O que é mesmo importante na vida?

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Saber discernir o que é mesmo importante na vida exige sabedoria, saber escutar, saber parar, decidir e actuar. Muitas vezes começa na coragem de arriscar o improvável e de abrir caminho ao que ainda não teve lugar
POR JOÃO PEDRO TAVARES

Vivemos em corrida permanente, cheios de urgências, com muito por fazer. Quando nos apresentamos aos outros mencionamos o que fazemos, os títulos que a vida nos atribuiu e pouco falamos de nós mesmos. Na vida procuramos, sobretudo, o bem-estar material, como se isso fosse o mais importante das nossas vidas. Do bem-estar saltamos para o muito-ter e quanto mais melhor. Se apresentarmos aos outros o muito que temos isso eleva-nos socialmente, bem como na aprovação, elogio ou consideração de terceiros. Mas, mais ainda, muitas vezes esforçamo-nos pelo melhor-parecer, independentemente do ser, do ter, do estar, sendo o mais importante o “parecer bem” diante dos outros. O que é sucesso? Será tudo isto o mais importante na vida?

Chegamos a ter medo de parar e não saber conviver com o silêncio, nem a nos descobrirmos interiormente. São muitas as capas que nos afastam, a nós e aos outros, do íntimo do nosso ser, de onde nasce a verdadeira vida. Muitas vezes é um lugar pouco visitado e o mais triste é os dias correrem e abstermo-nos dessa viagem interior, talvez, a mais importante que a vida oferece. Não para me afastar dos outros ou auto centrar-me mas, para, definitivamente, partir para tudo e todos a partir daquilo que sou verdadeiramente, da minha versão original e mais autêntica.

Quando publico nas redes que “aceitei novos desafios na minha vida”, todos me perguntam quais os novos cargos? Que promoção tive? Uau, tanto mérito que me sobra, para espalhar e distribuir. Na verdade, construímos quase sempre a partir do sucesso e raramente a partir da vida.

Mas e se esse desafio for cuidar dos meus pais, atender a um amigo, a um colega, estar disponível para quem precisa? Como serei apreciado? Estarei perante uma promoção? Ou o mundo despromove-me na consideração? Afinal, apenas escolhi o que importa, o que fica, o que marca, o essencial, o que perdura. Autorizei-me a ser e não a fazer, a servir e não a promover, a amar e não a parecer.

Quando me telefonam e me interrompem, pedem-me desculpa porque “provavelmente estás numa reunião?”. E quando estamos a fazer algo de muito importante temos a verdadeira noção da pobreza da pergunta, como se estar numa reunião fosse a coisa mais importante da vida e não é. Muitas vezes, apenas é urgente. E se do nosso lado respondermos que “não, estou mesmo a fazer algo muito mais importante! Estou a ser eu mesmo, como filho, como pai, como amigo, como alguém que ajuda e serve. Estou a beijar, a abraçar, a proteger, a cuidar”, provavelmente nunca fui tão eu como nesses momentos. Passo a reconhecer essa voz interior que me chama (vocatio), o propósito de vida, despido de máscaras, de melhor-parecer, de muito-ter. Abandonei o meu bem-estar pelo bem-amar ao outro, e passei com isso ao pleno-ser que é onde se encontra a maior e verdadeira riqueza.

E, nesses momentos descubro e encontro resposta para “o que é mesmo importante na vida”? Saber discernir o que é mesmo importante na vida exige sabedoria, saber escutar, saber parar, decidir e actuar. Muitas vezes começa na coragem de arriscar o improvável e de abrir caminho ao que ainda não teve lugar. Ir a jogo com o que somos, e não com as máscaras que nos protegeram, nem com as táticas de infância que tomámos por defesa, mas que apenas nos afastaram de nós e, consequentemente, dos outros.

A escolha é pessoal, mas estende-se a todas as dimensões da vida – profissional, social e familiar – tornando-a una e integral: como filho, pai, irmão, amigo, colega e líder que serve.

Este artigo não é sobre mim, mas sobre aqueles que me inspiram a ser e a viver cada dia mais eu mesmo, em verdade e liberdade. “Na verdade, que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro, se com isso vier a perder-se ou arruinar-se a si próprio?” (Lucas, 9, 25)

Sobre a ACEGE

A ACEGE é uma associação sem fins lucrativos, com cerca de 1.200 líderes empresariais cristãos que procuram, através do seu trabalho, a promoção da dignidade de cada pessoa e a construção do Bem Comum.

Para além da formação dos seus associados a ACEGE desenvolve um conjunto de programas nas empresas, que envolve mais de 2.500 empresas de todos os sectores e dimensões na área da ética; conciliação família e trabalho; pagamentos pontuais e combate à pobreza nas empresas. A associação foi constituída em 1952, foi declarada de utilidade pública e distinguida pelo presidente da república com a ordem de mérito empresarial.

Presidente Direcção: Patrícia de Melo e Liz; Secretário-geral: Jorge Líbano Monteiro

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