(Is 55, 10-11; Mt 6, 7-15)
Antes de começar:
Teria este título o conjunto de reflexões que foram acompanhando os meus dias de reclusão no leito, entregue aos cuidados competentes e carinhosos das pessoas que, apesar dos meus momentos de mau humor, nunca desistiram de insistir comigo na necessidade de cultivar a esperança e fazer o que me pediam, porque, diziam, era para meu bem.
Era para meu bem!
Foi exactamente a partir desta afirmação que, apesar de estar de acordo, comecei a pensar que, se o que estavam a fazer por mim fosse só parra meu bem, não valeria a pena: aos noventa anos, que outro bem podemos desejar para nós, senão que Deus nos ajude a continuar servindo-O com tudo o que temos à mão para isso?
Muitas ideias belas me despertou a lembrança do Venerável Francisco Xavier van Thuan, que fez dos treze anos da sua vida nas prisões do regime comunista vietnamita uma cátedra de palavras e factos que tocavam inclusivamente o coração de muitos dos seus carrascos.
Destas ideias, unidas à convicção de que, para ser padre até ao fim, fui pregando a mim próprio, colmatando a falta de actividade com pensamentos e palavras que talvez reunisse um dia, ou deixasse para outro reunir, caso se achasse que podiam ajudar alguém a valorizar melhor o tempo que recebeu de Deus para O servir e amar, como nos ensinavam no catecismo da minha infância.
Não sei por que via chegaram ao público alguns desses textos, porque, de facto, tinham outro destino. Assim, parece-me melhor guardá-los todos no baú, à espera que surja uma oportunidade de publicação ou desaparecimento definitivo.
“Clarões nas trevas do sofrimento” – expressão que teria de ser analisada discutindo o conteúdo semântico das palavras que a compõem – serve hoje apenas, nesta primeira terça-feira da Quaresma, para introduzir duas ou três reflexões pessoais a partir dos textos da liturgia.
Na Liturgia das Horas lêem-se estas palavras de São Cipriano, extraídas do início do seu belíssimo tratado sobre o Pai Nosso: “Aquele que nos deu a vida, também nos ensinou a orar com a mesma bondade com que Se dignou conceder-nos tantos outros benefícios, a fim de que, dirigindo nós ao Pai a súplica e oração que o Filho nos ensinou, mais facilmente sejamos atendidos”.
Tem-se escrito muito sobre o Pai Nosso, que também se chama Oração Dominial: dominical, porque a aprendemos directamente da boca do Senhor Jesus Cristo, que assim nos ensina, como ponto central da Sua mensagem, que Deus é NOSSO Pai e, consequentemente, todos somos irmãos.
O Papa Francisco, num dos seus primeiros documentos doutrinais, que se inicia com palavras do Pobrezinho de Assis, geralmente mal traduzidas nas edições portuguesas, afirma expressamente:
“Como crentes, pensamos que, sem uma abertura ao Pai de todos, não podem haver razões sólidas e estáveis para o apelo à fraternidade. Estamos convencidos de que «só com esta consciência de filhos que não são órfãos podemos viver em paz entre nós». “Com efeito, ‘a razão, por si só, é capaz de ver a igualdade entre os homens e estabelecer uma convivência cívica entre eles, mas não consegue fundar a fraternidade’» (“Fratelli tutti”, 272).
Regressando à imagem das trevas do sofrimento, que luz poderia quebrá-las com uma claridade maior do que a que chega até nós, quando reparamos que Deus é nosso pai? E não se trata de uma metáfora: foi Jesus, o Filho feito um de nós, sem deixar de ser também Ele verdadeiro Deus, foi Ele que nos ensinou, assinalando simultaneamente que, por isso mesmo, se Deus é nosso Pai, todos os homens são nossos irmãos; de modo que não podemos nunca sentir-nos sozinhos, abandonados nas trevas.
No pouco espaço de que posso dispor hoje, limito-me a confessar que, apesar de há muito me espicaçarem estas palavras do Papa Francisco, eu, tantas vezes preocupado com o efeito pastoral deste como de outros ensinamentos pontifícios – preocupação em si boa, mas que pode distrair-nos do essencial – não me dava conta de que o Pai Nosso, por mim próprio recitado maquinalmente, tinha pouco ou quase nenhum efeito na vida dos indivíduos e das nossas comunidades.
Esta oração que, noutros tempos, como eu tive a felicidade de me acontecer, se aprendia no regaço das mães, contém em si o essencial da mensagem evangélica; e penso que a sua importância não se pode satisfazer com uma simples festa, das muitas que se realizam nas nossas catequeses.
26.02.24 (publicado em 26.02.25)