[Nota do editor: Em memória do padre Augusto Ascenso Pascoal e como homenagem ao seu legado espiritual e pastoral, continuaremos a publicar os textos que foi partilhando na sua página pessoal, permitindo que a riqueza da sua reflexão permaneça acessível aos leitores.]
Todos fechados com medo, porque reparando bem no que acontecera, além da experiência que lhes vinha do passado, o caso não era para brincadeiras: animavam-se uns aos outros, porque eram verdadeiramente amigos e podemos legitimamente supor que se interrogavam sobre o significado das “visões” de que, naquela manhã, tinham sido sujeitos, alguns deles, nomeadamente Simão Pedro, que nunca deixara de ser um ponto obrigatório de referência, apesar das negações que todos certamente conheciam.
Talvez até possamos suspeitar de que foi a amizade do grupo – amizade que teria de manifestar-se com acolhimento e perdão -, foi essa amizade que Judas nunca sentira… também porque nunca a cultivara.
Todos fechados e com medo, mesmo depois de escutarem o relato dos dois discípulos de Emaús, que haviam invertido a marcha, afogando o desânimo numa inundação de alegria; alegria que, como amigos – sempre essa realidade profundamente humana -, sentiam necessidade de comunicar aos outros.
Acontece, porém, que tudo isso somado, não era suficiente para uma verdadeira visão de fé: fé, que tem de ser compromisso total com Deus, pelo qual se renuncia a qualquer critério puramente humano no apreciar as pessoas e as coisas; esta fé é um dom gratuito do mesmo Deus, dom que os discípulos não haviam ainda recebido.
As experiências daquela manhã não se explicavam de modo racional. Ora, quando a razão quer explicar o inexplicável, enquanto não se humilha perante Deus, que é o seu Autor, fica a meio caminho: ou não existe nada, ou estamos perante produtos de uma fantasia malgovernada.
Não sabemos exactamente o que imaginavam os discípulos, porque tanto o grego como o latim usam os termos “pneuma” se “spiritus”, português “espírito”, noutros contextos, traduzidos por “fantasma”. No uso corrente actual, se a minha análise está correcta, a palavra “fantasma”, fora da filosofia, é talvez mais urbana, por isso também mais redutora, dada precisamente a sua polissemia.
Na minha leitura dos textos, o que me parece mais evidente é que Jesus ressuscitado não Se identifica com nenhuma das nossas imagens, sobretudo porque a Ressurreição não teria qualquer sentido fora do mistério da Encarnação: Deus, de Si mesmo invisível, torna-Se visível, assumindo um corpo e uma alma humanas: de tal modo que, depois da Cruz e do sepulcro vazio, ninguém pode dizer que O viu esquecendo os sinais da luta em que a morte é definitivamente derrotada; e não se toma parte nessa vitória da Vida sobre a morte apagando os sinais da Cruz.
Ouçamos Paulo, que fala da nossa própria ressurreição, com palavras citadas livremente de Isaías:
“Quando este corpo corruptível se tiver revestido de incorruptibilidade e este corpo mortal se tiver revestido de imortalidade, então cumprir-se-á a palavra da Escritura:
A morte foi engolida pela vitória.
Onde está, ó morte, a tua vitória?
Onde está, ó morte, o teu aguilhão?
O aguilhão da morte é o pecado e a força do pecado é a Lei.
Mas demos graças a Deus que nos dá a vitória por meio de Nosso Senhor Jesus Cristo.
Assim, meus queridos irmãos, sede firmes, inabaláveis, e progredi sempre na obra do Senhor, sabendo que o vosso trabalho não é inútil no Senhor” (1 Cor 15, 54-58).
O Apóstolo não recomenda aos fiéis de Corinto nenhuma espécie de desprezo pelos assuntos temporais; não lhes diz que fujam do mundo ou deixem de cuidar do corpo, desde que não e esqueçam de que, como diz noutro contexto, são templos de Deus.
Penso que tem extraordinária importância fixarmo-nos um pouco mais na força dos sinais visíveis da Ressurreição de Jesus, para acreditar com mais ou menos força, mas para nos darmos conta do carácter abrangente da fé na Encarnação.
São Paulo, tão injustamente acusado de misoginia, é o hagiógrafo do Novo Testamento que mais vezes nos fala da nossa fé num Deus nascido de mulher, feito homem, em tudo igual a nós, menos no pecado.
Esta mulher, tão profunda e carinhosamente tratada por um dos seus discípulos, será uma figura muito mais ampla que aquela da qual nasceu Jesus e que em vários passos das cartas paulinas tem como fundo Eva, a mãe dos viventes, como lhe chamou Adão, ele também figura de Cristo.
Os fantasmas, as nossas criações mentais, não têm corpo: temos, portanto, de ir além delas, ou, se for caso disso, rejeitá-las, porque o Deus em que acreditamos tem um corpo: transfigurado pela ressurreição, mas um corpo real e divino.
“Vede as minhas mãos e os meus pés: sou Eu mesmo; tocai-Me e vede: um espírito não tem carne nem ossos, como vedes que Eu tenho”(Lc 24, 39).
Isto significa também que nada do que põe em dúvida a dignidade da pessoa humana, até certo ponto, de toda a natureza criada, pode ser aceite por um cristão, coerente com a sua fé na Encarnação.
Amar o mundo – “loucamente”, como teve a coragem de afirmar São Josemaria Escrivá, há menos de cem anos – torna-se assim o oposto mais forte de todo o mundanismo, por belas que sejam as cores com que se pinte.
(Fátima, 26.04.10)