A solenidade da Epifania do Senhor, celebrada pela Igreja Católica a 6 de janeiro e, em Portugal, no primeiro domingo do ano, ocupa um lugar central no ciclo litúrgico do Natal. Celebra-se que Jesus Cristo, nascido em Belém, não se revela apenas ao povo de Israel, mas a toda a humanidade, representada pelos Magos vindos de terras distantes. Esta festa sublinha, de modo particular, a universalidade da salvação e a manifestação de Deus a todos os povos, culturas e línguas.
Ao longo dos séculos, a Epifania adquiriu uma grande densidade teológica, litúrgica e cultural, encontrando também em Portugal expressões próprias na vida das comunidades cristãs e na piedade popular ligada ao chamado Dia de Reis. Mais do que uma simples evocação histórica, esta solenidade continua a interpelar os crentes de hoje, convidando-os a pôr-se a caminho na busca de Deus, a reconhecer e adorar Cristo e a assumir, com renovada coragem, a missão que brota do Evangelho.
O lugar da Epifania no ano litúrgico
A palavra “Epifania”, proveniente do grego epipháneia, significa “manifestação” ou “aparição” e, na tradição cristã, refere-se à manifestação de Jesus Cristo como Filho de Deus e Salvador do mundo. Inserida no Tempo do Natal, esta solenidade destaca uma dimensão essencial deste mistério: o Menino nascido em Belém é luz destinada a iluminar todas as nações, realizando as antigas promessas de Deus ao seu povo.
Enquanto o Natal põe em relevo a encarnação do Verbo e a sua humilde manifestação aos pequenos e pobres, representados pelos pastores, a Epifania proclama que o mesmo Cristo se dá a conhecer àqueles que vêm de “fora”: homens que não pertencem ao povo de Israel, mas que se deixam conduzir por um sinal e se abrem à novidade de Deus. A festa assume, assim, um caráter marcado pela abertura, pela universalidade e pela missão, ajudando a contemplar o Natal numa perspetiva mais ampla.
A fundamentação bíblica: os Magos e a estrela
O fundamento bíblico da Epifania encontra-se, de modo particular, no Evangelho segundo São Mateus, que narra a visita de alguns Magos vindos do Oriente. Guiados por uma estrela, estes sábios chegam a Jerusalém à procura do “rei dos judeus que acaba de nascer” e, depois de dialogarem com Herodes e com os doutores da Lei, prosseguem caminho até Belém, onde encontram o Menino com Maria, sua Mãe, e se prostram em adoração.
Este episódio, breve mas de grande densidade simbólica, ilumina vários aspetos centrais da fé cristã. Mostra, antes de mais, que Deus se deixa encontrar por quem o procura com coração sincero, mesmo que venha de longe e por caminhos inesperados. Revela também o contraste entre a abertura dos Magos e a atitude de Herodes e de muitos habitantes de Jerusalém: estes possuem o conhecimento das Escrituras, mas permanecem fechados, indiferentes ou hostis ao Messias que nasce. Por fim, sugere que a revelação divina ultrapassa fronteiras religiosas, culturais e geográficas, abrindo o plano de Deus a todos os povos.
A estrela ocupa, neste relato, um lugar decisivo. Surge como sinal que orienta, conduz e ilumina, símbolo da luz de Deus que não se impõe, mas se oferece. A narrativa articula a atenção à realidade – a observação dos astros, a leitura dos sinais – com a docilidade a uma iniciativa que excede qualquer cálculo humano. A Epifania recorda, assim, que a busca sincera da verdade, quando vivida com humildade, pode preparar o encontro com Cristo.
Os Magos e os seus dons: uma humanidade em caminho
Os Magos do Oriente são figuras envoltas em mistério. O evangelho não indica o seu número, não os identifica como reis nem fornece grandes detalhes biográficos. A tradição cristã, ao longo dos séculos, atribuiu-lhes nomes, origem e dignidade régia, fixando o número em três, em correspondência com os dons oferecidos. Mais importante do que a curiosidade histórica é, no entanto, o seu significado teológico e espiritual.
Neles a Igreja reconhece a humanidade em busca de sentido, de verdade e de salvação. São homens atentos aos sinais, capazes de ler na criação um apelo de Deus, e decididos a deixar a própria segurança para empreender uma longa viagem. A sua atitude contrasta com a lógica do poder de Herodes, preocupado apenas em defender o próprio trono, e com a indiferença de tantos que, apesar de conhecerem as promessas, não se movem para ir ao encontro do Messias.
Ao ajoelharem-se diante do Menino em Belém, os Magos reconhecem uma autoridade que não se confunde com a força ou o prestígio humanos. Ajoelham diante de um Deus que se manifesta na fragilidade, na pobreza e no silêncio de uma criança. O seu gesto de adoração torna-se paradigma de toda a fé cristã: reconhecer em Jesus, aparentemente frágil e desarmado, o Salvador enviado por Deus.
Os dons de ouro, incenso e mirra, apresentados ao Menino, possuem igualmente um forte valor simbólico. O ouro, associado à realeza, exprime a fé em Jesus como verdadeiro Rei. O incenso, ligado ao culto, aponta para a sua divindade e convida à adoração. A mirra, usada na antiguidade para embalsamar, antecipa o mistério da paixão e morte de Cristo, indicando que a glória pascal passa pelo dom da vida.
Desde o início, a Epifania contém, em germe, todo o mistério pascal: o Menino adorado será o Crucificado e Ressuscitado, que entrega a vida pela salvação do mundo. A festa não se limita, por isso, às memórias da infância de Jesus, mas remete para a totalidade do seu mistério, da manjedoura à cruz e à ressurreição.
A liturgia da Epifania: luz que reúne todos os povos
A liturgia da Epifania exprime, com grande riqueza, o significado desta solenidade. As leituras bíblicas dão voz à esperança de um povo que vê aproximar-se a luz do Senhor e à convicção de que essa luz é destinada a todos. O profeta Isaías evoca Jerusalém iluminada pela glória de Deus, para onde convergem as nações trazendo os seus dons; o salmo responsorial proclama que todos os povos hão de adorar o Senhor; a segunda leitura insiste no mistério agora revelado: também os gentios são herdeiros das promessas em Cristo.
O evangelho com a visita dos Magos é o centro da celebração, iluminando a homilia e inspirando a oração da assembleia. As orações próprias da missa sublinham a manifestação de Cristo às nações, a luz que se levanta sobre a humanidade e o chamamento à adoração. Em muitas comunidades, conserva-se ainda o belo costume de, neste dia, se proclamar solenemente o calendário das principais festas móveis do ano litúrgico, ligando a Epifania ao conjunto do caminho celebrativo da Igreja e recordando que todo o ano se desdobra a partir do mistério de Cristo.
A Epifania na tradição da Igreja em Portugal
Em Portugal, a Epifania está profundamente ligada à vivência popular do Dia de Reis e às diversas expressões culturais que o acompanham. Em muitas paróquias, a solenidade é celebrada com particular cuidado e solenidade, quer no dia 6 de janeiro, quer no domingo em que é transferida, de acordo com as orientações litúrgicas. Há comunidades onde se mantém a tradição da bênção das casas, com a inscrição, nas portas, de um sinal que exprime o desejo de que Cristo habite aquele lar ao longo do novo ano.
As janeiras, os cânticos de Reis, os encontros de convívio e partilha integram o património cultural de várias regiões do país, constituindo oportunidade privilegiada para reforçar laços comunitários. Quando devidamente acompanhadas por uma dimensão de anúncio e de catequese, estas práticas ajudam a manter viva a memória cristã da festa, evitando que se reduza a um mero folclore desligado da sua origem. A presença dos Magos nos presépios familiares e nas igrejas torna-se, assim, ocasião para explicar às crianças e jovens o sentido profundo da Epifania e da universalidade da salvação.
Uma mensagem atual: luz, caminho e missão
Num mundo marcado por incertezas, conflitos, crises sociais e culturais, a Epifania conserva uma extraordinária atualidade. A imagem da luz que brilha nas trevas continua a tocar a experiência de povos e pessoas que procuram orientação e esperança. Cristo apresenta-se como essa luz que não se apaga, capaz de iluminar caminhos pessoais, familiares e sociais, mesmo nos contextos mais difíceis.
A atitude dos Magos interpela os cristãos a não se instalarem na indiferença ou no comodismo, mas a colocarem-se em movimento, disponíveis para procurar Deus e para se deixarem transformar pelo encontro com Ele. A fé não surge como uma posse adquirida para sempre, mas como um caminho permanente de escuta, discernimento e conversão. A estrela que guia pode assumir hoje muitas formas: um testemunho, uma comunidade viva, um apelo à justiça, um acontecimento que provoca perguntas.
Ao celebrar a Epifania, a Igreja renova também a consciência da sua identidade missionária. Tal como os Magos foram conduzidos até Cristo, assim a comunidade cristã é chamada a ser sinal e instrumento da luz de Deus no meio do mundo. A missão concretiza-se na palavra anunciada, na coerência de vida, na caridade que se torna próxima de quem sofre, na promoção da justiça e na construção da paz.
Viver a Epifania significa, em última análise, assumir o compromisso de tornar visível, hoje, a presença de Cristo. Em comunidades acolhedoras, atentas aos mais frágeis, abertas a todos os que se aproximam, a Igreja proclama, com humildade e alegria, que Deus se manifestou em Jesus Cristo para a salvação de todos. Entre a estrela que guia e a adoração dos Magos, a solenidade da Epifania convida cada batizado a renovar a própria fé, a pôr-se a caminho e a participar ativamente na missão de deixar resplandecer, no mundo de hoje, a luz de Cristo.