PARA ALÉM DA PÁGINA AMARELECIDA DE UM JORNAL

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O coração tem razões que a razão não entende (Pascal)

Quando comecei a alinhavar a os pensamentos para dar alma às palavras que queria escrever, a primeira coisa que me ofereceu a memória, foi a célebre frase do pensador francês; frase tão mal compreendida como o seu autor, mas ainda hoje, muito mais manipulada.

Tirada do seu contexto, fica completamente desarmada perante o uso que fazem habitualmente da polissemia das palavras, ignorantes e mixordeiros.

Depois, pensando melhor, achei que devia limitar-me ao âmbito da fé, evitando a extrema complexidade de aspectos sob os quais podem os sábios analisar qualquer figura humana, da imensa galeria que nos fornecem as tradições étnico culturais, as lendas, os mitos, a arte e a literatura.

Em termos apologéticos – uma forma de argumentação quase tão antiga como as mais antigas na tradição patrística. em termos apologéticos, poderíamos falar do milagre moral, que, bem analisado, sem ideias preconcebidas, poderia, pelo menos poupar-se muito o tempo e esforço que hoje alguns pensadores consomem, talvez com bons objectivos, mas, do meu ponto de vista, por uma via mais desactualizada do que pode parecer.

Parto de uma exigência incontornável da minha fé: a Sagrada Escritura – não falo da Bíblia -, é a palavra viva de Deus: de um Deus vivo, para o homem de sempre.

O que muitas vezes nos leva a confundir as coisas é que essa palavra não deixa de ser palavra humana, verdadeiramente humana, eu diria mesmo, integralmente humana.

Como desde sempre fizeram e continuam a fazer os crentes, naturalmente com a ajuda da Graça, o que devem fazer é abrir o coração para perceber o divino que se esconde por detrás dela.

Continuamos mergulhados no mistério da Encarnação: perante tal mistério, a razão humana pode errar por defeito ou por excesso: o defeito, hoje demasiado comum em certos ambientes escolares, será ver em Jesus apenas o homem histórico, como qualquer outra figura da história. Por excesso pecam os que se fixam de tal modo na divindade, que se chocam com a humanidade de Deus.

E é este Deus que, na sua perfeita humanidade, totalmente identificado com o homem – em tudo, excepto no pecado, diz São Paulo – no inimaginável extremo da miséria humana, é este Deus que recita o Salmo 22 (23), oração do crente que sofre com os olhos no Único que pode salvá-lo:

“Meu Deus, meu Deus, porque me abandonaste, rejeitando o meu lamento, o meu grito de socorro? (…) Eu sou um verme e não um homem, o opróbrio dos homens e o desprezo da plebe.

Todos os que me vêem escarnecem de mim; estendem os lábios e abanam a cabeça.

Confiou no SENHOR, Ele que o livre; Ele que o salve, já que é seu amigo.”

Foi a partir destas palavras que tantos judeus descobriram no mártir da Cruz, toda a história do seu povo; uma hstória que se continua na história da Igreja e de cada um dos membros, cada um de nós.

A história real, invisível e profunda: a vida, para salvar a qual, Deus quis vivê-la de modo humano; a fim de que não tivéssemos mais alegrias nem dores que não pudessem ser divinas… e divinas, porque verdadeiramente humanas.

“Junto à cruz de Jesus estavam sua mãe e a irmã da sua mãe, Maria, a mulher de Clopas, e Maria Madalena.

Então, Jesus, ao ver ali ao pé a sua mãe e o discípulo que Ele amava, disse à mãe: «Mulher, eis o teu filho!» Depois, disse ao discípulo: «Eis a tua mãe!» E, desde aquela hora, o discípulo acolheu-a como sua.” (Jo 17, 25-27).

Na indicação deste mistério, todos os pormenores são profundamente significativos, e não podem ser lidos como quem os lê apenas como uma informação jornalística.

Estavam: o original grego e a tradução latina, indicam claramente que estavam de pé; e foi assim que a tradição cristã sempre viu, pelo menos a mãe de Jesus e o discípulo amado, que são aqui, com Jesus, as figuras centrais do mistério.

Porque é do mistério que se trata: o mistério de Deus e do homem; ou, se quisermos, o mistério da criatura que, por ser imagem do seu Criador, ninguém poderá explicar cabalmente, nem na alegria, nem na dor, sem ter em conta esta relação misteriosa.

De pé, junto à Cruz; ou a Cruz, erguida no campo de batalha da luta entre a luz e as trevas e com ela os primeiros que aceitaram ir com Jesus, até á vitória das trevas, que é precisamente a sua derrota definitiva.

(Fátima, 25.04.19)

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