linguagem, para que se entenda que, em grandes ou pequenas comunidades, com muita ou pouca prática religiosa, quem não se alimenta da Pessoa de Cristo, perfeito Deus e perfeito homem, está fora do rebanho, mesmo que pareça brilhar no meio dele.

Claro, que alimentar-se de Cristo, é também uma expressão que abrange um significado muito mais amplo do que o simples acreditar na doutrina de Jesus, porque, como este nome indica e o próprio Jesus afirmou em várias ocasiões, Ele não é apenas o Salvador, é Deus que salva; salva por amor, como nos criou por amor; e não se pode nunca mascarar a verdade fundamental da teologia e da antropologia: o amor, ou é absolutamente gratuito ou pura e simplesmente não existe.

Dos autores do Novo Testamento, o que mais insiste neste carácter gratuito da salvação é São Paulo: um judeu da diáspora, precisamente o ambiente judaico em que se defendia com mais afinco a necessidade de pertença a um povo concreto, para ser atingido pela salvação prometida a Abraão e à sua descendência.

Talvez não esteja de todo errado supor que uma certa corrente anti paulina que detectamos em certos comentários sobre as cartas do Apóstolo, nasce de continuar a ter da Igreja uma noção que, apesar de todas as aparências, não se afasta muito da concepção étnica, cultural e política do judaísmo mais conservador.

Sem querer pôr em dúvida a justeza de qualquer prática pastoral legítima, não resisto à tentação de pensar que parte das energias físicas, morais e espirituais, que se gastam a tentar novas vias de promoção de gente para o ministério ordenado, ou actividades laicais que com ele se confundem, deviam consumir-se antes a ajudar quem está no meio do mundo a amar esse mundo como aquilo que ele é. espaço de encontro com Deus, que no-lo confia para que cuidemos dele.

Mundo que é, acima de tudo, o homem e a sua fome de felicidade.

Isso significa que a própria Igreja não anuncia a salvação sem que os cristãos mostrem, com o seu modo de amar a todos, antes de mais os seus companheiros de vida e de trabalho, mostrem como a salvação é um dom absolutamente gratuito de Deus: Deus que não se alcança se positivamente rejeitamos os Seus dons, entre os quais se inclui a mesma Igreja com a sua fé e os seus sacramentos e que ninguém pode reclamar como espaço das suas ambições pessoais, por muito sejam muito santas.

Dos relatos evangélicos citados acima falamos depois.

(Fátima, 26.04.08)

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