Quem tem estado atento ao seu discurso certamente notou que D. José Ornelas utiliza com frequência a palavra “dançar” nas visitas às comunidades pastorais. Inicialmente, há pouco mais de dois anos, exortou-nos para que preparássemos o terreno para essa dança. Depois, há cerca de um ano, veio trazer-nos os padres Luís Ferreira e Luís Pereira, não para serem ensaiadores, mas para que dançassem connosco. No dia 27 de março de 2026, regressou à nossa terra para nos escutar e saber em que estado se encontra o tal terreno.
Dançar é um verdadeiro desafio: há quem lhe apanhe o jeito depressa, há quem prefira ser conduzido, há quem não goste do compasso ou da coreografia, e há quem se encoste, receoso de ser pisado. A dança de D. José é quase assim. Convida-nos a descobrir o nosso lugar neste palco, onde, ao ritmo da fé, aprendemos a dançar juntos, rumo à unidade.
O encontro começou com uma pequena reunião entre o bispo e os padres in solidum, para partilha de ideias e inquietações, seguindo-se a fração do pão à mesa da Eucaristia da igreja paroquial da Freixianda. Depois, foi tempo de escutar a voz dos nossos sonhos.

Sonhar a Unidade Pastoral
Reunidos em assembleia, iniciámos a nossa reflexão contemplando a imagem de uma cruz que, de forma dinâmica, foi envolta em cinco fitas, cada uma com cor e tamanho desiguais, símbolo das cinco paróquias — Casal dos Bernardos, Formigais, Freixianda, Ribeira do Fárrio e Rio de Couros — que constituem a Unidade Pastoral 11, passando a mensagem de que, apesar de diferentes, abraçamos a mesma cruz, a cruz de Jesus.
Somos cinco paróquias diferentes, cada uma com a sua realidade e dinâmica própria. Algumas são mais participativas, outras têm um maior ou menor número de fiéis, com mais ou menos vivacidade. Cada paróquia traz consigo a sua história que, curiosamente, as fez cruzar no passado. Quando as cinco fitas abraçaram a cruz, nenhuma perdeu a sua identidade, nenhuma foi anulada. Deixaram-se apenas envolver pelo ritmo e, complementando-se, caminharam juntas.
É neste contexto de diversidade que D. José nos convida a dançar. No entanto, notamos leves nuances de resistência no que respeita ao novo modelo de organização da Igreja. O terreno ainda apresenta algumas formas de relevo que dificultam o fluir da dança, exigindo muita paciência e perseverança.
O segredo para alcançar a leveza e a harmonia encontramo-lo nos nossos sonhos. E, por isso, nos atrevemos a sonhar uma Unidade Pastoral como lugar de aceitação do outro, de novas formas de entender, participar, viver, fazer caminhada; sonhar uma Unidade Pastoral como espaço de enriquecimento mútuo através da partilha. Sonhar uma Unidade Pastoral aberta, onde todos têm voz, com uma nova visão comunitária, verdadeiramente corresponsável onde todos são necessários e indispensáveis. Sonhar uma Unidade Pastoral mais criativa, onde todos possam fazer render os seus talentos ao serviço da Igreja. Sonhar uma Unidade Pastoral com uma dimensão mais missionária, capaz de expandir o seu olhar para além das fronteiras da comunidade.
Para a concretização desse sonho é necessário dar passos. Afinal, a dança é feita de passito a passito. É urgente a criação de um Conselho Pastoral para que se trabalhe em rede; a criação de grupos de trabalho por setor; a organização de momentos de celebração, reflexão e oração em conjunto. A experiência das “24 horas para o Senhor”, do retiro de catequistas e de alguns encontros de formação organizados em conjunto, são a prova de que “dançar em conjunto” é o caminho.
Houve um tempo em que se acreditou que D. José Ornelas queria dançar, e dançou, depressa demais… hoje, ao olhar o caminho percorrido, ainda que pequenino, percebemos que apenas nos faltava entrar no ritmo. A Unidade Pastoral 11, ou a futura “Unidade Pastoral das Cinco Fontes”, ou a “Unidade Pastoral Trilhos da Esperança”, ou a “Unidade Pastoral Vale do Nabão” já dança.