Comecemos por um pouco de poesia: chama-se VISITA, o poema por onde vou tentando encaminhar as minhas reflexões:
Foi escrito em Leiria, há oitenta e cinco anos, poucos meses antes de se completarem vinte oito, da partida para uma tragédia que ainda hoje impressiona as mentes que não perderam a capacidade de pensar, o célebre – tristemente célebre, claro – TITANIC.
Aproximo as datas porque o poema também fala do mar, e foi escrito quando estava prestes a consumar-se o fratricídio transoceânico dos povos que se seguiu à barbárie dos fornos crematórios na Alemanha e aos fuzilamentos sumários nas praças e ruas da Espanha.
Escreve Miguel Torga, com o seu jeito intimista de transformar a realidade pessoal, interior, numa janela que nos ajuda a ver o resto; e o resto é o mundo, é toda a beleza criada, mas envolvida num véu misterioso, para retirar o qual será indispensável uma luz que não se descobre raciocinando.
VISITA
Fui ver o mar:
Homem de pólo a pólo, vou
De vez em quando olhá-lo, enraizar
Em água este Marão que sou.
Da penedia triste
Pus-me a olhar aquele fundo
Dentro do qual existe
O coração do mundo.
E vi, horas a fio,
A sua angústia ser
Uma espécie de rio
Que não sabe correr.
Um rio que não sabe correr!
É mesmo de ficar à beira do desespero, quando projectamos o imenso mar que é cada um de nós, no outro, naquele que aparentemente só se agita à nossa beira e com um ruído tão fundo… tão fundo, que parece o murmúrio agonizante do coração esmagado por todas as angústias, de perto e de longe.
Uma espécie de rio que não sabe correr!
Como não havia de ser triste a penedia sobre a qual nos sentamos, não já para ver o mar que se esconde para além da linha do horizonte, mas para projectar nele o nosso, enraizar “em água este Marão que” somos nós?
Estou de acordo: se me situo nesse triste 10 de Abril de 1940, sem outro subsídio que me ajude apreciar o que vêem os olhos do corpo, senão a sensibilidade do homem e do artista, talvez também não descubra, para além das ondas azuis do mar, senão esse rio que não sabe correr.
Muito menos ainda, quando reparo a olho nu, que se completam hoje precisamente 24 anos sobre a primeira legalização, a nível mundial, da eutanásia; para mais, num dos países fundadores daquilo que, após várias mudanças de nome, se designa por União Europeia; não sabemos bem como, nem porquê.
Fui ver o mar, diz Miguel Torga, numa expressão cuja beleza me encanta, me atrai pela profundidade com que recria a realidade que contempla; mas me deixa mergulhado numa tristeza semelhante à do rio que para ele não sabe correr.
E compreendo perfeitamente que não há outro meio de combater essa tristeza, senão seguindo o conselho do santo poeta e profeta do Antigo Testamento, que ditou, escreveu, recolheu ou inseriu no respectivo livro, o salmo donde é tirado o cântico de resposta à primeira leitura desta quinta-feira:
“Procurai o Senhor e o seu poder,
buscai sempre a sua face.
Recordai as suas maravilhas,
os seus prodígios e os oráculos da sua boca” (Sl 104[105], 4-5).
De alguns parágrafos do comentário de santo Agostinho a este salmo, retiro o pensamento da conjugação da Caridade com a Fé, na ultrapassagem dessa linha que, por mais que abramos os olhos do corpo e da razão, estará sempre lá, como se tudo parasse ali, o imenso rio das angústias humanas, “que não sabe correr”.
Comenta o santo Doutor a exortação do salmista: “Procurai sempre a face do Senhor:
A Caridade encontra-o pela fé e procura o seu rosto. Onde será possível tê-lo de tal modo que já não precisemos de o procurar? De facto, se a fé o não encontrasse nesta vida, não se diria: Procurai o Senhor: e, uma vez encontrado, que o ímpio mude os seus caminhos… além de que, se é pela fé que o encontramos, temos de continuar a procurá-lo; mas com a alegria de quem sabe que se verdadeiramente o procuramos, já o encontrámos.
Para além deste Marão que, segundo a linguagem do poeta, é cada um de nós, está o oceano imenso da misericórdia divina, que, se permitirmos, transformará os nossos tormentos em dores de parto, um rio que não pára de correr, porque a vida que nos fascina, está sempre para além da linha do horizonte.
(Fátima, 25.04.10)