O TALENTO ENTERRADO

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Não me envergonho de confessar que só muito tarde, já nos primeiros anos do século XXI, ao ler o testemunho directo do Cardeal Francisco Xavier N. Van Thuan, que vivera treze anos encerrado nas prisões do Vietcongue (15.08.1975 a 21.11.1988 – duas festas de Nossa Senhora que não lhe passaram despercebidas -), só então reparei em duas coisas que, de certo modo ainda hoje iluminam de forma fascinante toda a minha vida: o que há muito vinha aprendendo sobre o universal valor das coisas pequenas e de como isso está significado na importância que a parábola dá à figura do homem que recebe apenas um talento.

Aliás, trata-se de uma parábola que temos de ler e meditar com grande cuidado, porque podemos ser traídos por vários elementos, não do seu conteúdo, mas de uma linguagem particularmente marcada pelos costumes da época.

No texto evangélico, “talento” é uma moeda, já aqui tomada em sentido metafórico; na nossa cultura actual, trata-se de um vocábulo que, a um primeiro nível de significado, não faz referência ao dinheiro; mas evoca, em qualquer dos casos, qualidades positivas, tendencialmente apreciadas pelo brilho que com o seu uso, se adquire no seio da comunidade civil e em certos casos, também religiosa.

Pessoalmente creio que ao ler esta parábola dominados por uma tal mentalidade, se corre o risco de, entre outras coisas, cair na insolência do terceiro servo, o que recebe um só talento:

“Senhor, eu sabia que és um homem severo, que colhes onde não semeaste e recolhes onde nada lançaste. Por isso, tive medo e escondi o teu talento na terra. Aqui tens o que te pertence”.

Por outras palavras: Deus não é justo, porque não só não dá a todos por igual, como premeia os que receberam mais pelo que, com o uso desses talentos, alcançam de glória e prestígio social.

Mas o maior perigo que corremos – e isso acutila-me especialmente desde que li o testemunho de Van Thuan – é o de perdermos a maior parte do nosso tempo, à espera de oportunidades que não chegarão nunca: Van Thuan, que, ao ser encarcerado, reage contra a primeira tentação do deserto em que entrava, privado de tudo, menos da sua fé: animado pelo exemplo de São Paulo e outros grandes missionários da Igreja, decide abraçar a sua nova condição como o campo de trabalho apostólico que Deus lhe destina e concentra-se no caminho doloroso que tem de empreender, fazendo com que ele renda o mais possível, fecundado pelo sentido redentor que vai dar à sua caminhada.

E volto à parábola dos talentos:

Desde aquela pergunta que, na cama do hospital, me fizeram as boas senhoras que, com tanto carinho, cuidavam de mim, desde essa pergunta e da oportunidade que me deram para lhes oferecer uma outra perspectiva do meu sacerdócio, desde aquela pergunta e das explicações que dei a quem me quis ouvir, que nunca mais a figura do servo enterrando o talento que recebera tomando-o como uma discriminação, deixou de estar no horizonte do meu exame de consciência. Com ela o tempo e o espaço da fidelidade ao ministério perderam as fronteiras: porque, consagrado pelo sacramento da Ordem, não podia, melhor, não posso ser sacerdote a prazo.

Por isso, na minha meditação da parábola, prefiro partir do Dador e dos talentos, distribuídos pelo proprietário “conforme a capacidade de cada qual» diz o texto, certamente não para indicar uma condição prévia, mas a excelência do próprio dom, que se negoceia quer com cinco, quer com dois. Até porque o prémio será fundamentalmente o mesmo: entra na alegria do teu senhor!

Fazer render o talento que se recebeu – negociar, segundo a linguagem do Evangelho – não será nunca uma questão de gosto ou brilho pessoal, ainda que uma coisa e outra possam estar presentes… muitas vezes mais como tentação do que como ornamento.

No esplendor das bibliotecas, dos cartórios, das cátedras universitárias e dos púlpitos das grandes catedrais, como na pobreza das ermidas e no interior do confessionário… à beira do leito do enfermo que espera o último abraço da misericórdia divina… não será frequente esquecermos-nos de que estamos a “negociar” com uma moeda que não é nossa; e, ainda que por vezes nos procuremos a nós, talvez a figura do servo que enterra o seu talento, não tenha a ver com isso.

A tentação de pegar no lenço, embrulhar nele essa moeda e enterrá-la num buraco, assalta-nos sempre que a idade ou a doença vão reduzindo a nossa capacidade de lutar na vanguarda, tornando-nos, ao mesmo tempo, cada vez mais dependentes dos cuidados dos outros.

E, se não reagimos, vamos de infidelidade em infidelidade, deixando que cresça em nós a amargura, diria mesmo, a provocação insultuosa do servo que o senhor classifica de preguiçoso e mau.

Corta-me aqui o pensamento – eu estava, de facto, demasiado distraído com a teoria – o sorriso da veleira que vem todas as madrugadas ajudar-me na higiene matinal: e sinto um enorme conforto quando me lembro de que é isso mesmo: a minha missa diária começa assim.

O sorriso daquele coração bondoso cruzou-se com o meu e iniciámos, cada qual â sua maneira, o “negócio” que o Senhor nos confiara.

Como Van Thuan, quando, apesar da oportunidade que teve de fugir, abraçou a prisão do vietcongue, sem perder tempo com pensamentos estéreis.

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