AO CONTRÁRIO DE EMAUS

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[Nota do editor: Em memória do padre Augusto Ascenso Pascoal e como homenagem ao seu legado espiritual e pastoral, continuaremos a publicar os textos que foi partilhando na sua página pessoal, permitindo que a riqueza da sua reflexão permaneça acessível aos leitores.]

Não será preciso um esforço muito grande para perceber nos relatos evangélicos da Ressurreição, que o primeiro anúncio deste acontecimento, absolutamente sobrenatural, parte do encontro com o Vivente que morrera na cruz e vem, Ele próprio, em busca dos Seus amigos dispersos, ou escondidos sobretudo por medo das autoridades que haviam condenado Mestre à morte.

Chama-me particularmente a atenção o que se passa com dois desses amigos, que saem de Jerusalém, não já com medo seja do que for – pelo menos isso não aparece na narrativa -, mas desencantados, diríamos mesmo despeitados, com uma certa revolta, porque, bem analisadas as coisas, tudo tinha corrido tão mal, que nem sequer estavam dispostos a dar valor a ditos que lhes soavam a puros boatos.

“É verdade que algumas mulheres do nosso grupo nos sobressaltaram: foram de madrugada ao sepulcro, não encontraram o corpo de Jesus e vieram dizer que lhes tinham aparecido uns Anjos a anunciar que Ele estava vivo. Alguns dos nossos foram ao sepulcro e encontraram tudo como as mulheres tinham dito. Mas a Ele não O viram” (Lc 24, 22-24). É o que acontece quando se analisam os sinais numa perspectiva demasiado pessoal.

Jesus faz-se companheiro destes dois discípulos desiludidos, talvez até um pouco revoltados: por isso vão tristes, e é precisamente essa tristeza que ele toma como a realidade mais séria, menos humana, para ajudar aqueles homens.

É legítimo pensar que o modo como Ele se aproxima dos dois viandantes tem todas as características de quem quer saber para ajudar e não para satisfazer uma curiosidade gratuita, indiscreta. E o diálogo trava-se a partir da amizade de um e da surpresa dos outros. Tudo processos de comunhão humana, sem a qual não haverá nenhuma comunhão de ideias e muito menos de fé.

Copio directamente do Cardeal Ratzinger/Bento XVI:

“Cada cristão deve tender de modo mais decisivo para a fraternidade entre os cristãos e ao mesmo tempo aspirar a demonstrar a sua proximidade com o próximo não crente que o rodeia, de um modo mais humano e assim profundamente cristão” (Tradução livre de LA FEDE DEL FUTURO).

Confesso que nem a palavra italiana “vicinanza”, nem o português “proximidade”, são termos que me agradem, e penso que Bento XVI quer dizer muito mais do que o que exprime o vocábulo “proximidade”: porque nem sempre estar próximo traz consigo qualquer sinal de fidelidade à missão messiânica que Deus confiou à Igreja e cada um dos baptizados.

Na expressão de Bento XVI, o cristão que não cultiva, por todos os meios, ver e amar os seus irmãos de fé com os olhos no Pai comum que é Deus, não pode ter com os que encontra na vida, ter uma amizade tão profunda que seja verdadeiramente cristã.

Uma amizade que não esconda nenhum dos elementos necessários a uma construção de pontes, para que as fracturas se vão a pouco e pouco colmatando e se crie um espaço de diálogo que não seja apenas formal, diplomático, de pura coexistência pacífica.

Claro que entre esta amizade e o desprezo – para não falar do ódio e animosidade – há uma grande variedade de estádios intermédios bons, legitimamente procurados por todas as pessoas de boa vontade e que merecem o nosso apoio e oração.

Simplesmente, se nos contentamos com esses estádios intermédios, não cumprimos a nossa vocação de co-redentores com Cristo, e, no convívio entre as nações não haverá nunca uma paz duradoura.

Acho que é importante pensar um pouco mais nisto, porque estamos a viver precisamente uma guerra que, mais do que qualquer outra conhecida na história da humanidade, não se mostra o menor respeito pelo homem; além de que são os agressores que exigem aos agredidos o abandono das respectivas armas e impões as condições para paz.

É neste campo de contenda que o papel da Igreja e de cada um dos seus membros tem de imitar, melhor, ser Cristo, criando espaços de diálogo que permitam aos desiludidos ou enganados sentir-se pessoas, sem humilhação nem medo das armas.

Dois homens amachucados pelos acontecimentos, caminham aumentando um no outro a tristeza e o desânimo que os levam ao conforto da sua casa.

Outro homem aproxima-se, nota essa tristeza e vai por aí, até que a sua ignorância dos factos surja como uma ponte para que os pobres desiludidos percebam que alguém precisa deles e por eles se interessa.

O resto vem depois: com uma naturalidade que só não espanta porque o protagonista principal do episódio é Deus, que, desde a entrada do mal no mundo, aparece, feito criatura, para salvar o homem desse mal.

Há apenas um momento em que, segundo a minha leitura e ao contrário do que ouso dizer à maior parte das pessoas, o Evangelho aponta para um caminho oposto ao que se advoga por aí: quem convida Jesus a entrar é precisamente quem não O reconhecera ainda. De facto, Jesus faz menção de seguir a diante; não reclama nada de ninguém: aceita e paga com generosidade divina, a hospedagem de quem precisava maisdo que Ele.

Não será esta a troca que tem de existir entre a Igreja, os discípulos fiéis e as pessoas que ainda não reconheceram Cristo ressuscitado?

(Fátima, 26.04.09)

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