Em todo o Evangelho, nas quatro versões reconhecidas como inspiradas pela comunidade crente, há muitas referências à montanha relacionada com momentos significativos da missão de Jesus.
Hoje tomo com especial significado a ligação da montanha das tentações de Jesus com o monte das oliveiras, onde Ele faz oração, na madrugada do dia em que realiza a entrada triunfal em Jerusalém.
Diz São Mateus, depois de nos descrever o baptismo e a epifania do Jordão:
“Em seguida, o diabo conduziu-o a um monte muito alto e, mostrando-lhe todos os reinos do mundo com a sua glória, disse-lhe: «Tudo isto te darei, se, prostrado, me adorares.» Respondeu-lhe Jesus: «Vai-te, Satanás, pois está escrito: Ao Senhor, teu Deus, adorarás e só a Ele prestarás culto»” (Mt 4, 8-10).
Não. O diabo, que conhecia tão bem as Escrituras, não sabia tudo a respeito de Jesus Cristo; não sabia, mas intuía que o reino messiânico seria mais íntimo, profundo e universal: conhecia certamente as fronteiras do próprio poder, que, de facto, apesar de grande, não ia além do que Deus lhe permitia.
Propõe-lhe, por isso, um acordo, uma espécie de segunda via: de facto, ainda que nos pareça absurdo, propõe-lhe conseguir esse reino de forma mais rápida e menos trabalhosa, utilizando o trampolim do mal, como fazem os que ainda hoje o escutam, esquecendo que os fins não justificam os meios.
O caminho escolhido por Deus, Criador e Redento universal, não poderia, em caso nenhum, partir de uma derrota do Bem, que seria a adoração do Mal.
Seguindo São Mateus, recolhendo alguns pormenores dos outros evangelistas, vemos Jesus com os discípulos, no monte das Oliveiras, onde passa a noite em oração e, chegados perto de Betfagé, “enviou dois discípulos, dizendo-lhes:
«Ide à aldeia que está em frente de vós e logo encontrareis uma jumenta presa e com ela um jumentinho. Soltai-os e trazei-mos. E, se alguém vos disser alguma coisa, respondereis: ‘O Senhor precisa deles, mas logo os devolverá».
Nisto vê Mateus o cumprimento da profecia: «Dizei à filha de Sião: Aí vem o teu Rei, ao teu encontro, manso e montado num jumentinho, filho de uma jumenta».
E todos sabemos o que aconteceu depois:
“Os discípulos foram e fizeram como Jesus lhes ordenara.
Trouxeram a jumenta e o jumentinho, puseram as suas capas sobre eles e Jesus sentou-se em cima.
Uma grande multidão estendia as suas capas no caminho; outros cortavam ramos das árvores e espalhavam-nos pelo chão. E todos, quer os que iam à sua frente, quer aqueles que o seguiam, diziam em altos brados:
«Hossana ao Filho de David! Bendito seja aquele que vem em nome do Senhor! Hossana nas alturas!» (Cfr Mt 21, 1-9).
Na última edição do Missal Romano, antes da reforma pós-conciliar, sugeria-se o canto das duas antífonas seguintes, enquanto se fazia a distribuição dos ramos pelos fiéis presentes:
“Os meninos dos hebreus, segurando ramos de oliveira, foram ao encontro do Senhor aclamando e cantando: Hosana, nas alturas!”
E depois:
“Os meninos dos Hebreus estendiam as próprias vestes no caminho e aclamavam dizendo: Hosana ao Filho de David. Bendito o que vem em nome do Senhor!”
Durante a procissão, entre outros passos bíblicos, recordava-se a preferência de Lucas pelos pobres os simples e as crianças (Cf. Lc 19, 37- 40).
Claro que há gente que se escandaliza; e não está privado de uma profunda ironia, que essas pessoas pertençam precisamente ao grupo dos que estavam em melhores condições de perceber o sentido do que viam, ou, pelos menos de se perguntarem se não estariam perante um novo sinal de Deus.
Por isso Jesus responde aos seus protestos: «Digo-vos que, se eles se calarem, gritarão as pedras».
De monte a monte, ou, se quisermos, do ponto de mira ambicioso à Cidade Santa: as sugestões do orgulho e da ambição desmedida, que pretende sempre ir para além do que permite a honra de Deus, não se combatem senão com o gesto oposto do mesmo Deus: os grandes do mundo. reis e conquistadores de impérios – da fama, do poder político, territorial, social e económico (eu diria até religioso) – marcham sempre em grandes montadas.
O Rei dos reis, o Senhor dos senhores e quem quiser gozar da cidadania concedida por Ele, faz questão de não precisar mais do que de um humilde jumentinho, tão humilde e destreinado, que precisa da companhia da jumenta, para não se espantar demasiado.
Como é possível que alguém diga que as celebrações pascais são puro folclore?
Só fixando-se naqueles que deixaram esvaziar de tal modo os conteúdos da fé, que já não pensam senão nas oportunidades criadas pelas pausas do trabalho e as explorações do consumismo universal.
(Fátima, 25.04.14)