NA HORA DAS TREVAS

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O quarto Evangelho está, desde o Prólogo, marcado pelo mistério da luta entre as trevas e a luz, como se se tratasse de duas entidades em busca do poder absoluto sobre o mundo; uma luta aparentemente desigual, porque as armas de que se servem as trevas se geram a si próprias, dando muitas vezes às trevas as cores fascinantes da luz.

“O Verbo era a Luz verdadeira, que, ao vir ao mundo, a todo o homem ilumina. Ele estava no mundo e por Ele o mundo veio à existência, mas o mundo não O reconheceu.

Veio para o que era seu, e os seus não O receberam” (Jo 1, 9-11).

Foi assim, era assim, continuou assim e assim será até ao fim dos séculos. E, enquanto durar esta luta, multiplicar-se-ão as horas da escuridão; os momentos em que as trevas, na ilusão máxima da sua vitória, se desvanecem perante a força indestrutível dos clarões divinos.

Por isso, acrescenta o mesmo evangelista: “Mas a quantos O receberam, aos que nele crêem, deu-lhes o poder de se tornarem filhos de Deus.

Estes não nasceram de laços de sangue nem de um impulso da carne, nem da vontade de um homem, mas sim de Deus” (Ibidem, 12-13).

Acontece, porém, que tal nascimento, anunciado, por exemplo, a Nicodemos (Jo 3, 3), não terá outra visibilidade senão a do interior do homem, acessível pelos seus efeitos, mas apenas ao olhar dos corações rectos.

Assim, as trevas caminharão sempre na ilusão de uma vitória que, apesar de tudo, pressentem nunca estar completa. Intensificam-se as suas armas, até que, no último paroxismo da luta, a luz apaga por completo as trevas.

O campo da batalha final, onde as trevas chegam aos limites que não podem ultrapassar, é a Cruz: aí, a vitória máxima do mal coincide com a sua derrota definitiva.

O Calvário, quase no mesmo espaço do sepulcro vazio, celebramo-lo nestes dias, como facto e figura do mistério que só a fé apreende, ainda que, porque misterioso, não o entenda.

Isso explica também que, sobretudo nos relatos joaninos, a hora de Jesus nos apareça simultaneamente como a maior vitória do mal e a consumação da glória e Jesus Cristo, que, como diz a liturgia eucarística, para cumprir a vontade do Pai e adquirir para Ele um povo santo, estendeu os braços e morreu na cruz, destruindo a morte e anunciando a glória da ressurreição (Prece eucarística II).

Mas as trevas marcam a sua hora de forma tremenda; tão tremenda, que espanta a superficialidade com que geralmente se pensa nisso, entretidos como andamos tantas vezes com a reconstituição espectacular de eventos cujo significado está muito para além da sua facticidade.

A traição de Judas: “Tendo tomado o bocado de pão, saiu logo. Fazia-se noite” (Jo 13, 30), seguida da negação de Pedro: “«Homem, não sei o que dizes.»

E, no mesmo instante, estando ele ainda a falar, cantou um galo. Voltando-se, o Senhor fixou os olhos em Pedro; e Pedro recordou-se da palavra do Senhor, quando lhe disse: «Hoje, antes de o galo cantar, irás negar-me três vezes.» E, vindo para fora, chorou amargamente” (Lc 22, 60-62).

Dois homens, duas atitudes diante de Cristo, Luz do mundo, do seu mistério presente na história dos homens.

É verdade. Mas acima de tudo, no conteúdo mais profundo da Palavra de Deus, duas sínteses do que de mais grave pode, em cada um de nós, constituir a rejeição das exigências do nosso Baptismo: porque aqui não se fala de inimigos, mas de discípulos.

Entre a traição e a negação, não será fácil saber qual é mais grave, nem isso tem qualquer relevância, senão para os psicólogos, que, como tais, não reparam que o único que conta é a pessoa de Jesus Cristo.

É d’Ele aquele olhar que fez sair Pedro da sua deslealdade, chorando amargamente: e se queremos distinguir Pedro de Judas, será apenas nos efeitos desse terníssimo olhar que Deus, feito homem, pelos homens, nos lança para que O deixemos derrotar as trevas que sempre nos ameaçam e às vezes escondem o caminho

A Esperança não engana, diz o Santo Pedro, na abertura da bula proclamatória do Ano Jubilar.

Que admirável conforto nos deixa Jesus, nesta prece final da ceia de despedida:

Diz o quarto evangelho, recordando o último momento:

“Jesus, levantando os olhos ao céu, exclamou: «Pai, chegou a hora! Manifesta a glória do teu Filho, de modo que o Filho manifeste a tua glória, segundo o poder que lhe deste sobre toda a Humanidade, a fim de que dê a vida eterna a todos os que lhe entregaste.

Esta é a vida eterna: que te conheçam a ti, único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, a quem Tu enviaste» (Jo 17, 1-4).

(Fátima, 25.04.17)

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